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The Dragon and The Ants

Summary:

Daeron volta para o palácio de Summerhall após um grande dia de bebedeira, ou seriam dias ? Seja o que fosse, o tempo parecia passar mais rápido quando se tinha aqueles sonhos. Sonhará naquela noite com um pequeno dragão, ameaçado e encurralado por outro muito maior, as escamas avermelhadas de ambos ainda permeando sua visão, a vertigem atingindo-o tal qual um belo soco no estômago, como detestava aqueles sonhos. Sonhos que sempre se tornavam realidade.

“There is no love like the love for a brother. There is no love like the love from a brother.” ~ Astrid Alauda
Daeron sempre teve sonhos que se realizavam e, usualmente, buscava a anestesia da bebida e das mulheres, mas numa noite, a necessidade de voltar para casa encheu seu peito. Ou Daeron, “O bêbado”, sendo um bom irmão para Egg.

Work Text:

Ainda podia sentir aquele gosto amargo da ale em sua boca conforme andava pelo caminho de terra em direção a Solarestival, a língua do príncipe passando sobre os lábios pela milionésima vez apenas naquele nem tão curto caminho do vilarejo mais próximo, que de próximo nada tinha, pois essa era nas regiões da borda do Solar de Colheitas, deveria agradecer a herança dos Dayne, responsável por não o deixar ter a coloração prateada típica dos valirianos. Daeron conseguia sentir seus passos oscilando em meio o terreno úmido, afundando no caminho enquanto a cabeça se tornava mais leve, girando devido ao efeito do álcool, o qual de nada servirá para tirar de si aquela estranha sensação — Pelos sete…! — Ralhou com a sensação de tontura se intensificando, a vertigem fazendo-o se curvar para frente, ambas as mãos apoiando-se nos joelhos, os fios cor de areia cobrindo-lhe parcialmente a visão. Naquela noite tivera mais um daqueles malditos sonhos, por mais que tivesse bebido quantas cervejas fosse capaz de pagar e dormido nos braços de mais uma prostituta, da qual já sequer se lembrava do rosto, nada parecia-lhe livrar da maldição que eram aquelas profecias, sonhos que sempre ocorriam, atormentado pelos fantasmas de seu inconsciente.
Passou ambas as mãos em seu próprio rosto, limpando o suor que escorria pela testa e descia pelo nariz — Argh…malditos dragões e malditos sonhos também. — Forçou a si mesmo a arrumar a postura, já podendo ver os portões grandes da residência a uma distância mais que considerável, esta que teria chegado bem mais rápido se não fosse a perda do cavalo, entre uma prostituta e outra. O sonho que tivera naquela noite fora como os de sempre, sempre os malditos dragões, aquele símbolo de sua casa, não que fosse de grande importância para si, ah, não, dentre todos os membros Targaryen, apenas Aerion tinha a fixação por bestas voadoras, das quais até mesmo duvidava da existência. Pudera ver bem daquela vez, dois dragões vermelhos, os quais pareciam ser um mais velho encurralando o mais novo, as escamas vermelhas e vibrantes gravadas em sua mente, e aqueles olhos terríveis e violetas — Já está anoitecendo. Maldição, deveria ter buscado meu cavalo; vou chegar em Solarestival após o anoitecer. — Daeron forçou-se a continuar por aquele caminho, talvez fosse uma grande bênção, na realidade, chegaria quando todos estivessem dormindo em paz, para sua inveja. Bom, ao menos teria o prazer de atrasar a bronca que levaria do pai até a próxima manhã; já não tinha cabeça para lidar com as reclamações do outro.

