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Abaixe a bebida

Summary:

Tsunade quebra promessas sobre parar de beber e Shizune aprende a lidar com a situação, mesmo que ela precise contornar o problema para que erros do passado não afetem Sakura.

Notes:

Gosto bastante dessas três personagens e gostaria de escrever mais sobre elas sempre que possivel.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

A primeira vez que Shizune viu sua mestra cair em uma moita por estar embriagada além da conta foi assustador a ponto de ela achar que haviam envenenado a comida da mulher na pousada. Foi necessária muita persuasão da mais velha para fazê-la acreditar que não estavam sendo caçadas e uma garantia ainda mais séria de que seria a última vez que a veria naquele estado.

Não foi.

Três semanas depois, Shizune acordou de madrugada com o som de Tsunade passando mal no banheiro do quarto. Agora que sabia mais, não entrou em pânico e ajudou a mulher a se limpar e deitar na cama.
Na manhã seguinte, Tsunade prometeu que seria a última vez que Shizune a veria passar mal daquela forma.

Não foi.

Duas semanas se passaram e Shizune acabou cortando a palma da mão por acidente enquanto afiava suas kunais sob comando de sua mestra. Ela se assustou quando Tsunade se levantou tão rápido que derrubou a cadeira no chão e saiu apressadamente, resmungando algo sobre não esperar acordada antes de bater a porta com força.

Felizmente, foi um corte tão superficial que ela pôde curar sozinha sem medo de estragar tudo e decidiu ouvir as palavras da mais velha e não a esperar.
Tsunade voltou de madrugada fedendo a bebidas que Shizune não tinha permissão sequer de analisar por muito tempo e não pareceu que acordaria tão cedo.

Foi fácil encontrar algumas notas de ryo na carteira de sua mestra e ainda mais fácil encontrar um lugar para comprar refeições para viagem.
A comida já havia esfriado há muito tempo quando Tsunade acordou no meio da tarde.

Ela se desculpou e prometeu que tentaria beber menos na próxima vez.
Shizune não queria apontar que Tsunade já havia quebrado duas promessas seguidas, então apenas concordou silenciosamente e, esperançosamente, torcia para que dessa vez fosse verdade.



Era aniversário do tio Dan e Shizune queria oferecer alguns incensos e rezar por ele, mas sua mestra havia saído mais cedo e parecia estranho realizar o ato sem ela.

Então montou um pequeno memorial no quarto da pousada da vez e comprou o que seria necessário com o que havia guardado de outro saque à carteira de Tsunade alguns dias antes. Era mais fácil ficar com a maior parte agora; a mulher sempre voltava com quase nada nas noites em que saía e, na única vez em que apontou isso, a mulher ficou com uma expressão que Shizune nunca mais queria ver.

Shizune também tentou encontrar Tsunade durante suas compras, mas a mulher pareceu sumir no ar, então restou apenas esperar no quarto.

O dia passou, Shizune fez suas refeições sozinha e nenhum sinal de sua guardiã.

A frustração foi crescendo e decidiu que poderia muito bem fazer suas rezas sozinha. Acendeu os incensos com um sopro de katon bem fraco que fora a própria loira quem a havia ensinado na época da academia; o intuito era acender fogueiras, mas a criatividade sempre foi seu forte.

Talvez ela tenha sido um pouco má ao reclamar sobre sua mestra com seu tio, mas, se ela quisesse se defender, estaria ali agora.

Jantou o que havia comprado mais cedo e sentou na cama com um livro para ler enquanto esperava Tsunade voltar; teria palavras bem sérias para gritar com sua mestra por sua ausência naquele dia em particular.

Então ela esperou. Leu metade de um livro sobre herbologia do país do fogo até sua vista se cansar, mas se recusava a dormir, então decidiu andar em círculos pelo quarto.

Ela esperou e o movimento nas ruas não passava de apenas um punhado que daria para contar nos dedos de uma mão.

Ela esperou e a raiva se transformou em preocupação, conferindo os pertences deixados no quarto com atenção redobrada para ver se não havia alguma falsificação ou jutsu oculto. Tudo estava lá, então Tsunade não teria ido embora daquela vilazinha sem ela. Certo?

