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the bends

Summary:

"Você se arrepende?"
"De ter me aliado a Luke?"
"Sim."
Gwen não responde de primeira, prefere olhar para o céu.
"Não. Acredito que os deuses mereceram ser colocados em seus devidos lugares," ela move os olhos para Percy. "Mas me arrependo de ter te decepcionado."

∮∮∮

onde, depois da guerra, Gwen e Percy tropeçam por obstáculos em seus caminhos que insistem, de qualquer maneira, juntá-los novamente.

Chapter 1: Contrato de CLT

Notes:

eu senti TANTA SAUDADE de escrever fanfic de PJO, vocês não fazem ideia! Gwendolyn Reis é uma OC minha há um tempo e que carrega um pouco de mim em suas entranhas (coisa que percebi apenas quando comecei a fazer terapia). Ela já mudou de vida muitas vezes, mas algo sempre permaneceu: ela sempre é toda xoxa capenga e cheia de angst, ENTÃO, essa história vai ter tudo isso :)

sejam gentis com a Gwen. espero que gostem!

Chapter Text

Outubro de 2021. Manhattan, Nova York.

O número dourado sobre a porta marrom encarava Gwen de volta como se fosse uma piada de mau gosto. 505.

No lado de fora do corredor esverdeado, Nova York estava quieta. Ou talvez fossem os próprios ouvidos que se recusaram a ouvir o barulho do exterior para além do ritmo ansioso de seu próprio coração.

Aquilo não deveria ser tão difícil.

Apertou a campainha, estalou os dedos. Ouviu o barulho de Sally Jackson no fundo do corredor, ficando mais alto conforme se aproximava da porta do 503. Gwen fixou os olhos no olho mágico e torceu para que Mônica aparecesse logo e abrisse a maldita porta, antes que tivesse que encarar o rosto de Sally Jackson. Antes que tivesse que ouvir o riso de Percy Jackson. Antes tivesse que lidar com memórias que não tinham a decência de deixá-la.

Talvez para garantir que Gwen jamais pudesse falar que Mônica nunca havia feito nada por sua própria filha, a porta abriu logo quando Sally Jackson enfiou a chave na fechadura. Gwen empurrou a porta do 505 e forçou sua própria entrada, torcendo que assim que se escondesse ali dentro pudesse respirar.

Mas o cenário que encontrou a fez desejar ainda estar do lado de fora. Antes lidar com Percy Jackson e sua família, do que lidar com aquele novo mundo.

Don saiu da cozinha à esquerda segurando uma garotinha de cabelos tão loiros quanto os fios naturais de Gwen, agora escondidos por uma tinta acobreada em fios ressecados. O rostinho curioso era uma junção de traços de Mônica e Don. Traços de Gwen misturados com os de outra pessoa. Tinha cerca de dois ou três anos, olhos grandes e castanhos, como os de Gwen um dia foram. Brilhantes e esperançosos, mas sem sinais de ser um monstro. Sem sinais de ser um lobo escondido sob a pele de um cordeiro.

A porta se fechou com um estrondo, fez os ombros de Gwen se contraírem. Mônica estava falando algo que até então foi abafado, mas que se tornou audível como se Gwen tivesse tirado a cabeça de dentro de uma banheira cheia com água.

— ...Don, você se lembra da minha filha.

— Gwendolyn. — Don anuncia com desdém.

Evitou esbarrar com a primogênita enquanto caminhava pro outro lado do apartamento, para dentro de um dos quartos. Fechou a porta, a garotinha em seus braços ainda se esticou para encarar aquela criatura esquisita que estava no meio de seus domínios.

Gwen fecha as mãos, tamanha foi a força que conseguiu ouvir as falanges estalarem. Não olhou para Mônica, os olhos decidiram se perder na imensidão de brinquedos espalhados pela sala de estar: Barbies, móveis cor-de-rosa de plástico, bichos de pelúcia, legos. Coisas que Gwen sempre quis ter quando era mais nova, e tudo que recebeu foi meia dúzia de brinquedos ganhados em um parque de diversões, porque sua mãe era uma ótima atiradora. No rack da TV, fotografias deles três durante as fases do crescimento da caçula. Fotografias que Gwen não tinha, não por odiar o passado que carregava em ferimentos de alma, mas por não ter sequer tido a oportunidade de tê-las. Não havia sinais da existência de Gwen na vida de Mônica.

Sentiu vontade de começar a coçar o corpo até que sua pele fosse trocada por outra. Aquele corpo que habitava parecia errado, sua mera presença ali era problemática demais. Gwen sabia que Sally Jackson já tinha saído e que Percy Jackson provavelmente ainda estava na escola, mas conseguia ouvir as conversas doces que eles sempre tinham. Conseguia sentir a discrepância de mães que tiveram e do destino que foi tecido.