Sempre que passava por aqueles caminhos, fosse de cavalo, carruagem ou a pé, como fazia naquele momento, Daeron lembrava-se dos primeiros anos de sua vida, aqueles em que os sonhos não atormentavam-no. Lembrava-se também de cada um de seus irmãos e os momentos que tiveram, Aerion principalmente, antes de se tornar um maluco cruel como diziam por aí, era apenas um garoto contente que se alegrava em pegar um peixe maior que si, poderia dizer o mesmo de Aemon, que sempre lhe pedia para ler uma história sob a sombra de um grande limoeiro, Daella e Rhae o obrigando a ouvir a mesma música de sempre: As Estações do Meu Amor, a repetitiva canção de Myr, que só de pensar já era capaz de continuar com a letra por inteiro. Apesar da diferença de idade, tinha memórias igualmente doces com Egg, talvez por este ser o único que não se importava com o olhar angustioso quando sóbrio, um bom companheiro para as tardes de preguiça, que pouco tardaria em tornar-se seu escudeiro, se a vontade do pai prevalecesse. Pobre Egg, todos sabiam que Daeron era um péssimo cavaleiro, ou um péssimo príncipe em geral; nunca fora bom com as armas nem com os livros; pouco sabia de poemas e também desgostava dos instrumentos, por isso mesmo, tentaria convencer de que era ainda mais inapropriado, embora houvesse então a preocupação de que ele fosse posto como escudeiro de Aerion.
O homem mergulhava naquelas tolas memórias como uma espécie de salvação, cada um de seus passos pareciam tornar-se mais irrelevantes, e o tempo passava rápido demais quando distraía a si mesmo com tais amenidades, naquele momento mesmo, podia jurar que o que seriam cerca de boas quatro ou cinco horas de caminhada passaram-se em não mais que trinta minutos, ou talvez fosse apenas muito mais louco, como muitos Targaryen antes de si também haviam sido, por achar que a realidade seria mudada somente por aquelas lembranças. Piscou os olhos enquanto erguia a cabeça, as pupilas se focando na imagem da grande e redonda Lua cheia que substituirá o Sol, este que não mais lhe queimava a pele adoentada. Daeron se aproximou do grande portão de Solarestival; pouco precisava se preocupar com o que os guardas achariam; esses já estavam acostumados com as vestes consideravelmente simples em relação aos parentes, seu manto de cor damasco escondendo-lhe o máximo possível, mas tão logo chegou ao portão, já não mais tão cambaleante, abriu-o, revelando o gibão preto e vermelho que utilizava — Vossa Graça! — Pode ouvir a voz grave dos três guardas que lhe abriam o portão, fazendo pouco mais do que um aceno de cabeça como cumprimento.

Há alguns anos, esses eram os mesmos que lhe questionavam tantas coisas: onde esteve, com quem esteve, por que suas roupas estariam daquela maneira. Bem, sequer se recordava se estes eram os mesmos cavaleiros daqueles tempos, tinha pouco mais do que a idade de Egg quando começará a escapar das paredes do castelo para afogar as próprias mágoas, ou lamber suas próprias feridas, como diziam os plebeus — Boa noite, hm, Sor… — o príncipe tentou forçar um pouco de sua memória para se lembrar de um deles, um homem sem qualquer nobre brasão e cabelos e barba de cor vermelha, vermelha como as escamas dos dragões, desistiria de qualquer coisa após a comparação. Daeron acenou com a mão enquanto adentrava a leve fortificação, dando sorte de que tudo parecia comum para uma noite qualquer, e como o esperado, tanto para seu alívio: não havia qualquer mísera luz atravessando a janela do quarto principal, local onde o pai adormecia. Aquilo era um bom sinal, ou ele não estaria, algo improvável desde a morte da mãe no mesmo ano em que começou a ter as malditas visões, ou estaria dormindo, o mais provável.
Recordava-se de sua primeira profecia muito bem: sonhar que a estrela Sirius caia, ou seria a Canopeia ? Nunca fora muito bom com astronomia, mas se tinha algo que sabia bem, era que aquela ardente estrela, pertencente a uma constelação de dragão, caiu pela Terra num fogo inimaginável, e, tal qual seu sonho, a mãe também padecerá, a estrela Dayne de Solarestival caindo poucos anos após o nascimento de Rhae. Daeron suspirou pesadamente e, em contrário ao instinto que teve na noite da morte de sua mãe, evitou olhar para o céu, adentrando pela porta principal da fortificação sem qualquer escrúpulo, seu corpo obstruindo a passagem segundos antes de um servo também o fazer, seguindo-o por parcela do corredor com um pesado barril de cerveja. Sempre faziam isso: que mal tinha um homem beber ? Qualquer um se enganaria pelos deleites do álcool se precisasse ver o que via; tinha a total certeza disso!
Podia ver com clareza o modo em que o interior continuava da mesma forma de sempre; mantinha as mesmas decorações em roxo e vermelho de quando Dyanna ainda estava viva, também era capaz de notar os inúmeros quadros de seus avós, primos e tios juntamente com os de sua própria família enquanto passava pelo extenso corredor o palácio, seus passos mantendo-se leves, pois tentava não acordar os irmãos, estes que sabia serem facilmente linguarudos quando necessário, e não hesitariam em trocá-lo pelo privilégio de acabarem-se em tortinhas e bolinhos, especialmente Daella, a mais gulosa dentre todos eles. Seu objetivo principal era chegar em seu próprio quarto, talvez beber um pouco mais e então adormecer para mais um de seus tenebrosos sonhos; entretanto, tal maravilhoso plano fora interrompido ao meio do caminho, ao notar a porta do quarto de Egg estranhamente entreaberta, a pouca luz de uma trêmula vela se arrastando para fora do cômodo, chamando-lhe a atenção.
Usualmente, teria apenas ignorado tal sinal, pois já não era o dócil irmão de antes, tendo-se tornado apenas mais um jovem atormentado. No entanto, quando estava prestes a se afastar do caminho, uma estranha risada chamou-lhe a atenção. Reconhecia bem demais aquele tom; o som tão semelhante a um porco só poderia pertencer a um único ser dentre todos os seus irmãos e irmãs: Aerion. Manteve os passos leves enquanto se aproximava da porta, seus pés evitando a todo custo pisar forte demais no piso de madeira, aproximou o rosto da pequena fresta, de modo que apenas o olho direito pudesse ali observar, e, para seu pouco espanto, via ali a imagem do pesadelo da noite anterior, o coração dando um sobressalto, como sempre fazia quando aquelas coisas ocorriam.