Dormir se provou impossível, mesmo que seus olhos parecessem sujos de areia devido ao cansaço, mas a mera ideia de cair na inconsciência fazia seu coração acelerar algumas batidas e ela estava andando em círculos lentos até se esgotar novamente.

O sol nasceu no horizonte e Shizune já não conseguia mais sentir tanta confiança nos pertences como uma âncora que impediria Tsunade de ir embora. Ela tentou perguntar ao tio, sentando-se na frente do memorial improvisado, mas não era como se realmente esperasse que o além viesse a guiá-la.

Quando seu corpo de doze anos decidiu que aquilo era tensão demais para segurar, as primeiras lágrimas vieram e ela apenas se encolheu onde estava sentada, mal ouvindo a porta ser destrancada e o alvo de sua preocupação entrar cambaleando pela porta.

— Shishou!

Alívio inundou suas veias e ela se atrapalhou ao tentar se levantar com tanta pressa.

Tsunade apenas resmungou diante de seu chamado, olhando em sua direção de maneira geral, mas sem realmente focar em sua figura a apenas alguns passos de distância. Seus olhos não tinham aquela agudez padrão de uma observadora nata. Não havia o carinho, quando não era vítima de alguma bronca, que lhe era dirigido sempre que Tsunade a olhava diretamente.

Apenas um olhar vago e nebuloso, sem reconhecimento verdadeiro.

Isso fez Shizune congelar, sua boca repentinamente seca.

Tsunade não pareceu notar; ela mal parecia notar qualquer coisa que não fosse a cama para a qual caminhou e caiu sem cerimônia alguma, nem mesmo tirando o calçado para se deitar, embora fosse uma grande impositora de calçados apenas na entrada e da entrada para fora.

Tsunade não a reconheceu e Shizune também não a reconheceu em contrapartida.

Foi assustador e Shizune não sabia o que fazer, então seu corpo decidiu tomar uma decisão e caminhou em passos vacilantes até a cama da mais velha, deitando-se ao seu lado, agarrando um punhado do tecido verde de seu haori e pressionando seu rosto contra a lateral de Tsunade. O cheiro forte de bebida foi incômodo, mas estava tão cansada que não se moveu um centímetro de onde estava e apenas abraçou a inconsciência que veio em segundos.



No meio da tarde do mesmo dia, Shizune foi acordada pelo tremor do corpo maior ao qual se agarrava. Piscando algumas vezes, percebeu que sua mestra estava com o braço cobrindo parte do próprio rosto e o rastro de lágrimas bastante visível.

Era raro vê-la chorar daquela forma; ela parecia bastante avessa a ser vista chorando, mesmo que Shizune às vezes a escutasse fazendo isso durante os banhos que tomava sozinha.

Assim como naqueles momentos, Tsunade pareceu notar quando era observada nesse estado, removendo o braço e cruzando seus olhos castanho-mel avermelhados com os de Shizune. O reconhecimento em seu olhar a fez lacrimejar um pouco, mas principalmente de alívio.

— Shishou, você voltou.

Provavelmente não foi uma boa saudação, porque imediatamente Tsunade a prendeu em um abraço quase sufocante. Ela até conseguia sentir os tremores do corpo maior se intensificando e Shishou murmurando pedidos de desculpas um atrás do outro; era bastante nítido que seu choro não havia encerrado.

Tsunade provavelmente continuou a pedir desculpas por vinte minutos seguidos e Shizune já estava começando a se sentir inquieta quando finalmente foi libertada, apenas para ficar a um braço de distância da mulher mais velha.

Seu estado não era bom – não apenas porque havia acabado de acordar; seu cheiro também não era dos melhores e seu rosto estava avermelhado devido ao choro.

Era uma imagem totalmente oposta da mulher que era um pilar de uma fortaleza em suas memórias mais jovens.

Tsunade se desculpou novamente, listando dessa vez. Se desculpando por seu sumiço naquele dia em específico, por ter quebrado a promessa mais uma vez e por ter demorado tanto. Prometendo mais uma vez que pararia com a bebida e que compensaria de algum jeito.

Shizune não teve forças para dizer que não acreditava nela.

Então apenas concordou silenciosamente.



Shizune ganhou uma pequena porquinha adorável e bastante inteligente como presente apenas alguns dias depois. Tsunade conseguiu não beber pelo resto do mês, mas sua promessa se quebrou novamente depois de um dia em que enfrentaram alguns caçadores de recompensa.

