Chapter Text
There is a house in New Orleans, they call the rising sun. And it's been the ruin of many a poor boy. And God I know...
I'm one.
The House of The Rising Sun - The Animals.
𝙸𝙸
Sangue e Fúria.
O dia estava bonito. Senti o vento acariciar meu rosto, o som dos pássaros alegravam ainda mais essa manhã, o campo verde parecia dançar com a doce melodia, era um sonho tão bonito que desejei não acordar. Ouvi a voz masculina que pensei ser outra pessoa me chamar, me sustei ao ver que não era quem eu pensava ser, um homem alto, cabelos rosados e tatuagens pretas por todo seu corpo, símbolos estranhos começaram a brotar por todo chão abaixo de meus pés, que agora davam espaço para um chão rochoso e escuro, diferente do belo campo verde.
O homem me encarava com raiva, seu olhar era ameaçador e seu rosto portava um detalhe difícil de não notar, uma enorme cicatriz ao lado esquerdo de seu rosto, era assustador, medonho, bizarro, tudo de ruim, eu queria acordar e esquecer tudo aquilo, fechei os olhos mas nada adiantou. O som de passos se transformaram em uma marcha pesada com barulhos exorbitantes, foi tudo que vi acompanhando com a imagem do homem vindo em minha direção, cada vez mais rápido, cada vez mais perto, um grito se instalou em minha garganta, sem conseguir emitir nem um som, tudo que vi antes de apagar foi o rosto da figura maligna sorrir, antes de me desferir um golpe e eu cair no chão, e uma escuridão se apossar de minha visão.
Suado, com a respiração pingando e um olhar preocupado de meu avô foi como acordei, suspirei aliviado e o abracei, lágrimas desceram pelo meu rosto ao recordar do medo em que senti no sonho, meu avô acariciava minhas madeixas e dizia um “tudo bem, só foi um sonho ruim, vai passar”, tentei acreditar em sua palavras mas minha cabeça se esforçava a contrariar, revelando as imagens do sonho que arrepiaram todo meu corpo, abracei meu avô mais forte, soluçando baixo. Aos poucos meu coração que batia forte começou a se acalmar, minha respiração pesada se tornou leve e sonolento fiquei, pedi baixinho se poderia dormir ao lado de meu avô pelo resto da noite, ele sorriu e disse um caloroso sim, eu me sentia protegido ao lado do meu avô, sentia que tudo ficaria bem, adormeci novamente, me sentindo seguro, pude dormir ao seu lado em paz.
…
– Yuji… Yuji… está na hora de acordar. – Resmunguei baixinho ao sentir meu avô me sacudir, abri os olhos e senti sua mão passar em minha testa. – Está na hora filho, é dia de colheita.
Olhei pela janela e o dia ensolarado invadia o quarto, sorri e andei em direção a ela, observando os camponeses passando com as carroças, alguns andando a pé e outros carregando coisas. Me senti motivado e fui em direção ao outro cômodo me lavar, lavei o rosto, limpei os dentes e molhei o resto do corpo, saí em direção ao meu quarto e me sequei, não tenho tantas opções de roupa, não demorei a me trocar. Meu avô já me esperava no andar de baixo, me juntei a ele e juntos saímos para fora da casa, eu me sentia bem caminhando, sorri em direção às pessoas e comprimentei algumas. Trilhamos em direção ao campo aberto, uma variação de verduras e frutas havia crescido desde a última colheita, tudo parecia bem, eu e meu avô decidimos nos separar, ele iria colher as verduras na terra e eu colher as frutas nas árvores, se terminarmos rápido poderíamos chegar antes do anoitecer e com sorte chegaríamos a salvo.
Eu nunca vi as frutas aparentar tão boas como agora, não resisti e mordi uma maçã, seu doce preenchendo minha boca, amanhã será um ótimo dia de vendas, a feira certamente estará lotada. Sai em busca de meu avô quando os dois barris lotaram de frutas, avistei ele perto da nossa pequena carroça, guardei os barris dentro dela, tudo pronto para seguir viagem, o sol já estava se pondo e precisávamos ir o quanto antes. Sugeri para meu avô subir na carroça, seu problema na perna nunca o deixaria andar mais rápido e nós estávamos perdendo tempo, por um momento meu avô hesitou mas logo aceitou, não tínhamos cavalo, eu teria que puxar a carroça, para mim não era um problema, um peso a mais não fazia diferença, puxei a carroça enquanto andava o mais rápido que pode, numa situação dessas era melhor correr mas eu não podia, se eu fizesse teria que correr o risco de derrubar nossa colheita, nosso trabalho duro teria sido em vão.