Daeron pode distinguir bem a imagem de seus dois irmãos mais novos, Aerion sentado ao final da cama de Egg, segurando algo entre as pernas do garoto, este que parecia mais apavorado do que em choque, não que aquilo fosse o suficiente para parar o comportamento estranhamente bizarro do outro, pelo contrário, sequer precisava estar olhando para saber que aquilo apenas parecia diverti-lo ainda mais — Com medo, Egg ? — O tom de escárnio fora complementado pelo alargamento do sorriso alheio, a mão se remexendo de modo a empunhar melhor a adaga. Aerion mostrou-a no ar, apenas fazendo com que a expressão do mais novo se tensionasse, suas sobrancelhas claras agora completamente franzidas — O que quer aqui ? — O garoto murmurou, tentando afastar a si mesmo ao se arrastar sobre a cama, as costas encontrando a madeira de sua cabeceira, deixando-o ali, sem qualquer saída — Veja como fala comigo, seu miserável. Posso cortar teus testículos a qualquer segundo, torná-lo um eunuco, tal qual os meisters, se assim eu quiser. — Enquanto dizia aquilo, suas sílabas lentas e pausadas, Aerion passou a lâmina de sua adaga contra a chemise do irmão mais novo, divertindo-se com como este tremia a cada centímetro que chegava mais próximo de o tocar — Isso seria algo bom, sempre pensei que já tinha irmãos o suficiente com Daeron e Aemon, quando te castrar, posso até mesmo casar-me contigo. — O sonho de antes dizia que eram dois dragões, um menor sendo encurralado pelo maior, mas em sua visão, tudo o que Daeron podia ver era um dragão ameaçador e uma pequena formiga, trêmula diante das ameaças, mas com um determinado olhar.
Sem conseguir conter a si mesmo, a sensação de ânsia tomou-lhe o corpo inteiro enquanto assistia a toda aquela cena. Tinha asco de compartilhar o mesmo sangue e os mesmos pais que aquele rapaz, pois como poderia ele ser louco o suficiente para ameaçar seu próprio irmão, quando os deuses diziam para amá-los, e aparentemente, toda a ladainha do pai em dizer aquilo repetidas vezes pouco funcionava quando o caso era aquela cruel semente. Num impulso gerado por sua própria raiva e indignação, questionando a si mesmo naquele momento se como irmão mais velho, continuaria sendo um covarde em não intervir, Daeron adentrou o quarto de supetão, a porta batendo violentamente contra a parede de pedra ao fazê-lo, os dedos rapidamente fechando-se contra o tecido vibrante do gibão alheio, puxando Aerion de modo tão violento que este caiu ao chão — Argh…maldito seja, seu bêbado! A palavra “bêbado” mal terminara de deixar os lábios de Aerion quando Daeron o empurrou novamente, ou melhor, chutou-o, com força suficiente para fazê-lo bater as costas contra o pé da cama. A adaga que este antes empunhava com tanto orgulho agora tilintava no assoalho de pedra, girando duas vezes antes de parar sob a luz trêmula da vela, ameaçando esconder-se embaixo da cama do caçula — Saía. — A voz de Daeron saiu baixa; nunca antes tinha confrontado quaisquer pessoas daquela maneira, nem mesmo sabia ser capaz daquilo, e Aerion, este, ergueu o queixo devagar, os olhos violetas faiscando numa raiva, o medo ausente naquelas íris.