Virou-se devagar. Temia não apenas o que viria no rosto de Mônica, mas o que o próprio rosto mostraria à mulher que lhe deu o sopro de uma vida dolorida. A mulher que a condenou a ser aquele negócio.

— Achei que odiasse crianças.

Era uma acusação. Claro que era. Como Mônica ousava substituir um erro pelo acerto perfeito? Como ousava fingir que Gwen nunca existiu? Como ousava voltar atrás em algo que afetou Gwen tão profundamente?

— Odiei. — Mônica fez uma pausa, como se esperasse que a constatação fria causasse algum efeito em Gwen. Causou, mas Gwen já sabia não demonstrar suas próprias reações para Mônica. Entregar suas expressões de mão beijada era entregar munição nas mãos de um atirador de elite. E Mônica sabia exatamente onde atirar para machucar, e não matar. — Odiei ser mãe de semideus. Principalmente um que é metade monstro, como você.

Gwen esticou o queixo, inquieta. Aquilo não deveria ter causado o efeito que causou, mas, deuses, ouvir aquela porra doeu. Acertou um golpe no meio da caixa torácica de Gwen e certamente a deixaria vagando como um fantasma por Nova York, errática por vielas, torcendo que um monstro aparecesse e a arrastasse ao Submundo. Desejando uma graça que o mundo não a daria.

— O que está fazendo aqui?

Olhou para o lado, desejando quebrar todos aqueles porta-retratos que caçoavam dela. Podia ouvir o som dos estilhaços de vidro quebrando e sentir o sangue escorrendo dos nós dos dedos. Se fosse menos covarde (pois já era inconsequente o suficiente), Gwen teria puxado o colarinho da blusa de Mônica e a atirado contra uma das paredes. Ou feito pior, coisa que certamente faria.

Gwen tinha medo de si mesma.

— Vim buscar minhas coisas.

Mônica não precisou falar onde elas estavam, Gwen já sabia. O quarto do meio era um depósito de coisas que poderiam ser jogadas fora eventualmente. Quando Gwen morou ali, aquele quartinho era onde dormia. Ela própria se jogou fora, eventualmente.

Puxou uma das caixas de cima de um armário e fez uma seleção. Tinha perdido todas suas armas em desgraça depois da guerra, estava sobrevivendo através da própria inteligência, mas isso não seria suficiente a longo prazo. Principalmente se os deuses, um dia, decidissem voltar a caçá-la. Pegou uma adaga de bronze celestial velha, leve demais para os braços acostumados a empunhar espadas de verdade. Pegou uma mochila com poucas coisas de quando era uma semideusa iniciante e rumou para a porta da frente. Tinha um plano claro: sair, ir até o Labirinto de Dédalo e conseguir armas novas no mercado clandestino.

Enquanto Gwen caminhava pelo apartamento recuperando suas coisas (que mais eram artefatos de um tempo que não se identificava mais), Mônica a seguia, reclamando. Era a mesma ladainha de sempre, interminável. Gwen respondeu apenas duas ou três provocações, que não chegaram a entrar debaixo da pele dela e que se dissolveram assim que abriu a porta.

Deu de cara com os vizinhos do 503.

Sally Jackson carregava um bolo azul com granulado colorido, Percy Jackson estava vestido com um moletom azul com letras brancas que diziam “HIPPOCAMPUS” e embaixo traziam mais informações, “time de natação – GHS, Manhattan”. Eles conversavam sobre alguma conquista importante, ele sorria para a mãe até os olhos encontrarem o rosto choroso de Gwen. Sally Jackson se espantou, quem não se espantaria? Era um cadáver ambulante no meio de gente cheia de vida.

— Não volte, Gwendolyn.

Mônica não fechou a porta atrás de Gwen assim que sua atenção encontrou a família vizinha. Percy Jackson abriu a boca para falar alguma coisa antes de fechar o rosto, talvez lembrando que ele deveria odiá-la por tudo que Gwen havia feito. Gwen desejou odiar Percy com a mesma intensidade, assim como desejou poder se mexer; as pernas de chumbo recusaram o movimento mandado. Engoliu em seco, sentindo o tempo se pressionando contra seus pulmões. Muito como se sentia quando encontrava com Luke em seu escritório, o tempo distorcido de Cronos sempre a deixava sufocada.

— Não vou voltar.

Não sabia se estava falando com Mônica ou com Percy, mas viu uma sombra de dor passando pelos olhos dele. Gwen sempre odiou decepcionar as pessoas, mas decepcionar Percy Jackson era uma dor mais afiada, daquelas que se alojam e não arredam por nada. Esfregou a manga do casaco pelo rosto úmido e caminhou para as escadas, Mônica falou algo para Sally Jackson, os olhos do Herói do Olimpo perfuraram as costas dela enquanto ela descia. Desceu os cinco andares apressada pra dar um motivo plausível ao coração que não parava de acelerar.