O alívio subiu pelo meu corpo quando avistei a arrandela presa ao lado da nossa porta brilhar, a noite já havia chegado trazendo o perigo consigo, pelo menos agora nós estávamos mais seguros. Pedi ao meu avô que entrasse na casa e me esperasse, eu iria descarregar nossa carroça sozinho, eu não queria expor meu avô em perigo, ele relutou, como sempre faz, típico de sua personalidade teimosa, eu garanti que tudo ficaria bem e que eu não iria demorar. Dito e feito, eu guardei os barris na loja, ao lado de nossa casa, corri o mais rápido que pude para dentro e dei de cara com meu avô na porta, me encarando preocupado, rapidamente fechei a porta atrás de mim, sorri alegre para o meu avô e repeti novamente que estava tudo bem.
Após o jantar subi para meu quarto, junto de meu avô que foi se deitar também, ele perguntou se estava tudo bem novamente, depois do pesadelo da noite passada ele provavelmente achava que eu não conseguiria dormir sozinho, sorri e falei que estava bem e que iria dormir sozinho mas se acontecer algo eu o chamaria, “boa noite” ele desejou antes de ir para seu quarto, retribui e fui me deitar, caindo de sono pelo cansaço.
Pela madrugada, um grito feminino rasgou os céus, ecoando forte como um sino, acordei num pulo assustado, me perguntando da onde vinha. A janela de meu quarto revelava uma visão boa da rua, tudo o que acontecia nela dava pra ver sem receios, espiei pela janela e não pude acreditar no que estava vendo, uma mulher que não pude reconhecer estava sendo atacada por uma coisa diferente de tudo o que já vi, ele parecia um homem mas ao mesmo tempo tinha presas, suas unhas que mais pareciam garras perfuravam o corpo da mulher, que gritava em pura agonia, ele sugava com força seu pescoço, segurando forte com uma das mãos a cabeça da mulher. Eu não sei por quanto tempo fiquei olhando, só sei que uma hora a mulher parou de gritar, seu corpo foi jogado contra o chão, não sendo mais útil para a criatura, que abandonou o local após seu crime.
As batidas na porta do meu quarto me despertaram, andei em direção a elas e recebi meu avô, olhando assustado para mim.
– Você viu o que vi?
– Sim.
𝚇𝙸𝚇
O dia mal começou e já tinha tumulto por toda parte, hoje seria o dia que a feira voltaria a ativa depois do inverno, mas até então nem um comerciante pode montar sua barraca, isso porque a minha rua, onde é basicamente um ponto de comércio, estava lotada de gente, moradores de toda a parte se empurrando para ver algo que aparentemente estava no chão. Um cheiro insuportável começou a rodar no ar, um cheiro podre, de cadáver.
Me recordei do que havia acontecido ontem, e o que estava acontecendo agora começou a fazer muito sentido, eu a vi morrer no mesmo lugar onde o tumulto está acontecendo, um arrepio desceu pela minha espinha, era a ela a quem estavam vendo?
Um grande guarda, portando uma farda preta em seu peito, apareceu no local, afastando as pessoas para ver o que estava acontecendo, o espaço agora aberto revelou algo que mesmo já esperado me surpreendeu, o corpo da mulher caído no chão, seu pescoço coberto de sangue, seu belo vestido rasgado em pedaços e o pouco de pele descoberto de seu corpo com profundas marcas de garras, corri para longe, lágrimas escorrendo de meus olhos. Eu vi aquela mulher, com vida, vê-la daquele jeito me quebrou, se eu tivesse a ajudado… se eu tivesse feito algo por ela… talvez ela não teria o fim que teve. Uma forte vontade de vomitar embrulhou meu estômago, era tão nojento, como aquela criatura poderia fazer algo tão terrível para alguém? Eu não conseguia entender, eu não queria entender, tudo passava tão rápido pela minha cabeça, os gritos dela, imagens de seu corpo morto e o sangue… o madilto sangue! Era tanto que escorria que a mulher ficou completamente pálida, não havia sobrado nada dela, malditas sanguessugas! Isso não podia ficar assim, não podia!
– Yuji? Filho…? – Meu avô colocou sua mão em meu ombro, eu encarava o rio, minhas mãos segurando firme o cercado de concreto que separava o grande rio da vila.