Pelo menos agora Shizune tinha companhia com Tonton e estava aprendendo melhor em como lidar com pessoas de ressaca ou ativamente alteradas.

Tsunade não tentou mais prometer nada e Shizune não esperava nada diferente.


 

Tsunade se considera uma pessoa bastante observadora; quando um padrão surge, ela é uma das primeiras a notar.

Então, quando essa sensação de padrão acontecendo diante de seus olhos apareceu novamente, ela parou antes que a frieza da porcelana do ochoko tocasse seus lábios.

Ela não costuma beber mais do que uma garrafa de saquê quando está no escritório, principalmente porque apenas uma garrafa pode ser encontrada lá – mesmo se ela estocar vinte em vários lugares diferentes.

Ela suspeita fortemente de Shizune, mas não vai criar um alarde sobre isso quando sabe que está errada nessa situação, mesmo que admita a contragosto. Sua suspeita se confirmava principalmente toda vez que a mulher mais nova olhava com ofensa para a garrafa em sua mesa por breves segundos, algo que qualquer um que não fosse a própria Tsunade não notaria. A mesma cena aconteceu não mais que uma hora atrás, quando Shizune lhe entregou mais uma pilha de papéis e saiu com poucas palavras sobre o hospital estar bastante movimentado.

Uma olhada em direção à janela e ela percebe que Sakura estava atrasada por uma margem de meia hora. O que era estranho por si só, já que a garota nunca se atrasava para nada; sua pontualidade era uma de suas qualidades mais assustadoras. Não importando onde ela estivesse, se fosse estipulado um prazo para estar em um local designado, ela apareceria com cinco minutos de antecedência ou exatamente na hora.

Então foi estranho, e Tsunade começou a perceber que não era realmente a primeira vez que algo do tipo acontecia, mas era principalmente acompanhado de algum evento para dar uma desculpa totalmente justificável e o fator em comum era que todas as vezes ela era informada através de Shizune.

Franzindo o cenho e olhando para o fundo de seu ochoko meio vazio, embora com a garrafa já seca para que pudesse colocar mais, como se a resposta de seu novo dilema estivesse escondida lá.

Com uma revisão mental de seus momentos plenamente conscientes, percebeu que Shizune estava intervindo em suas interações com Sakura em várias ocasiões das quais conseguia se lembrar. Até mesmo ocasiões sem toda aquela formalidade vieram à sua memória. Não que Tsunade ligasse para Shizune intervindo em seu nome para algo; a garota era completamente responsável – talvez até demais – para causar algum estrago pior do que a própria loira já fizera contra sua reputação.

Era apenas curioso.

Tsunade a confrontaria sobre isso mais tarde no jantar. Agora ela tinha muita papelada para fazer e esperava que Sakura estivesse sob a tutela de Shizune no momento.



Tsunade se esqueceu de sua nota mental e não confrontou Shizune sobre o assunto naquela noite. Na verdade, esqueceu-se completamente pelo resto da semana e só se lembrou quando chegou ao final da tarde em que supervisionaria o avanço de Sakura com o chakra médico no peixe. Mas, antes que pudesse pisar na sala, foi interceptada por Shizune, que colocou a mão em seu ombro, impedindo-a de continuar.

O gesto por si só não dispararia qualquer alarme na mente de Tsunade, mas a sensação de um chakra familiar e que não era o seu, invadindo seus sistemas como se ali pertencesse foi uma surpresa estranha, fazendo-a se afastar bruscamente e encarar sua primeira aluna com desagrado.

— Que diabos foi isso, Shizune?

Tsunade não gritou; mesmo que fosse conhecida por isso, não o faria contra sua protegida. Ela apenas elevava a voz por costume de seus anos sendo abertamente ignorada por outros, mas Shizune sempre seria sua exceção em vários casos.

— Apenas garantindo. Não se preocupe com isso.

Seu tom foi tão casual e desprovido de qualquer emoção que surpreendeu Tsunade, fazendo-a apenas olhar atônita enquanto Shizune entrava na sala para cumprimentar uma Sakura ansiosa com gentileza sem igual, como se nada nos últimos dois minutos fosse algo completamente fora do comum.

