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Altan ama Speer. Essa é uma verdade irremediável e irrefutável, ele nasceu daquela terra e tornará aquela terra no fim de tudo, disso ele sabe.
Ele ama o verde, o mar, a maneira como sua casa vibra viva, inteira, poderosa. Ele ama as músicas e as pessoas, ele ama a luta, ama as risadas e as lágrimas.
Ele ama tudo.
Mas Altan não sabe mais o que a vida tem para ele.
Altan sente que alcançou tudo pelo o que lutou durante a vida toda. Ele foi a Sinegard e se tornou uma lenda, ele foi um campeão invicto, serviu para o Cike por algum tempo, então retornou para Speer quando sua hora finalmente chegou e ele ganhou a patente de General, merecidamente, não por nepotismo, em seu lar eles não aceitam esse tipo bobagem. Em Speer, você merece ou não merece, você é ou não é, simples assim.
Mas depois de tantos anos, de tantas lutas, de todo o xamanismo e comando, ele não sabe o que lhe espera do outro lado.
E é com esse pensamento que ele retorna a sua casa depois de meses em Nikan, em uma excursão a Província do Javali, estreitando laços e ajudando a treinar uma remessa de novatos da milícia. Os anos batem mais forte nele depois que um lorde rico e influente da província oferece sua única filha em casamento a ele, como se achasse interessante dar a garota como um boi de raça em troca de algumas futuras crianças speerliesas.
Altan nem mesmo tinha pensado que era um possível partido para qualquer um, mal tinha reparado que, aquela altura, a maioria dos generais de guerra ou homens convencionais estavam casados, talvez até com um ou dois filhos.
Mas Altan nunca foi convencional.
É sábado quando ele finalmente chega em casa e sabe que é um dos dias em que toda a sua família se reunirá em peso para um almoço, ele se sente vibrar em ansiedade nervosa, mas fica feliz em poder voltar para um lar depois das semanas que se arrastaram.
Quando ele entra em casa a primeira coisa que percebe é o cheiro de comida cozinhando e fritura estalando. Altan franze a testa e entra na casa, deixando sua bolsa no banco de madeira arranhado da entrada — o Trengsin consegue ver onde Rin e ele riscaram quando eram mais novos, suas iniciais e carinhas com vários humores. Ele ainda se lembra de ficar de castigo por aquilo —, ele caminha até a cozinha e observa em silêncio a cena à frente.
Cantarolando distraidamente enquanto mexe em panelas e tira bananas fritas do óleo está Jiang Ziya. Altan diria que ele é um homem comum, que é um frágil pai de família aposentado, mas ele sabe das histórias, ele conhece Jiang Ziya e este homem não tem nada de frágil.
— Não é educado encarar. — o homem comenta bem humorado enquanto frita mais bananas.
Altan bufa e observa as panelas que soltam fumaça e fervilham no fogo.
— Não há uma alma educada nessa família. — Altan retruca e Jiang bufa — Não está cedo para cozinhar?
Ziya finalmente o olha e Altan ainda se sente desconcertado olhando-o, mesmo tendo crescido com ele, é como se Jiang não envelhecesse de verdade, como se as rugas tivessem medo de alcançá-lo mesmo depois de tantas décadas. O Trengsin não deixa transparecer nenhum tremor, mas sabe que Jiang espera que as pessoas estremeçam diante dele.
— Sua mãe disse que você chegaria cedo. — Ziya comenta simplesmente e serve um xícara de chá para cada um deles, bebericando a sua calmamente — Você sabe, com aquele sexto sentido dela.
Altan bufa tomando seu chá. Hana Trengsin poderia ser uma adivinha muito útil a qualquer exército sem nem mesmo alcançar o Panteão, apenas com suas deduções e sentidos sobrenaturais.
— Então ela te disse para vir preparar o almoço mais cedo? — o Trengsin questiona enquanto Jiang volta a mexer em suas panelas.
— Sua mãe foi ajudar aquela garota grávida do fim da rua, então obviamente sobrou para mim. — Jiang concorda, como se estivesse aborrecido, mas Altan sabe mais — Hana teria sido uma General pior do que Hanelai, acho que fomos abençoados por ela odiar qualquer coisa que envolva espadas e estratégia.