– Eu… não fiz nada pra ajudá-la, vô. – As palavras refletem o peso em meu coração.
– Está tudo bem querido, não é sua culpa, é a culpa deles, eles são os monstros que tiram vidas, não estava no seu… no nosso alcance ajudá-la. – Suas palavras de consolo vieram com um abraço, retribuí de volta, me senti acolhido por ele, mesmo que eu não acreditasse em suas palavras por completo, a culpa ainda me perseguia.
…
A vila toda estava reunida quase uma hora depois de todos terem visto o corpo da falecida, o lorde Yaga Misamichi, responsável pela vila, já estava informado sobre tudo e marcou uma reunião com o povo de última hora. Então aqui estávamos nós, na praça principal, a única que tinha, para ouvir suas palavras.
– Reuni todos aqui para discutir sobre o que todos já devem estar sabendo. Primeiro, gostaria de informar que sinto muito pelo o que aconteceu, isso foi uma surpresa para todos nós, que a senhora falecida descanse em paz. – O Lorde retirou seu chapéu e fez uma pequena reverência antes de prosseguir. – Os vampiros, a quem tanto temíamos, voltaram. Seguindo as ordens da corte real, eu teria que realocar todos vocês para uma próxima vila, uma mais segura, porém no momento isso não será possível. As ruas de viagem para qualquer vila nos próximos 10 mil metros estão interditadas neste momento, a causa é que muitas das vilas próximas a nossa tentaram fugir na madrugada de hoje, infelizmente todas elas foram atacadas enquanto fugiam, seus corpos e carroças bloquearam todo o caminho, só será possível traçar pelo caminho apenas amanhã de manhã. – A notícia chocou a todos, pode-se ouvir vários resmungos soarem das pessoas. – Acreditamos que o vampiro que nos atacou ontem a noite estava em um desses bandos noturnos e que provavelmente se perdeu, por isso estava sozinho. Acreditamos também que hoje à noite seremos atacados novamente, por um número bem maior de vampiros. – O silêncio se instalou e logo gritos enfurecidos do povo tomou seu lugar, as pessoas interrompiam o Lorde, não deixando ele se explicar, o medo tomava conta das pessoas, suas vozes carregadas de pavor.
– Eu entendo, eu sei, por favor todos se acalmem! – O Lorde Yaga gritou, desde que começou, a reunião da vila não estava indo muito bem, todos estavam com medo e temiam pelo o que poderia acontecer, gritavam buscando por respostas, alguns sugeriram fugir enquanto ainda era de manhã, outros permaneciam calados, amedrontados o suficiente para nada conseguir sair de suas bocas. – Eu marquei essa reunião aqui para discutirmos qual providência devemos tomar daqui pra frente, não para gritar e chorar como cães assustados. Compreendo que estamos todos com medo, fazia séculos que a vila Westford não era atacada por vampiros, mas todos nós sabíamos que um dia isso poderia ocorrer novamente e esse dia chegou. – O silêncio se fez presente, todos atentos às suas palavras. – Esse não é o momento para desunião ou brigas, temos mais que nunca nos unirmos agora, hoje irei reunir alguns guardas para manter a vila em constante vigília, o resto de vocês, moradores, camponeses e comerciantes devem usar madeiras, ferro ou qualquer material para proteger suas portas e janelas. Hoje terá o toque de recolher, começará às 18:00 em ponto, nem um aldeão poderá sair depois desse horário, todos devem permanecer em suas casas durante a noite e não permitir a entrada ou saída de ninguém, até amanhã seguinte se mantenham a salvo, com sorte todos nós fugiremos para a próxima vila em segurança, assim que o sol nascer. Eu espero que todos tenham entendido, essa reunião está encerrada.
Após seu discurso, Lorde Yaga se foi, acompanhado de seus dois guardas para fora da praça pública, e não demorou muito para o povo da vila ir para suas casas também, ainda amedrontados, dessa vez em silêncio. Durante o caminho, segui andando ao lado de meus dois amigos, nós conversávamos sobre o ocorrido, meu avô observava calado.
– Nem um de vocês realmente conhecia a mulher morta? – Pergunto.
– Não, tudo o que sei é que ela era uma viúva, andava sozinha boa parte do tempo. Ela sequer teve velório, apenas enterraram seu corpo, isso porque ela não tinha parentes vivos. – Sasaki Setsuko, minha amiga, contou com uma expressão triste.