Garantindo o quê, afinal de contas?



Sakura teve sucesso absoluto e nota máxima em sua avaliação. Foi bastante adorável ver a criança se jogar nos braços de Shizune com uma risada alegre, e até fez o coração de Tsunade se aquecer um pouco mais quando a mais velha pareceu retribuir a alegria da mais nova com seu próprio riso, embora mais contido.

Dan provavelmente teria se juntado ao abraço coletivo com sua própria dose de alegria e orgulho se estivesse ali. Provavelmente teria piscado de maneira brincalhona para Tsunade e erguido as duas garotas presas em seus braços, girando no lugar com elas ainda presas enquanto proferia alguma frase cafona e inspiradora sobre os frutos do trabalho árduo. Shizune apenas reviraria os olhos diante da palhaçada, sem realmente tentar se soltar, e Sakura coraria timidamente, mas seus olhos verdes escuros estariam transbordando de alegria infantil.

Mas isso era apenas um pensamento. Dan não estava ali. Shizune não tinha a leveza descontraída. E Sakura tinha olhos verdes jade, não o mesmo tom que Dan.

Seu sorriso vacilou um pouco, mas Sakura estava com o rosto enterrado na curva do pescoço de Shizune para perceber. E Shizune… a encarava com um olhar estranho antes de voltar a atenção para Sakura, dizendo algo sobre lojas de chá e dango e então, de maneira nada sutil, lembrando a mulher mais velha sobre organizar seus papéis para a reunião com os anciãos que teria dali a uma hora.

Saíram da sala com a mão de Shizune nos ombros de Sakura, que apenas lançou um olhar um pouco confuso para Tsunade, mas seguiu o comando de Shizune como um patinho.

O que diabos foi isso?

Raiva foi a primeira coisa que sentiu – afronta, até! Shizune basicamente a dispensou sem olhar duas vezes para participar de alguma comemoração de sua própria aprendiz caçula depois de um sucesso desse tamanho?

Absurdo! Desrespeitoso! E quem no inferno frio ensinou sua garota a ter esse tipo de atitude? Tsunade iria enterrá-lo vivo e de cabeça para baixo ainda por cima!

Foi com passadas largas que alcançou a dupla antes que virassem a esquina da rua. Prontamente declarou que; se os anciãos estivessem fazendo hora extra nesse plano espiritual, não seria esperar alguns minutos por Tsunade que os levaria à cova (ela desejava que fosse).

Sakura pareceu horrorizada com sua fala, mas radiante com sua presença logo em seguida, e Shizune apenas sorriu suavemente, com uma emoção peculiar e não identificável que durou meros segundos.

Elas iriam conversar sobre isso quando chegassem em casa.



Shizune teve a ideia certa, porque, assim que chegaram à única propriedade habitável do complexo Senju, sentou-se no sofá e esperou.

Tsunade não se juntou a ela, optando por ficar de pé na frente de sua protegida, de braços cruzados e observando-a como uma águia.

— O que diabos foi aquilo?

Praticamente repetiu a pergunta original de algumas horas atrás, novamente sem elevar a voz.

— Eu estava apenas me assegurando.

— Vamos parar com as frases dúbias. Desembuche de uma vez, Shizune. —Pediu, não como uma ordem já que seu tom suavizou contra sua vontade. Parecia uma resposta natural inconsciente quando sentia Shizune ou Sakura desconfortáveis. — Não é a primeira vez que você faz algo do tipo, mas é a primeira vez que age de maneira tão descarada sobre o que quer que seja isso.

— É um pouco engraçado que você percebeu que tem algo, mas não realmente o motivo. Acho que eu não deveria esperar menos.

— Esperar menos sobre o quê?

— Não quero que Sakura te veja embriagada. Lá no hospital eu estava me assegurando de que você estivesse sóbria para a avaliação. Quando acabou, você estava com aquele olhar distante, o mesmo de quando pensa no tio Dan. — Tsunade não estremece quando o nome sai com tanta facilidade dos lábios de Shizune. — Eu realmente não quero que ela precise passar por essa situação. Ela já tem muito com que lidar com a deserção do Uchiha e suas consequências, Hatake voltando à rotação ativa e, pelo que ela me contou, o idiota não vai sequer dar uma segunda olhada nela. Naruto também não está na vila e, graças ao Hatake, o Time Sete nunca teve muito contato com os outros novatos do mesmo ano. Essencialmente, Sakura está sozinha e não precisa ver sua mentora funcionando abaixo da capacidade ideal porque decidiu que seria uma ótima ideia ingerir álcool ao meio-dia.