Altan ri baixinho negando com a cabeça. Mesmo tendo tido uma educação semelhante, Hana não poderia odiar mais qualquer coisa que envolvesse guerra, diferente de sua irmã, que trabalhou duro e se tornou a grande General Hanelai Trengsin de Speer. Sua mãe não ficou exatamente satisfeita quando ele disse que queria seguir o legado dos Trengsin e se tornar um soldado, mas não lhe negou o direito de trilhar o mesmo caminho que Hanelai e seu pai, Yichen.
— Bem, se mexa um pouco e me ajude com essas panelas, sim? Eu sou um homem velho. — Jiang aponta distraidamente para as panelas enquanto corta alguma coisa na pia e Altan fica feliz por nunca ter servido em nenhuma batalha para ele.
Os dois caem em um silêncio confortável até que a comida esteja pronta e Jiang tenha que bater na mão dele com uma colher de pau para afastá-lo — Altan não percebeu como estava com fome até ver toda aquela comida — Altan se distrai com a monotonia de sua casa de infância, escutando o cantarolar de alguma música obscena de Ziya e o canto dos pássaros nas árvores do quintal, o Trengsin se pergunta como seria se estabelecer assim, uma casa sua, com o seu conforto, controlando como os sábados em família serão.
Ele pisca e observa Ziya, que agora lava as tigelas sujas com movimentos treinados. Altan sabe que Hanelai e ele não era exatamente o maior exemplo de amor de todos os tempos, nem um pouco convencionais, nunca se casaram, demoraram anos para se estabelecer e encontrar um ritmo que funcionasse.
Ambos eram soldados, manchados e machucados pela sujeira da guerra, feridos e com ossos partidos, potências em suas próprias lendas, mas se apaixonaram. Eles tiveram uma filha e Hanelai não queria nada além de criar ela, Altan ainda se lembra de Jiang visitando esporadicamente a casa de sua tia e prima, passando temporadas e então sumindo por um tempo, na época em que a Tríade ainda era constantemente requisitada por todo o país. Ele também se lembra de vê-lo por Sinegard em seu tempo de professor de Folklore, cantarolando e mijando na cama de Jun quando queria, como se fosse um louco, pelo menos até Rin aparecer e ele treiná-la pelos próximos anos.
Nessa época Altan ficou um pouco perdido em suas próprias coisas, trocando cartas com Rin raramente em atualização que não estavam associadas a Jiang, mas ele sabe que, assim que Rin saiu de Sinegard, Ziya também saiu e voltou para Speer, quando finalmente ficou residência que mandou todos dizerem que estava morto. Desde então ele permanece ali, ele cuida da casa, tem um jardim que mantém desde a infância de Rin, ajuda em reformas por toda a ilha, vai à praça central alimentar os pássaros e jogar cartas com uma dúzia de velhos, Altan imagina que isso signifique que ele está finalmente aposentado.
O Trengsin reflete sobre tudo isso quando os dois se sentam para mais uma rodada de chá à mesa da cozinha. Altan encara Ziya, que agora tem lã de tricô e um par grande de agulhas, enquanto tece alguma coisa em um tom profundo de vermelho.
— Consigo sentir você pensar. — o homem fala depois de engolir um gole de chá — Desembucha, caranguejo.
Caranguejo. Altan faz cara feia e finge estar aborrecido como fazia quando era adolescente. Ele se lembra de um dia, muitos anos atrás, quase uma vida, quando Rin deveria ter quatro anos e ele nove, e ambos pegaram muito sol em um dia de folga de suas atividades e treinos, que ele riu até a barriga doer e chamou sua priminha de camarão, por suas bochechas coradas pelo sol e testa marcada. Mai'rinnen, diferente de qualquer garota frágil daquela idade, inflou as bochechas e rapidamente o chamou de caranguejo, como se aquele fosse um grande xingamento, adequado para seu primo malvado — Altan não escapou do apelido e ainda é assombrado por ele mesmo hoje, anos depois.
Mas ele tenta focar em seu problema atual e esquecer sua infância doce.