– Nossa, me sinto mal por ela, eu escutei seu grito durante a noite, eu sabia que ela precisava de ajuda e não fiz nada. – Abaixei a cabeça e encarei o chão andando pela estrada, senti frustração.
– Não é sua culpa, Yuji! Você não podia fazer nada. – Meu amigo, Iguchi Takeshi, toca gentilmente meu ombro, sorrindo pra mim.
Por mais que eles estejam certos, não consegui tirar o grito da mulher da minha mente, fiquei me perguntando porque não fiz nada? Por que não tentei espantar o monstro? Para alguém forte, eu agi como um covarde, que tipo de homem eu sou se nego ajuda a quem precisa? Essa será a primeira e última vez que isso irá acontecer, não importa como, mas vou proteger as pessoas da vila, meu avô e meus amigos. Não importa se o inimigo é forte demais ou que eu morra tentando, se eu tiver a oportunidade de ajudar, eu ajudarei.
Eu prometo à mim mesmo.
…
A tarde foi longa, meus dedos doíam como nunca, mas no final eu estava satisfeito, todas as casas da minha rua incluindo à minha ficaram com as janelas bem fechadas, graças ao meu trabalho e de outros moradores. Penduramos nas portas rodelas de alho e crucifixos por toda parte, estávamos preparados para qualquer ameaça vampírica, tanto que recebemos estacas de madeira de alguns carpinteiros como uma das medidas de proteção, alguns antigos acreditavam que se você acertasse bem no meio no coração de um vampiro com uma estaca de madeira, ele morreria, mas isso nunca foi realmente provado, ainda sim existem pessoas que acreditam nisso, e eu, mesmo sendo um cético quanto a isso, não relutei, qualquer ajuda contra essas criaturas era bem vinda, sendo verdadeira ou não.
Quando o sol se pôs, a vila inteira se encontrava sem nem uma alma viva fora das casas, um silêncio ameaçador reinava pelo lugar. Nunca senti tanto medo na vida como agora, de dia tudo parecia bem, mesmo com o susto ao ver o corpo morto de alguém, nada se comparava a atmosfera sombria da noite. O ar gélido aumentava ainda mais o ar de terror do local, e os barulhos estranhos vindo de fora pareciam aumentar cada vez mais. Senti como se a qualquer momento alguém seria atacado, escutar as janelas do meu vizinho serem arranhadas por algo afiado confirmou meu pressentimento, segurei com força a estaca de madeira, fiquei atrás da entrada da porta, esperando qualquer sinal de ataque, mas a única coisa que recebi foi o toque gentil de meu avô, ao me virar em sua direção, o percebo segurando uma arma, ele olhava preocupado para mim.
– Afaste-se filho, deixe isso comigo, eu vou proteger você.
– Não, você não precisa fazer isso! Sou eu que tenho que te proteger aqui, o senhor já fez muito isso quando eu era criança, me deixe retribuir! – Eu sabia que estava sendo difícil para ele tanto quanto estava sendo para mim, mas eu não podia deixar um pobre idoso arriscar sua vida por um jovem forte que podia muito bem se proteger e protegê-lo, meu avô, ao contrário do que eu pensei que faria, suspirou e estendeu sua arma, para que assim eu a pegasse.
– Você é mesmo teimoso, não é? – Balançou a cabeça em reprovação, um pequeno sorriso surgiu de seu rosto. – Não irei te impedir. Vá, pegue! Você vai precisar mais do que eu. – Me entregou a serpentina, me olhou nos olhos e me puxou para um abraço, que eu retribui imediatamente, ele sabia tanto quanto eu que algo muito ruim estava prestes a acontecer e que talvez essa seria a última vez que nós dois poderíamos nos abraçar, senti meus olhos marejaram, entretanto eu não me permiti chorar, não era a última lembrança de mim que eu queira dar a ele, limpei minhas lágrimas e respirei fundo, dei o melhor sorriso que pude dar e o encarei antes de falar.
– Vá se esconder no porão, não saia até o pôr do sol. Eu estarei protegendo nossa casa impedindo que qualquer vampiro chegue a entrar nela. Eu te amo, vô.