Ele ajeitou a própria postura, cuspindo uma mescla rosada de saliva com sangue, o qual provinha do canto de seus lábios, onde o puxão rasgara a pele contra os próprios dentes — Desde quando te importas ? — Ele cuspiu novamente, levantando-se com lentidão, o chute levado no estômago tendo o efeito de retardar os movimentos do imprevisível príncipe — Mal consegues manter-te em pé; não passa de um bêbum. — Daeron respondeu, pois sequer poderia negar aquela afirmação; bebia mesmo e com avidez; não havia motivos ou razões para negar. Seu corpo inteiro tremia, o coração se acelerando cada vez mais dentro do peito, bombeando uma coloração rosada para a pele, antes amarelada, e assim, apenas avançou um passo, estava tão terrivelmente cansado; sua cabeça doía e não desejava nada mais que ver-se livre daquela situação, livre de Aerion, pois que este fosse pescar mil e um peixes com os Tully, mas que os deixasse em paz — Fora. — Repetiu entre dentes, os molares rangendo um contra o outro, posicionado a si mesmo entre a figura de Aerion e a adaga; o outro hesitou, seu olhar deslizou para a direção de Egg, depois para a adaga próxima do irmão mais velho. Um sorriso torto, venenoso, surgiu-lhe nos lábios.
— Protege-o, então. Vê se consegues proteger alguém ao menos uma vez, já que temes tanto os cavalos e sequer sabes segurar uma espada. — Ergueu-se então com lentidão e, já de pé, começou a ajeitar o gibão como se nada houvesse ocorrido. O orgulho, mais do que parcialmente ferido enquanto caminhava até a porta, ao passar por Daeron, inclinou-se ligeiramente — Dragões devoram os fracos, irmão. — murmurou, com um estranho tom carinhoso, tão semelhante ao ronronar de um gato.  Os dois, ele e Egg, prenderam a respiração assim que a madeira da porta estremeceu, Aerion fechando-a com violência, e que sorte tinham pelo pai ter um sono tão pesado naquele momento, pois com a pequena “briga”, certamente haviam acordado ao menos metade dos servos de Solarestival, mais até, se os animais contassem. 