— Me pediram em casamento na Província do Javali. — Altan comenta brevemente esperando uma reação exagerada que sabe que seu tio jamais lhe dará.
Ziya o observa como se dissesse e daí?
— Foi o Chaghan? — Jiang questiona de maneira direta e Altan sente suas orelhas queimarem, e não por causa de sua deusa — Você não precisa ficar tímido, garoto. Todo mundo sabe do seu namoro.
Namoro seria uma palavra forte para a situação que Chaghan e ele tem, mas Altan não tem energia o suficiente para sequer começar a explicar para Jiang tudo isso.
Ele dificilmente está com vontade de falar sobre noites mal dormidas, escapadas por entre missões, conversas difíceis em montanhas e planos espirituais conectados, Altan acha que não suportaria compartilhar isso com ninguém, ele mal quer compartilhar com Chaghan — e ele estava lá em tudo isso.
Talvez Chaghan seja um dos motivos principais para ele estar tão consternado em sua volta para casa, talvez ele seja o motivo de Altan ter saído o mais rápido que podia do Javali depois da proposta de casamento — mas Altan não quer falar sobre isso.
— Não foi Chaghan. — ele nega com a cabeça e brinca com seu copo de chá — Foi um lorde do Javali que queria casar sua filha.
— Hum, herdeira única? — Jiang ergue as sobrancelhas e Altan sabe que ele não está levando aquilo a sério.
— Você é péssimo em dar conselhos. — o Trengsin solta em um rosnado e Jiang responde com uma gargalhada.
Ziya continua seu tricô enquanto cantarola para si mesmo, como o velho senil que é.
— Sabe, se há uma coisa que eu aprendi com todos esse Trengsin que eu conheci, é que vocês não dão a mínima para conselhos. — Ziya comenta, sem olhá-lo, concentrado em seu tricô — Vocês fazem o que querem, quando querem, nos seus próprios termos. Não adianta compartilhar minha sabedoria com ouvidos moucos.
Altan zomba enquanto serve mais chá para os dois, ele adoça tanto o chá de Jiang que talvez o homem sofra com uma queda de pressão, mas ele não se arrepende, ele é mesquinho assim mesmo, entretanto ele reflete calmamente suas próximas palavras, sabendo que Ziya dirá qualquer coisa útil se ele fizer as perguntas certas.
— Você se arrepende? — Altan finalmente decide o que quer e Ziya o observa atentamente — Sabe, de ter largado tudo e vindo para cá, ficando em casa e tudo mais.
Jiang franze a testa e desfaz um nó que tinha feito em sua peça, mas logo retorna ao trabalho.
— Eu vivi o que precisava, eu lutei, eu matei, eu fiz coisas das quais me arrependo e fiz coisas que me orgulho. — Jiang dá de ombros — Sinceramente, a melhor coisa que eu fiz foi ter amado Hanelai e ter tido uma filha com ela, então não, não me arrependo.
— Mas vocês demoraram anos para acertar as coisas. — Altan retruca teimosamente — Rin já estava fora de Sinegard quando você finalmente se estabeleceu aqui.
Ziya o olha, abaixando suas agulhas e dá de ombros, como se Altan fosse o louco da conversa, não o contrário.
— Eu era necessário em Nikan, Hanelai era necessário aqui, eu vinha sempre e sempre levava a Rin comigo. Fiquei em Nikan até que Rin precisasse da minha presença e, quando não precisou mais, eu voltei para casa. — Ziya responde como se Altan fosse idiota, como se tudo aquilo fosse óbvio.
Altan não deixa escapar que ele diz voltar para casa, como se Speer sempre tivesse sido seu lar, como se ele também tivesse nascido daquela mesma areia e árvores verdes, como se ele servisse a mesma deusa que eles. O Trengsin não entende direito, sua cabeça girando em respostas e possibilidades.
— Então não, não me arrependo de vir para casa e viver uma vida pacífica com a mulher que eu amo. — Ziya dá de ombros novamente e se recosta em sua cadeira — Se você quer algo, deve tomá-lo para si, Altan, independente de quando ou onde, o importante é seguir seu coração.