Shizune não falou com raiva, apenas resignada. Tsunade sentiu que cada palavra poderia muito bem ter sido acompanhada de um soco.

— Eu não–

— Não teria aparecido bêbada? — Shizune riu sem humor, entrelaçando os dedos e mantendo a cabeça baixa. — Isso só não aconteceu porque eu sempre apareço para mudar sua agenda e a de Sakura, para que ela nunca precise te encontrar quando você está com pelo menos mais da metade de uma garrafa no organismo.

Tsunade fecha a boca com um estalo, tentando encontrar alguma forma de se defender contra as alegações, sem sucesso algum. Apenas uma opção lhe vem à mente:

— Eu consigo maneirar. Você não precisa continuar fazendo isso.

Shizune inspira fundo, finalmente erguendo a cabeça para olhá-la diretamente.

— Eu te amo, Shishou. Te amo como a mãe que não pude conhecer e, por isso, sempre estarei ao seu lado. Mas eu não consigo me forçar a acreditar em suas palavras. Não depois de todos esses anos.

Doeu mais que um soco dessa vez.

Shizune pareceu interpretar seu silêncio prolongado como uma forma de dispensa, pois se levantou e murmurou um “boa noite” manso antes de ir para seu quarto e fechar a porta tão gentilmente que o som mal foi ouvido na casa silenciosa.

Tsunade ocupou o lugar no sofá que anteriormente era de Shizune, pressionando as palmas das mãos contra o rosto, sentindo o calor da vergonha se espalhar por sua face e uma leve ardência nos olhos.

Ela queria uma bebida agora e isso dizia muito sobre como Shizune estava certa.

Não sabe quanto tempo ficou sentada naquela posição, tendo pena de si mesma e igualmente se sentindo culpada, mas uma nova decisão começou a se solidificar em seu interior. Ela superou, tecnicamente falando, alguns dos antigos temores e agora talvez fosse o melhor momento para superar mais um obstáculo pessoal.

Prometendo em voz baixa para Shizune e Sakura que dessa vez seria diferente, decidiu que sua vida não estaria mais no fundo de cada garrafa que abrisse.

Tsunade consegue fazer melhor e ela quer ser melhor. Suas meninas merecem isso. E também teria que pensar em um grande pedido de desculpas para Shizune, talvez vitalício. Não foi justo com a garota ter que aguentar sua versão bêbada e lamentável por todos esses anos. Tsunade não era a única sofrendo por tudo.

Um suspiro e mais uma promessa. Ela seria melhor e pararia com esse vício. Talvez até pudesse anexar a isso o controle de seu vício em apostas também. Gostaria que suas garotas tivessem alguma herança tangível quando a vida inevitavelmente seguisse seu curso.

Ela iria fazer melhor.



Shizune já esperava que sua mestra diminuísse o consumo da bebida na semana seguinte devido à culpa, mas quando uma semana se tornou duas, isso chamou sua atenção. Provavelmente era por Sakura estar envolvida; então a culpa era maior.

Ela não pensou muito sobre isso, não deu grande importância e definitivamente não esperava nenhuma mudança prolongada. Porém, não iria negar que foi bom não precisar monitorar qualquer sinal de álcool no escritório antes de compromissos que Sakura tivesse.

Alguns dias, Tsunade parecia definitivamente estressada de um jeito que denunciava sintomas de abstinência, mas conseguia engolir tudo muito bem quando lidava com a geração mais nova dos shinobi de Konoha – para o alívio de Shizune. Ela passou a ter um bule de chá em seu escritório, e Shizune tinha certeza de que usava chakra medicinal a cada poucas horas para aliviar sua dor de cabeça bastante visível.

Qualquer garrafa alcoólica desapareceu de todos os esconderijos do escritório e até mesmo da casa no complexo havia sumido, restando apenas as de uso medicinal, que decisivamente não eram para consumo.