O coração de Daeron batia tão forte que parecia preencher o quarto inteiro, suor escorria-lhe pela nuca e têmporas, o álcool já não lhe trazia torpor algum; pelo contrário, cada pulsação ecoava em seus ouvidos como tambor, as mãos tremiam diante de tamanha adrenalina, e ao se virar devagar, pôde ver que Egg ainda estava sentado na cama, as costas contra a cabeceira, os ombros tensos. A chemise clara estava amarrotada onde a lâmina roçara o tecido, mas,  para a surpresa do mais velho, capaz até de fazê-lo arregalar os olhos, fora ver que a arma antes jogada ao chão agora encontrava-se entre as pequenas mãos do outro, os pequenos dedos seguravam a empunhadura com força excessiva, como se largá-lo fosse permitir que algo pior acontecesse. Os olhos lilás não estavam exatamente chorosos, embora houvesse algumas lágrimas ali, as quais o pequeno lutava para que não caíssem, ameaçando escorrer pelas bochechas gordinhas. Nenhum dos dois falou algo durante aqueles minutos, os corações batendo em conjunto. Daeron aproximou-se com cuidado, os movimentos lentos enquanto sentava-se ao lado do garoto na cama, a mão afundando o macio colchão de penas de ganso — Egg… — sua voz saiu mais suave do que pretendia, não recebeu qualquer resposta, porém, a lâmina vacilou levemente nas pequenas mãos de seu irmão. O príncipe envolveu os próprios dedos sobre os do irmão, segurando-os de modo a estabilizar a adaga, a testa encontrando-se também com a dele, e os cabelos castanho e prateados se juntando numa bagunçada mistura de cores e suor — Já acabou. — murmurou, sua palma áspera apertando-o mais, as íris escuras observando o momento em que as lágrimas finalmente escaparam dos olhos alheios, descendo copiosamente pela pele alva, soluços se misturando ao amargor daquela situação — Ele já foi embora, o dragão…não, o monstro, ele se foi. — Só então Egg conseguiu acalmar propriamente a respiração, como se retornasse ao próprio corpo; ela ainda vinha curta e irregular, interrompida pelos soluços. Daeron sentiu isso antes mesmo de perceber que também respirava da mesma forma. Ambos assustados, incrédulos com o que tinha acabado de ocorrer diante de si.

Com um movimento lento, guiou a adaga para baixo, ajudando o garoto a repousá-la sobre o colchão, entre ambos, as mãos trêmulas dos dois hesitando deixar uma à outra. O cheiro de incenso barato misturava-se ao de álcool, ainda impregnando as roupas de Daeron, este que, mesmo sabendo que o irmão detestava o cheiro melado da fragrância barata, trazida de Dorne, confiantemente passou a mão pelos cabelos de Egg, afastando-os da testa com um gesto que lembrava os anos em que o menino mal alcançava sua cintura, anos em que Aerion não era um monstro e Aegon também não era uma formiga, e em que todos podiam apenas descansar sob um limoeiro durante o verão.
Sem dizer mais nada, puxou o caçula contra si, um forte abraço que sentia naquele momento que ambos precisavam, e, apesar do garoto resistir por um segundo, pouco demorou para que os dedos se agarrassem ao tecido vermelho e negro do gibão de Daeron, também puxando-lhe a capa damasco com uma força inesperada. O punho pequeno amassou ainda mais o tecido aveludado, como se tentasse provar que aquilo era real, que o irmão estava ali, e como resposta, o mais velho envolveu-o ainda mais forte, apertando-o contra o próprio peito — Está tudo bem… — sussurrou, mesmo sem ter certeza de que era verdade, com Aerion nada terminava assim, e podia ver bem as más intenções na sombra de seus maldosos olhos, provavelmente seria repreendido por bater no irmão pela manhã seguinte, como sempre, iria distorcer a história o máximo possível — Não deixarei que ele o machuque. — As palavras saíram com uma confiança tamanha que até surpreendeu a si mesmo, queria poder dizer que estas eram a plena verdade e que o outro nunca mais tocaria em Egg, mas aquilo seria uma mentira descabida. Sentia o tremor leve no corpo do menino,  a respiração ainda irregular contra suas costelas; ele não precisava saber que aquilo era mentira, era uma criança, afinal, poderia continuar tendo as  próprias fantasias da infância.

Naquela noite, Daeron adormeceu abraçado a seu irmão, temendo que a qualquer momento de seu sono fosse surpreendido pela vilania de Aerion, o monstruoso príncipe que se achava dragão, mas nada do tipo ocorreu. Pelo contrário, pela primeira vez em anos, teve um sonho bom: seis pequenos dragões descansando sob a sombra de um lindo limoeiro, olhados de cima por uma brilhante estrela, aninhados entre si, dois filhotes com marcas de formigas em suas escamas vermelhas e verdes, todos ali comendo muitas tortas. Como nos velhos tempos.