…
Eu estava completamente sozinho há cerca de duas horas, durante esse tempo todo ouvi coisas indescritíveis, baques eram desferidos contra paredes e portas, não o suficiente para quebrar mas sim para ameaçar, gritos agonizantes desferidos rasgavam o céu escuro, um verdadeiro horror. Eu precisava me manter forte, nunca fui do tipo religioso, nunca acreditei em Deus mas mesmo assim nunca orei tanto quanto orava agora, pedi a Deus que poupasse pelo menos meu avô daquelas criaturas afora, que se ele sobrevivesse eu poderia morrer em paz. Enquanto eu orava, suplicando a Deus ajuda, a voz de um homem soou mais alto que minhas orações, atraindo minha atenção para si, ele implorava por sua vida, berrando tão alto quanto um carneiro sendo abatido. Meu corpo estremeceu quando a porta à minha frente sofreu um impacto pesado, acompanhado de um líquido vermelho viscoso que escapava por debaixo da porta, confirmando minha teoria de que o homem foi lançado contra ela.
Meu coração só não escapou pela boca porque eu estava tão apavorado ao ponto de não conseguir mexer os lábios, escutei risadas maléficas à minha frente, abafadas pela porta entre nós, a essa altura quem quer que estivesse lá fora sabia que eu estava aqui dentro e não pretendia sair de perto tão cedo. Batidas fortes foram desferidas contra minha porta, tão fortes que o chão tremia como resposta, segurei a arma firme, apontando em direção a porta. Disparei um tiro quando a porta foi puxada com força, observei se o tiro foi acertado no alvo, não enxerguei nada, tudo o que tinha eram poças de sangue espalhadas pelo chão, a atmosfera silenciosa não ajudava em nada, só escutar os sons de minha respiração me deixou ainda mais aflito, que droga estava acontecendo?
O impacto do meu corpo contra o chão respondeu minha pergunta, aconteceu tão rápido que só me dei conta tarde demais, quando já estava no chão. O vampiro tentou me atacar, com todas as minhas forças o empurrei, ao me levantar corri rua à fora, minha intenção era o atrair para bem longe da minha casa, meu sacrifício valeria a pena, meu avô ficaria fora de perigo. Ele me perseguia, faminto por sangue, me caçando com fúria e fome, eu quase não enxergava nada enquanto corria, meu coração acelerado batia forte em meu peito, a sensação de morte estava se aproximando cada vez mais, eu estava pronto para morrer, meu destino diante de meus olhos, suas garras me prenderam, ele me arrastava em sua direção, meu fim cada vez mais próximo. Quando achei que estava prestes a ser devorado, fui de encontro ao chão, o vampiro que me prendia me abandonou, em busca de outra presa, respirei pesado, perseguindo com o olhar para onde a criatura foi, meu coração parou, assisti a figura de meu avô, com uma faca em sua mão, suja pela liquido vermelho, que caia em abundância do corte de sua outra mão. Eu gritei alto até sentir meus pulmões arderem, vendo meu avô ser devorado por aquela criatura maligna, lágrimas encharcaram meus olhos, borrando minha visão, ao meu redor tudo ficou em silêncio, só ouvi as batidas do meu coração, cada vez mais devagar.
Algo tomou conta da minha alma, eu estava quebrado, no momento em que a última lágrima caiu, algo subiu, uma presença maligna, um sentimento. Fome, fome de vingança. Corri até a criatura que se alimentava do sangue de meu avô e a agarrei seu pescoço, o quebrando como se não fosse nada, era sobrenatural, eu estava mais forte, o suficiente para fazer aqueles demônios pagarem pelo mal cometido. Fui atrás de cada um, eu desmembrava seus corpos, arrancava suas cabeças para fora e as amassava, era doloroso mas não o suficiente, dentro de alguns minutos os vampiros voltaram ao seu estado original, fiquei enfurecido, um plano precisava ser feito. Pensei enquanto os via correr em minha direção me atacar, uma ideia surge em minha mente, eu sabia exatamente o que fazer. Aligeirei em direção ao celeiro da vila, trazendo comigo os vampiros, se eu não podia matá-los, eu poderia prendê-los, pelo menos até o sol nascer. Com o celeiro totalmente vazio, dei espaço para eles entrarem, usei uma das grandes cordas para prender animais e me certifiquei que nem um deles escapasse, era difícil manter eles no lugar, tive que arrancar membros do corpo de alguns e às vezes até a cabeça, os vampiros tentavam me morder a todo custo, sempre falhando, eu nunca iria dar o prazer a eles de tomarem meu sangue.
As figuras que me atormentaram durante toda noite agora se encontravam em pó, em cinzas, como se tivessem sido queimadas. Não pensei duas vezes antes de sair em direção a minha rua, eu procurava pelo meu avô, e quando o encontrei caído no chão, sem vida, senti como se parte de mim tivesse ido com ele. Ainda que eu o tenha visto morrer, não estava preparado para encarar seu corpo morto, ele se sacrificou quando eu devia fazer isso por ele. Eu nunca perdoaria aquelas criaturas por isso, eu…
Eu odeio vampiros.