O Trengsin faz cara feia e se recosta, aquela filosofia está longe do que sua família prega verdadeiramente. Eles são speerlieses, eles servem a sua ilha e a sua casa, eles são honrados e fortes, eles fazem o que é necessário para a comunidade e para o bem maior, Altan não entende de seguir seu coração. Ele conhece a raiva e o ódio, o fogo que consome e destrói, ele também conhece o amor, obviamente, mas não entende como alguém pode sacrificar tudo por ele.
Antes que possa dizer qualquer coisa a seu tio, novas vozes irrompem da porta e ele sente que enterrar o assunto é melhor do que ter uma discussão familiar acalorada sobre amor, casamento e vida — porque sua família é assim mesmo.
Ele observa o sorriso brilhante de sua mãe e se levanta para abraçá-la, como sabe que ela sempre exige, independente de sua idade. Hana o segura perto em um aperto sufocando e lhe dá um beijo áspero na cabeça, sorrindo enquanto o observa de perto depois que se separam, sua mãe não precisa dizer nada para expressar o quão feliz e aliviada ela está por ele ter retornado inteiro.
— Você emagreceu. — ela segura suas bochechas e aperta, Altan não espera nada menos dela.
— É de se admirar que a Província do Javali não tenha lhe dado um banquete a cada noite que passou lá. — Hanelai é a próxima a cumprimentá-lo, ela lhe dá um beijo na bochecha e um aperto no ombro e isso é tudo.
— Ou Altan é só muito seletivo mesmo. — Hana concorda enquanto mexe nas panelas de Ziya.
Em outros dias Jiang teria ralhado com a cunhada por mexer em suas panelas — acredite, é uma cena comum entre eles —, mas ele parece distraído enquanto sorri para o neto que correu até ele assim que entrou na cozinha.
Altan acena respeitosamente para Yin Nezha — deuses, ele ainda não acredita que Yin Nezha é seu cunhado — que entra atrás das duas mulheres Trengsin. Yin Nezha não está nem perto de ser o príncipe da Província do Dragão agora, vestindo roupas simples de Speer e um pouco corado pelo sol, mas ele ainda transmite a mesma aura de realeza que qualquer Yin tem, cabelo impecável, postura ereta, olhos analíticos.
O Trengsin não vai mentir, ele se recusou a reconhecer o Yin até que Rin e ele estivessem noivos depois do último ano de Sinegard, mas mesmo assim ainda manteve distância dele depois que percebeu que sua prima não mudaria de ideia — apesar de todos os seus protestos sobre caras melhores para um casamento. Mas hoje em dia Altan precisa dar o braço a torcer e reconhecer que Nezha não é um cara terrível, não como seu irmão mais velho, seu pai ou mesmo Yin Riga, mas ele não dirá isso a ninguém.
Nezha e Rin casaram alguns anos depois de sua formatura em Sinegard, ambos tinham cargos na milícia e moraram em Nikan até depois do casamento, mas assim que descobriram estar esperando o primeiro filho, largaram tudo e foram para Speer. Foi uma série de surpresas para Altan — ele ainda não consegue conceber a imagem de sua prima, Mai'rinnen Trengsin, que ele viu dar os primeiros passos e falar as primeiras palavras, estar grávida —, mas o que mais surpreendeu ele foi que Nezha largou seu cargo de General da sétima divisão e decidiu que ser pai seria sua única tarefa dali em diante.
Agora, Yin Nezha, o filho da realeza Dragão, cuidava de seu filho de cinco anos em tempo integral e trabalhava nas docas de Speer consertando barcos. Altan ainda se pergunta se está vivendo em uma realidade paralela.
Antes que possa se aprofundar mais nisso, um peso se choca contra suas pernas e ri estridentemente.
— Tio Altan! — Mingzha ri saltando em seus pés — Você finalmente voltou!
Altan não consegue se controlar e sorri. É inegável que Mingzha é filho de um Yin, com seus traços elegantes e cabelos ébano, mas aquele tom de pele escuro e olhos castanhos são tão Trengsin que ele não consegue resistir e agarra o menino em seus braços.
Ele aperta Mingzha e sorri quando o garotinho solta risadas altas ao sentir cócegas.