Shizune não questionou nem apontou nada, e Tsunade também não tocou no assunto. Apenas Sakura perguntou, um dia, sobre o comportamento incomum da mentora de ambas, e é claro que ela notou. A menina era muito mais observadora do que qualquer um lhe dava crédito, e Shizune foi honesta: explicou sobre os sintomas de abstinência e o vício de longa data da loira com álcool.

A menina pareceu bastante compreensiva e então confidenciou que imaginava que era por isso que Shizune intervinha tanto. Isso pegou a mais velha de surpresa.

Definitivamente, a menina era muito observadora e sabia fazer uma cara inocente quando lhe convinha.

As coisas, felizmente, não mudaram, e Sakura parecia ter esperanças positivas na nova luta de Tsunade contra o vício. Shizune mentiu ao concordar, mas não seria ela a arruinar as esperanças de Sakura tão cedo. O tempo faria isso.



Quando Shizune acordou, o cheiro fresco de peixe grelhado a saudou.

Ao entrar na cozinha, não fingiu surpresa ao encontrar Tsunade lá, de avental, colocando os alimentos preparados na mesa.

— Eu quase me sinto ofendida, mas sei que mereço isso. — a mais velha resmungou, sem se virar para olhar para Shizune quando ela ocupou seu lugar habitual, com um verdadeiro asagohan disponível à sua frente.

— Desculpe… Só estou surpresa que você já esteja acordada, principalmente hoje. — murmurou, decidindo que o arroz era bem mais interessante de encarar.

— Eu imaginei que seria mais produtivo termos um café da manhã farto e depois irmos visitá-lo. Já comprei incensos e preparei o favorito de Dan para levarmos.

Tsunade comentou de maneira casual, sem qualquer tremor ou hesitação ao proferir o nome.

Shizune inspira rápido demais e se engasga com um punhado de arroz, sendo rapidamente amparada por uma xícara de chá verde oferecida pela mulher mais velha. São necessárias algumas tossidas, goles trêmulos e alguns tapinhas nas costas para que consiga recuperar a compostura e encarar sua mestra, que agora está de pé ao seu lado, com a mais pura incredulidade estampada no rosto da mais nova.

— Você está falando sério?

Sua voz soa tão trêmula e baixa que é quase ofensiva, mas a expressão alegre de Tsunade desaparece completamente, restando apenas culpa e carinho.

Sério. Eu sei que disse isso tantas vezes no passado…, mas agora estou sóbria de verdade para isso. Me desculpe por você precisar cuidar de mim quando eu estava tentando me afogar em um copo de álcool. Por ter me visto no fundo do poço. Você era só uma criança e criança alguma deveria ter que lidar com a versão bêbada de seu guardião, mesmo sendo uma criança ninja.

Dedos gentis e conhecidos deslizaram por seus fios cor de carvão em uma carícia superficial. Um convite silencioso para que ela se afastasse, caso quisesse.

Ela não o fez.

Apenas se inclinou e pressionou a testa contra o busto da mais velha, suas mãos voltando facilmente a velhos hábitos e encontrando tecido para se agarrar.
Não havia cheiro de álcool impregnado suas roupas dessa vez.

— Eu queria tanto ouvir isso anos atrás.

— Eu sei. Eu sinto muito por isso também.

O afago continuou, e logo uma palma quente fazia círculos suaves no topo de suas costas.

Shizune chorou silenciosamente, agarrada à sua mãe de coração como se sua vida dependesse disso.

Em seu coração, a esperança floresceu como um pequeno broto após uma terra arruinada pelo fogo.



Seis meses depois, quando comemoraram um ano sem álcool na vida de Tsunade, Shizune a abraça e diz que a perdoa.

Dessa vez, é Tsunade quem a abraça enquanto chora.

Notes:

Nesta historia basicamente só tivemos a ponta de como seria realmente uma batalha para se livrar de um vício sério, é uma jornada e luta para muitas pessoas. Então se não fez jus, peço desculpas, mas eu realmente não queria me apronfundar nessa parte.

Vícios são dificeis de se livrar, mas persista mesmo assim se você estiver nessa batalha. Você não está sozinho, este autor anonimo está aqui para te apoiar nessa empreitada! Não desista! (๑•̀ㅂ•́)و✧