𝚇𝙸𝚇
Descansei minha cabeça no corpo do meu avô, só me dei conta que dormi quando encontrei pessoas ao meu redor, algumas me cutucando, outras me encarando estranho, mas no final todos me rodeavam, curiosos para saber o que havia acontecido.
“Será que ele morreu?”
“Eu não sei, mas o homem abaixo dele certamente está.”
“Devemos enterrar os dois juntos?”
– Eu não estou morto! – Gritei, cansado de ouvi-los falar, eu só queria passar o máximo de tempo possível ao lado de meu avô, todavia estava sendo difícil quando se tem uma plateia te observando. – Embora eu desejasse que sim. – Cuspi as palavras, encarando cada um deles, não havia muitas pessoas à minha frente, olhei ao redor é a diferença era notável, havia mais pessoas mortas do que vivas, fitei o chão triste, o que quer que eu tinha feito ontem chegou de última hora, a maioria das pessoas não sobreviveram, uma delas sendo meu avô, voltei a olhar para seu corpo melancólico.
– Ei, pessoal, se afastem por favor! Esse no chão é meu amigo. – Uma voz familiar soou no meio das pessoas, quando chegou até mim, ela se abaixou no chão e me abraçou, eu sabia que era Setsuko só por sua gentileza. – Pensei que você havia morrido, ah meu Deus Yuji! Eu sinto muito. – Me abraçou ainda mais forte, chorei, sentir o toque de alguém significou muito para mim.
– Então você é amiga dele? Você sabe o que ele fez ontem? Seu amigo matou quase todos os vampiros da vila e os que ele não matou fugiram de medo, seu amigo é um herói. – O homem falou feliz, falatórios começaram a rolar a partir de sua frase, as vozes altas começando a me atordoar.
“Como será que ele fez isso?”
“Será que ele faz parte do exército?
“Como poderia? Ele é só um menino!”
– Mas o que está acontecendo aqui? – Lorde Yaga aparece, se intrometendo no meio das pessoas, ele me lança um olhar confuso, sua testa franzia, tentando entender o que estava acontecendo.
– Me desculpe senhor Yaga. – Setsuko levanta-se e faz uma reverência. – É que meu amigo passou por muita coisa, ontem foi uma noite difícil. – Abaixou a cabeça, seu olhar indo para baixo.
– Com todo respeito milorde, mas esse garoto salvou a vida de muitas pessoas ontem à noite, graças a ele, muito dos vampiros que tentou nos atacar foram destruídos, eu sou muito grato a você meu jovem. – O homem olhou para mim e fez uma reverência, seu rosto estampado com gratidão.
Se me lembro bem, eu matei muitos vampiros ontem, de formas inimagináveis, o que havia acontecido comigo? Se eles me perguntarem eu não saberei o que dizer, tudo que sei é que tive sorte, muita sorte.
– Bem, não temos tempo a perder, vou ter que deixar isso de lado, por enquanto. – Lorde Yaga me olha desconfiado. – Todos juntem o resto de suas coisas e subam na carroça na entrada do vilarejo, temos 11 horas até o sol se pôr e a viagem leva pelo menos 9 horas do nosso dia. Se apressem, o tempo está voando!
…
Eu não tinha muito o que levar, peguei uma pequena mala e preenchi com algumas coisas, a mais importante delas eram um colar que meu avô me deu de presente, suas correntes feitas de prata, simples demais comparadas ao pingente, que apresentava um formato oval, sua cor sendo branco, podendo se assemelhar a uma pérola, sempre achei que esse colar fosse uma imitação barata de algum colar vitoriano de algum nobre, tive vergonha de usá-lo por muito tempo, por ser considerado apetrecho de mulher, hoje a vergonha seria transformado em honra, em memória daquele que se sacrificou por mim. Vesti o colar, me olhar com ele no espelho foi difícil, sorri ao pensar em que tipo de reação meu avô teria, será que ele iria gostar?