— E você achou que eu não voltaria para o meu sobrinho favorito? — Altan pergunta erguendo uma sobrancelha e Mingzha ri de uma maneira que ele viu Rin fazer na infância inúmeras vezes.
— Eu sou seu único sobrinho, tio Altan! — Mingzha retruca como se estivesse exasperado, Altan ri.
— É mesmo? — o Trengsin questiona como se estivesse confuso — Eu podia jurar que tinha mais uma dúzia de sobrinhos por aí…
— Ah, mas eu sou seu único sobrinho! — Mingzha franze as sobrancelhas, confuso pelas palavras de Altan e o homem se esforça para não rir.
— Tem razão, devo estar confuso. — Altan dá de ombros — Nenhum sobrinho seria tão legal quanto você.
Então Mingzha se ilumina, mas Altan perde as graças do garotinho assim que ele avista as bananas fritas no balcão e logo ele se desvencilha, indo sorrir para Hanelai, que conversa com Hana na cozinha, sabendo que sua avó lhe dará tudo o que ele quiser.
O Trengsin se volta para seu antigo lugar à mesa e encontra Ziya ainda tricotando com Nezha sentado perto dele, o Yin se serviu com chá e conversa calmamente com o sogro.
— Mai'rinnen vai nos agraciar com a presença dela hoje? — Altan pergunta erguendo as sobrancelhas — E alguém sabe do meu pai?
— Seu pai virá depois, ele está resolvendo alguma coisa sobre o barco dele. — Hana comenta enquanto empilha pratos e os leva para a mesa, Mingzha está atrás dela, carregando talheres e mastigando o que Altan sabe serem bananas fritas.
Altan bufa enquanto nega com a cabeça, conte com seu pai para recebê-lo depois de uma longa missão e o perca porque ele é irremediavelmente apaixonado por seu barco.
— E Rin provavelmente vai atrasar porque está treinando um batalhão novo do outro lado da ilha. — Nezha comenta brevemente dando de ombros, como se não estivesse preocupado com sua esposa que está trabalhando em pleno sábado — Significa que ela está torturando cinquenta pessoas desde às quatro da manhã.
Todos dão risada e ajudam a montar a mesa.
Altan também acha isso curioso, Nezha não parece nem um pouco preparado que Rin tenha ganhado um cargo de General em Speer depois que o filho deles nasceu e agora comanda batalhões em treinos, ele parece divertido e feliz, em paz, como se tudo bem não ser mais General e viver apenas em função das necessidades de sua família.
Altan está reflexivo até a tarde daquele dia, depois que seu pai chegou com Rin como companhia e ambos se juntaram a reunião de família improvisada, agora todos estão sentados na mesa do quintal dos fundos, aproveitando os últimos raios de sol antes de estender mais ainda aquele encontro com uma fogueira que vão acender.
O Trengsin observa Nezha jogar bola com Mingzha, o homem exagerando suas reações para entreter seu filho pequeno, que se diverte a cada vez que ultrapassa seu pai.
Ele sente alguém se sentar ao seu lado e não se surpreende quando Rin o observa atentamente. Altan acha que nunca viu Rin tão feliz quanto naqueles anos em que está casada e tem um filho, sendo uma General em Speer e vivendo um dia de cada vez, ele se pergunta como ela consegue.
Mas Altan já desistiu de tentar entender Rin há muito tempo, ela não é como a maioria das pessoas, ela não quebra, ela não desiste, ela não se perde, ela é como o sol e o calor das chamas da Fênix, é simples assim. Ele não tem essa clareza, ele quebra, ele sufoca, ele se perde, Altan Trengsin é assim, mas ele aprendeu a disfarçar há muito tempo
— Você está péssimo. — é o que ela lhe diz, ninguém lhes dá atenção, entretidos em alguma discussão que Hanelai e Ziya estão tendo pela décima vez naquele dia — Tipo, você está sempre meio acabado, mas hoje parece pior.
— Obrigado. — Altan bufa, mas logo está aplaudindo quando Mingzha chuta a bola entre as pernas de Nezha e engana o homem — Porque você está ótima sempre.