Não voltaria. Não podia voltar.

• ♠︎ •

Dezembro de 2021. Labirinto de Dédalo, Nova York.

O sangue que pingava das mãos de Gwen era escuro, um dourado enferrujado, fedorento. Gotejava sobre o solo empoeirado em meio ao fervor dos seres que assistiam. Era raro, para eles, verem um semideus naquela posição, tão cruel e frio. Os outros ainda demonstravam algum sentimento quando estavam em campo, Gwen, não. Quando estava na arena, sentia muito pouco, pensava apenas nas dracmas que receberia uma vez que saísse da arena. Não dava abertura para as provocações fazerem efeito. Era silenciosa, ágil e mortífera. Acheron, seu patrocinador, gostava de sorrir aos outros e dizer que sua campeã, a Caçadora Escarlate, tinha a frieza de uma romana, embora fosse grega.

“Por isso ela é boa, amigos!” Ele dizia entre risos enquanto esticava o dinheiro apostado.

O vestiário dos campeões era em um dos corredores do grande labirinto, longe de ser luxuoso. Pegava água encanada emprestada do encanamento da cidade acima de suas cabeças, em alguma parte da vasta Nova York em que morava. Parecia banheiro de rodoviária, sujo e mal iluminado. Os campeões, em maioria semideuses miseráveis que foram abandonados no pós-guerra

Colocou a armadura dentro de sua mochila e entrou numa das cabines, equilibrando as alças gastas num dos ganchos na porta. Empurrou o ferrolho, abriu o chuveiro, enfiou-se debaixo da água fria com precisão robótica. Deixou que o frio batesse contra o corpo quente, apoiou as mãos machucadas nos azulejos e abaixou a cabeça após desfazer as tranças boxeadoras que costumava usar. Viu escorrer o sangue seco, dourado enferrujado e vermelho se juntavam no chão. Gwen suspirou, tentando relaxar os ombros, não adiantou. Com tamanho estresse, relaxar era um verbo que Gwen não sabia mais conjugar.

Quando saiu do banho, cuidou dos próprios ferimentos. Não gostava de sentir as mãos dos enfermeiros de Acheron a tocando. Não por não saberem o que estão fazendo. Preferia cuidar de si mesma, sozinha. Costurou cortes mais fundos depois de aplicar anestesias locais, tomou uma dose pequena de néctar. Vestiu uma blusa de mangas longas e um casaco preto, depois de enxugar o cabelo, escondeu-os debaixo do capuz. Jogou a mochila no ombro que não estava machucado e saiu, cabisbaixa, evitando qualquer outro semideus que a conhecesse da guerra.

Podia não se importar com muita coisa, mas não gostava de admitir a queda de seu status. Gwen uma vez foi comandante de um exército, 500 semideuses e monstros foram seus subordinados. Agora não passava de uma gladiadora se esgueirando pelos túneis abandonados do Labirinto de Dédalo, andando por ele como se fosse uma segunda casa. De certo modo, era, mas Gwen não queria pensar nisso.

O escritório de Acheron era um túnel inteiro, separado por portões redondos de ferro. Era apertado, extremamente quente no verão, congelante no inverno. Gwen deixou a bolsa pesada ao pé de um sofá, onde Robert, um ser humanoide com cabeça de chacal, se sentava. Muito bem vestido, ele a analisou com o olho por trás de seu monóculo. Talvez fosse um dos únicos ali dentro que não lidasse com o desdém da semideusa.

— E aí, Robert?

— Boa luta hoje, Lynce. — Ela agradeceu baixinho, virando-se para Acheron.

Acheron era um homem alto, esguio de uma maneira quase desproporcional. A pele era quase morta, sem brilho algum e adornada por cicatrizes sem histórias, ou com muitas histórias perdidas no tempo, já que ele era mais velho do que a maioria que habitava aquele Labirinto. Sentado em sua cadeira pomposa, contava as notas de dólar que venceu nas apostas com outros financiadores. Naquela noite em específico, seu rosto estava colorido: um hematoma se formava em volta do olho esquerdo, sobre o osso da maçã do rosto no lado direito e no canto esquerdo da boca. Pelo que parecia, aquela surra era fresca.