Não tive tempo de me lavar direito, só coloquei uma roupa limpa, peguei minha mala e segui para fora, indo de encontro a carroça, que na verdade era dividida em três, sendo a mais luxuosa a parte da frente, elas levariam o resto do povo da vila para outro lugar que não fui informado sobre. Pelos meus cálculos, haviam pelo menos 20 pessoas no total, contando com o Lorde e seus dois guardas, isso era menos da metade das quantidade de pessoas que moravam no vilarejo, por pouco não fomos todos dizimados. Passávamos pela estrada, pude assistir vários corpos deformados deitados pelo chão, o eu de algumas horas atrás teria chorado e se sentido mal por eles, o eu de agora só sentia raiva e ódio, “eu irei vingar-los, eles vão pagar!”, foi tudo que pensei olhando os pobres cadáveres, eu iria cumprir minha promessa.
O ambiente durante a viagem não foi um dos melhores, os que choravam no começo agora estavam quietos, conformados pelo tempo, a dor de suas perdas soava diferente, bem quieta, todos com o rosto sem esperanças. Alguns passavam o tempo discutindo se a nova vila seria realmente segura, baixo o suficiente para não incomodar o lorde, eu estava curioso, 9 horas de viagem significava que o lugar era longe demais, a princípio pensei que seríamos realocados para um vila vizinha, mas nessa longitude aparentava ser um lugar quase próximo ao reino de tão distante, se minhas suspeitas estiverem certas, e realmente estamos indo de encontro ao reino, com certeza ficaremos a salvo, era muito difícil o reino e em lugares próximos a ele receber ataques dos vampiros. Provavelmente por causa da guarda real que protegia todos de forma esplêndida, eu senti orgulho deles, eles conseguiam proteger o povo, eu os respeito, o trabalho é árduo para manter esses malditos vampiros longe do povo, todavia seus esforços seriam recompensados com uma cidade segura e em paz para se morar, se ao menos a minha tivesse a chance de viver isso.
𝚇𝙸𝚇
Cidade de Northwich.
Fomos recebidos com muros de pedras gigantes ao chegar na entrada da cidade do norte, eu só ouvi falar dela pelas histórias de alguns velhos da vila, metade delas realmente diziam a verdade sobre a primeira impressão da cidade sempre ser assustadora. Quanto mais perto, mais ela parecia dobrar de tamanho, não consegui evitar sorrir, era primeira vez que eu conhecia um lugar assim, tão grande, bonito e assustador ao mesmo tempo. O comércio foi o que mais me chamou atenção, tinha tanta variedade de coisas sendo vendidas, coisas que só podia admirar, nunca que eu conseguiria pagar, nem se eu ficasse a minha vida inteira trabalhando, definitivamente uma cidade de burgueses.
– Como a maioria de vocês trabalhavam no campo, sendo sapateiros, comerciantes ou qualquer coisa do tipo, ofereci vocês como mão de obra como estadia aqui na cidade. Muitos de vocês serão separados, vivendo em distritos diferentes, se quiserem se despedir a hora é agora. – Nós mal havíamos descido da carroça e Lorde Yaga já nos recebia com notícias fortes, Setsuko e Takeshi me olharem cabisbaixos, não estava sendo uma surpresa para mim, eu já temia que algo assim pudesse ocorrer, suspirei fundo e fui na direção dos dois e os abracei, despedidas nunca eram fáceis para mim. – O resto de vocês podem seguir aquela fila, é a de migrantes à procura de trabalho e você, meu jovem. – Apontou para mim. – Eu tenho umas perguntinhas a fazer para você, venha comigo.
Engoli em seco. Eu já sabia do que se tratava, e ainda sim me senti nervoso, o que ele pensaria de mim? Mesmo eu tendo matado apenas vampiros não deixou de ser brutal, se eles não tivessem virado pó, certamente a vila teria um pilha de corpos por todo celeiro e não seria uma vista agradável de ver, só de pensar me arrepiei, balancei a cabeça, afastando os pensamentos ruins que começavam a surgir.
– E então… você é o…?
– Yuji! Meu nome é Wasuke Yuji, senhor. – Respondi olhando envergonhado, meus olhos lentamente abaixando para ver minhas mãos batucarem os dedos em minhas coxas. Eu estava sentado em frente ao Lorde Yaga dentro de uma carruagem, eu não pudia acreditar quando ele me mandou entrar nela, é tão bonita e confortável, mil vezes melhor do que a carroça de madeira, sem dúvidas.
– Ah sim, Wasuke Yuji, certo? Pois bem, de acordo com os moradores da vila Westford, você, sozinho, derrotou um bando inteiro de vampiros, você tem noção do quanto isso é incrível? – Falou entusiasmado. – Você entende que você tem o talento perfeito para ser um guarda de nível real? É isso que o marechal Nanami estava procurando!