— Eu sou ótima. — Rin assente orgulhosamente e sorri amplamente para seu filho que comemora as custas do pai, Altan sente que Nezha e ela estão criando um monstrinho, mas ele está contribuindo, então não pode dizer nada — Mas e aí? Você vai me contar o problema ou não?
Altan ama toda a sua família, eles são estranhos, disfuncionais e tem problemas de comunicação, mas ele os ama. Mas com Rin é diferente, ele a viu assim que nasceu e se lembra de jurar a Fênix e a qualquer deus que estivesse escutando que cuidaria dela, independente de tudo ou todos, sempre seriam os dois, então ele cresceu e treinou, e aprendeu coisas e repassou para ela, ele torceu o nariz para todos os garotos que se aproximaram dela e treinou com ela até que ambos fossem poças de suor, sangue e lágrimas. Quando eram crianças ele se lembra de chorar e espernear quando Rin precisava viajar com Jiang para Nikan, então eles decidiram que ele também poderia ir, ele se lembra de treinar com espadas de metal cegas com ela, se lembra de pescar com ela, se lembra de brigarem na areia até que um dos dois desmaiasse e o outro chorasse pedindo desculpas. Ele quer ser tudo para ela e ela é tudo para ele, Altan a admira e tem inveja dela, ele a ama e ainda se sente o mesmo garotinho que segurou sua mão e lhe ensinou as sílabas de seu nome.
Contar a Rin qualquer coisa é tornar real é saber que a opinião dela vai estar tão próxima de seu coração que ele vai estremecer e aceitar, independente de qual for, sua palavra será a final, ele sabe disso e sabe que ela sente o mesmo em relação a ele.
Então ele decide tirar uma página do livro de Jiang e começa a conversa com uma pergunta.
— Você gosta da vida que leva? — ele questiona brevemente e Rin franze a testa.
Ela leva um momento para responder e logo dá de ombros, em um reflexo tão óbvio de Jiang que Altan revira os olhos.
— Claro, é uma boa vida. — a mulher responde.
— Só isso? — Altan volta a questionar olhando-a como se esperasse mais — Não há nada que você sinta falta de tempos passados ou que queira fazer mas não possa porque está aqui?
Rin o olha como se estivesse divertida e ela se parece tanto com Ziya que Altan sente vontade de socar o nariz dela.
— Eu me casei com o meu primeiro e único namorado. — Rin dá risada, como se aquilo a divertisse profundamente — Eu fui e ainda sou do exército, fui da divisão mais importante de Nikan, então tive um filho, que não foi exatamente planejado, mas é a melhor coisa de todas.
Rin observa seu filho e marido agora brincarem de alguma outra coisa, seus olhos vermelhos brilhando para os dois, como se eles fossem o centro do mundo.
— Eu sou General e tenho um lindo marido me esperando todos os dias, Mingzha sempre tem um assunto novo e age como se eu fosse a guerreira mais forte de todos os tempos. — Rin sorri brevemente, com tanto carinho que Altan quase desvia os olhos — O que mais eu posso pedir?
Altan para por um segundo e reflete nas palavras da prima, ele pesa isso e pesa seus próprios pensamentos, respira fundo e se sente pronto para voltar a falar.
— Eu me lembro de você dizer que ia ser a rainha do mundo quando crescesse. — ele ri roucamente quando a prima revira os olhos — Ainda há alguma coisa assim em você?
— Eu sou Speerliesa, Altan, é claro que eu quero incendiar o mundo. — Rin revira mais ainda os olhos, como se ele fosse idiota — Mas eu não preciso deixar minha família para fazer qualquer coisa, eu os levo junto comigo.
— Mas e o Nezha? — Altan de repente se sente desesperado, porque Rin parece tão plena, tão bem, tão decidida, que faz parecer que foi fácil dizer sim ao casamento e a uma casa com filhos — Ele é feliz ou ele abriu mão da vida dele por isso?
Rin finalmente o olha com algo além de diversão e carinho, agora há uma centelha em seus olhos que faz Altan entender porque a chamam de General Fênix.