Duas gárgulas quase não se mexiam em ambos os lados de Acheron, mas Gwen conseguia sentir os olhos ocos a encarando enquanto cruzava o caminho até a escrivaninha; Sfagí ficava à direita, enquanto sua gêmea, Aíma, ficava na esquerda. Na poltrona ao lado de onde Gwen ficou parada, estava Yenea, uma harpia de olhos vermelhos com a pupila vertical. Ela não era muito fã de Gwen, observava-a como se fosse uma presa pronta a ser devorada. Se ela não fosse tão valiosa para Acheron, certamente Yenea já teria despedaçado cada membro do corpo dela. Ou teria tentado, mas Gwen provavelmente a mataria antes que conseguisse machucá-la.

— Você lutou bem hoje, Gwendolyn. — Ele dividiu o dinheiro, não em partes iguais, e esticou as notas primeiro, depois colocou o saquinho de veludo vermelho em cima da mesa. As cicatrizes no rosto se esticaram de maneira grotesca quando ele sorriu.

Gwen contou as notas, 110 dólares, mais do que geralmente conseguiria. Com aquele dinheiro, conseguiria pagar compras de mercado por duas semanas, mais ou menos; talvez três, se economizasse bem. Duvidou que fosse do bom coração de Acheron, ele era do tipo mão de vaca, raramente dava à Gwen mais do que ela “merecia”, mas não reclamou. Dobrou as notas e enfiou-as no bolso de sua jaqueta.

— Não à toa, chamou atenção de uma certa pessoa lá de baixo.

Gwen pesou a bolsa de dracmas em uma das mãos, justamente quando Acheron falou. Levantou o rosto, testa franzida.

— Quem?

— Alecto. — Yenea mostrou os caninos pontiagudos e as gengivas pretas em um sorriso maníaco. — Ela quer que você trabalhe pra ela.

— Foi quem desceu a porrada em Acheron. — O sorriso matreiro de Robert sumiu assim que Aíma mexeu sua cabeça com um som de rocha arrastando. Acheron revirou os olhos.

— Alecto quer dividir trabalho com você. Acho que está tendo alguma revolução trabalhista no Submundo. — Gwen teria rido se aquilo tivesse saído da boca de qualquer outra pessoa, menos de Acheron. Com um muxoxo, ele completou sem querer: — Eu concordei em deixá-la levar minha campeã favorita.

Yenea sorriu de lado, mas não fez muito além disso. Gwen levantou a sobrancelha.

— Sei. E o que há nesse tal contrato? Minha alma? — Acheron revirou os olhos.

— É um contrato como qualquer outro, Gwendolyn. O Submundo não lida com negócios como o catolicismo ao lado. Sem almas, apenas… CLTs normais.

Parecia irônico ouvir aquilo. Acheron suspirou, tirando algo de uma das gavetas de sua escrivaninha: um papel pequeno e branco, retangular. Deslizou até a ponta da escrivaninha e depois uniu as mãos sobre o colo, encostando as costas na cadeira de couro em que se sentava.

— Alecto quer fazer um contrato de três anos, para testar. Sabe, ver se você aguenta o tranco. — Ele uniu as mãos sobre o colo e encostou as costas na cadeira em que se sentava. — 1 ano de treino, 2 de campo. Um lugar pra ficar, comida na sua mesa. Promessa de uma eternidade trabalhando.

Gwen encarou o nada por algum tempo, pensando sobre ser gado de manobra do Submundo. Talvez fosse melhor do que ficar aplicando golpes aqui e ali para sobreviver. Ainda assim, o Submundo tinha deuses, e pelo ótimo histórico que tinha, não sabia se daria certo trabalhar com deuses.

Mesmo assim, puxou o cartão de visitas, prometendo em silêncio que iria pensar sobre aquilo. Muito provavelmente se negaria a trabalhar para Alecto, mas esqueceu o cartão no bolso da calça jeans, e quando chegou em seu apartamento cheirando a mofo numa ruela esquecida no Bronx, tirou o papel do jeans. Um endereço e um horário depositaram uma curiosidade atrás da orelha de Gwen.

— Eu, se você fosse você, Lynce, aceitava. — Gwen olhou para trás, encarando Robert enquanto ele limpava o monóculo em sua blusa. — Sabe uma coisa que os trabalhadores do Submundo têm como vantagem?

— Deficiência em vitamina D?

Gwen nunca viu aquela sala rir de suas piadinhas, mas até os gêmeos gárgulas soltaram risos raros.

— Não, Lynce. Eles têm imunidade contra o Olimpo. E pra uma semideusa cuja cabeça vale mais do que qualquer alma aqui… — Robert deu de ombros, apoiando os braços na parte de trás do encosto do sofá de couro. — Isso vale mais do que qualquer salário mínimo.

Robert não estava errado. Imunidade contra o Olimpo era mais atraente do que podia imaginar. Gwen encarou o papel, ainda pensativa. Viu Acheron sorrir de lado quando ela assentiu devagar, aceitando encontrar-se com Alecto.