– Marechal Nanami?
– Bem, não importa. Preciso que me responda uma pergunta, você gostaria de defender seu reino dos vampiros se juntando a guarda real? Uma boa proposta, não é? O que acha? – Me olhou com curiosidade, esperando que eu desse uma resposta.
– Bem... – Suspirei.– Não vejo porque não aceitar.
Ele sorriu. – Ótimo, você fez uma boa escolha, garoto.
…
Segui junto de Lorde Yaga em sua carruagem por um caminho totalmente desconhecido, ele me avisou que estávamos seguindo para o distrito de Ashgate, ele era o distrito mais próximo do reino, ficava bem longe da cidade, uma hora inteira de viagem até lá.
Dizem que quando você pisa em uma cidade grande, sua vida monótona e pacata pode começar a mudar, sua vida calma como um lago pode se agitar tão forte como um rio, e eu nunca acreditei em palavras assim até realmente viver isso. Me senti abençoado da mesma forma que amaldiçoado. Não esqueci de como matei os vampiros, e o sentimento de luto pelo meu avô ainda estava ali, enterrado em meu peito, quanto mais eu prestava a atenção ao meu redor mais o sentimento afundava, era como se tudo estivesse acontecendo tão rápido que eu não tinha tempo para as lamentações, não tive tempo para enterrar meu avô, muito menos de me vestir de preto, eu sequer pude me lavar. E agora eu estava indo para o exército, um lugar totalmente desconhecido, eu deveria estar me tremendo agora, apavorado, querendo voltar para minha doce vila, com tudo não me senti assim.
Senti que eu poderia fazer a diferença, a vida estava me dando uma chance eu iria aproveitá-la, participar da guarda do reino me traria boas experiências em batalha, eu ficaria muito mais forte, se eu matei aqueles vampiros sendo apenas um camponês imagina como um guerreiro? Eu seria imbatível, eles iriam rastejar aos meus pés, e eu os faria pagar, por mim, por todos na aldeia e pela morte de meu avô, seu sacrifício não seria em vão, eu o honraria matando cada um daqueles filhos da puta.
Meus pensamentos foram bruscamente interrompidos quando a carruagem parou e meu corpo foi para frente, quase fui de encontro ao Lorde Yaga, que só revirou os olhos e saiu para fora, me chamando com sua mão para acompanhá-lo. Seguimos uma estrada coberta por uma floresta, árvores enormes cercavam o lugar, o barulho de assobios esquisitos arrepiaram minha nuca, tudo estava escuro, com exceção das lamparinas que os guardas seguravam andando à nossa frente. No final batemos de frente com um portão enorme, que foi aberto por uma força de dentro, minha boca abriu, mas me mantive quieto, fiquei admirado pela imensidão do lugar, era enorme, uma casa grande que mais parecia um castelo era o que mais me chamou atenção, havia guardas uniformizados com armaduras pretas por todo local, quase parei para assistir o treinamento de alguns guerreiros que lutavam entre si, se não fosse por Lorde Yaga que mandou eu apressar meu passo.
Fomos a fundo dentro do lugar e paramos em uma outra grande casa, essa sendo feita de pedra, ele entrou comigo e disse para ficar onde eu estava, parado ao lado da porta, eu obedeci suas ordens e o esperei voltar. Quando voltou, Lorde Yaga veio até mim e suspirou pesado, colocou sua mão no meu ombro antes de falar.
– Boa sorte garoto, você mora aqui agora. – E se foi, me abandonando sozinho no lugar.
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Arandela = Um nome antigo para luminária, geralmente posta na porta fora de casa.
Marechal = título militar de elite.
Serpentina = arma que usava pavio aceso para disparar a pólvora.
Notas da Aurora: Oie, sei que no capítulo anterior eu falei que só iria postar o cap 02 depois de alguns dias, porémmmm conforme eu fui editando esse capítulo hoje achei que seria legal postar no dia seguinte, talvez seja ansiedade? talvez hehe
O que acharam? Esse capítulo tem mais de 5 mil palavras, quase 6 mil gente🥹 não vou negar, foi meio complicado de editar aqui, mas ler ele prontinho foi bem satisfatório, tenho um carinho enorme por essa fic (e olha que nem terminei ainda haha)
Espero que tenham gostado, obrigada por ler até aqui e até o próximo capítulo❤️❤️ tchauuu