— Nezha odiava a política provincial, a família dele é horrível e a última coisa que ele queria era ter filhos em Arlong. — Rin responde amargamente — O sonho da vida dele era velejar ou viver de barcos, em Speer a gente consegue realizar tudo isso.
Altan ainda não entende, então desvia os olhos para o céu alaranjado da tarde, o calor esquentando sua pele e sua alma enquanto ele sente os dedos formigarem em busca do fogo. Rin parece perceber sua confusão.
— Nem todos querem viver pela espada, Altan. — a voz de Rin é anormalmente suave, um tom reservado a dias especiais e sussurros em dias difíceis — Alguns querem apenas ver o sol nascer todos os dias e cuidar daqueles que amam.
— A gente ainda faz isso lutando. — o Trengsin retruca e Rin dá de ombros novamente.
— Dá para fazer da maneira que você quiser, uma forma não apaga a outra. — Mai'rinnen comenta brevemente — Olha para a tia Hana e a minha mãe, as duas são tão diferentes, mas ainda sim tem vidas lindas.
Hanelai Trengsin. A General, a Speerliesa que queimou em duas Guerras da Papoula, que provavelmente queimará em outra se necessário, que ensinou cada descendente seu a empunhar espadas e a cuspir fogo, que demorou anos para se estabelecer com a pessoa que lhe promete amor em todas as vidas.
Hana Trengsin. A mulher doce e de sorriso fácil, que aprendeu a arte de Speer e que a carrega na alma pelos seus, mas que escolheu outras batalhas além da guerra, que Altan assistiu dançar em frente a fogueiras e cantou canções para ele todos os dias de sua vida, que não se importa em empunhar o fogo além da tradição e da adoração, casada com a amor da sua vida em uma longa cerimônia Speer sobre a qual ele escutou falar a vida toda.
Elas divergem em incontáveis pontos, mas ainda sim encontraram felicidade à sua maneira.
Altan acha que Rin e ele são assim.
Mas talvez Altan queira algo mais além de viver pela espada.
— Não quero largar tudo. — ele sussurra.
— Não largue. — Rin responde como se fosse simples — Pegue o que você quer e veja se vale a pena.
Altan acha ridículo que Rin seja tão confusa quanto Ziya, os dois foram criados juntos e mesmo assim ele luta para entender esse tipo de filosofia que escutaram a vida toda, mas para ela parece óbvio, até fácil, como se aquele tipo de confusão filosófica fosse comum, não uma coisa que Altan provavelmente vai passar os próximos seis meses destrinchando e tentando decifrar.
— Eu não sei o que eu quero. — o Trengsin trinca o maxilar cansadamente.
— Descubra, você é bem esperto, gēgē. — Rin pisca para ele e Altan sente que ela está lhe mandando uma indireta — Acho que se você trouxer Chaghan algum dia desses as coisas vão ficar mais claras para você.
Com isso ela se levanta e caminha até onde Mingzha está de costas, entretido em alguma explicação para o pai e o assusta com cócegas, que fazem o garotinho gritar em risadas. Altan observa Nezha abraçar sua esposa e filho depois que Rin pega Mingzha no colo, e o Trengsin meio que entende porque sua MeiMei parece tão em paz.
Altan nem consegue ficar aborrecido com as palavras de Rin, ele meio que sente que talvez ela possa ter razão, talvez ele precise de Chaghan para esclarecer as coisas.
Então, quando todos se distraem acendendo uma fogueira e cozinham bolinhos em água fervente, Altan escapa para seu quarto e começa a pensar no futuro.
•
Chaghan,
Espero que esteja bem depois do nosso encontro na Província do Javali, mesmo com sua saída abrupta as coisas correram bem, de qualquer maneira, fico feliz em termos nos encontrado.
Estou em Speer, passarei uma temporada aqui até minha próxima missão, não sei quando nem onde, também não tenho o desejo de saber, mas espero que você esteja comigo.
Pensando nisso imaginei se, em sua agenda, haveria um momento para uma viagem à ilha, talvez você possa conhecer a minha família e rever meu sobrinho, Mingzha, a Fênix sabe que ele gosta de você.
De qualquer maneira, envio o convite e anseio por sua presença.
Cordialmente, General Altan Trengsin de Speer.
