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Ninguém notou.
O cansaço que levava cada passo, as entidades do outro lado puxando sua mente como uma canção tentadora. As espirais, rondando, rodeando sua mente num ciclo que parecia não ter final.
Gastou seus últimos resquícios de sanidade diários, os últimos que tentou salvar para si, mas no contexto? Tudo era drenado, usado, descartado inutilmente em batalhas que apenas resultarão em sangue. E mais sangue.
Dalmo saiu até que curado, nos limites, e Alê? Derrotado.
Suas mãos tremiam e seus pés não queriam lhe obedecer, ainda sim, se perguntassem:
“Você conseguiria ir pro campo de batalha se necessário?”
Faria que sim.
Só que como uma manta querida, como alguém que lhe impede de se afogar. Sentiu um calor quieto, perto. Um toque suave em sua mão, uma pele levemente áspera.
Conhecia bem aquele toque.
No meio do planejamento, foi levado ao lado, um local mais calmo do circo, sem pressa. Alheio aos olhos dos outros, quase ninguém os notando – só Cindy, que claramente arranjou uma desculpa esfarrapada para lhes encobrir.
A coisa é, às vezes, o peso de ser um ocultista, de não poder morrer, de estar sempre aqui, fazendo tudo por todos – menos por si mesmo – pesava mais do que queria admitir. Momentos em que não conseguia se reerguer sozinho, por mais que tenha feito isso boa parte de sua vida. Às vezes, o abismo era maior do que conseguia engolir, e às vezes, as correntes de suas escolhas lhe puxavam pro mais óbvio final.
Passos nervosos, inquietos, evitando contato visual com o outro. Suas mãos tremiam, e brincavam com o colar, o pequeno cristal vermelho que o acompanhava para vários lugares. Os barulhos da quieta noite se tornam insuportáveis, a sensação da pele, as roupas, os dias sem um banho bem dado, o cabelo e a textura, como roçam na pele, até os cílios, o jeito que sentia seus pelos, sua pele, seus ossos.
- Alê? Você tá bem? – Eloy cortou, parecendo perguntar pela trigésima vez, não que a loira tivesse prestado atenção suficiente.
Elu se fechou um pouco, contraído, fechando os olhos com força.
Oh.
Talvez tenha sido muito barulho.
O duro é, Eloy não sabe como falar sutil, baixo… mas tenta.
Por Alê? Ele sempre tenta.
- Alê. – Murmurou baixo, se aproximou um pouco. O suficiente pra elu ouvir melhor, e para o moreno não lhe incomodar com a proximidade.
Mas mesmo assim, o loiro mexeu a cabeça pros lados repetidamente, em um não. E pôs as mãos na cabeça, pressionando.
- Porra, porra. Que merda, foi mal eu... Porra, eu sou horrível nessas coisas. Quer que eu chame a Cindy?
Alê fez que não novamente, e abriu os olhos para o encarar. Havia algo ali que gritava ‘Só fica aqui’. Talvez seja a luminosidade do luar que refletia com calma nos bonitos olhos azuis, ou talvez, o próprio Eloy, hipnotizado como sempre.
Ele suspirou frustrado, e passou as mãos pelos cabelos castanhos, mentalmente se xingando. Era estúpido, muito estúpido, Alê sempre sabia como lidar consigo, e agora quando o loiro precisava? Eloy é uma mula.
- Puta merda, o que eu faço Alê? Porra eu... porra. – Mordeu o lábio, e cruzou os braços, pensativo. – … Posso te abraçar?
Era a última e desesperada tentativa de fazer algo, tinha que fazer algo, qualquer coisa. Pra tirar o sofrimento daquela pessoa que tanto amava. E quando Alê fez um simples concordar com a cabeça, não pensou duas vezes.
Envolveu-a com os braços, forte, lembrando que o que quer que aconteça, estavam ali, juntos nessa. Quando sentiu os músculos tensos delu começarem a relaxar, o moreno pegou-o no colo, segurando sem problemas. Não que Alê seja leve, mas comparando o tamanho...
Os braços da loira cercaram lentamente o pescoço de Eloy, e elu permaneceu ali, encolhido e desleixade. Deixando que o corpo se moldasse ao do outro, fechando os olhos em deleite.
E de repente, nada mais importava.
Não a estúpida guerra com os couraças, ou as pessoas discutindo na sala principal. Não o estúpido hexatombe, os sacrifícios e toda a bobagem que vinha junto disso. Tudo que importava estava ali em seus braços, cansado, exausta, segura. Era tudo que precisava.
O peitoral firme descendo e subindo numa respiração quieta e constante, o desarma, em casa, finalmente.
As entidades não lhe preocupavam, sumindo de sua mente rapidamente, com o cheiro confortável, o calor, o familiar. O corpo – como se pudesse relaxar, como se recarregasse a energia perdida – parava de tremer. Tudo que conseguia ouvir, era a batida firme, forte, do coração do outro. Que lhe lembrava do porque estavam lutando, faziam as dores, as perdas, as dificuldades valerem a pena.
O cabelo não trazia um sentimento insuportável, não com Eloy passando os dedos levemente entre estes, quase que desembaraçando alguns pequenos nós. A roupa, o tecido, não tomavam sua atenção, tinha algo melhor, confortável para lhe guiar no meio de sua bagunça organizada.
Sentiu o moreno cheirar sua cabeça e piscou algumas vezes, levantando o olhar.
- O que? - Eloy murmurou, erguendo uma sobrancelha.
Alê sentiu os lábios subindo de leve, quase uma risada. E parou, apenas o encarando, enquanto o outro fingia que não estava entendendo.
- Que foi?
- Lobinho.
Eloy franziu o cenho, abriu a boca devagar e fechou. O olhar se suavizou, e um sorriso de lado foi feito.
- É? Agora tá melhor? Porra, você ficou me preocupando todo, pra rir da minha cara agora? Nossa, que ótimo amigo você é. – Revirou os olhos, e acabou por dar um beijinho na testa delu.
O loiro suspirou baixinho, e se inclinou ao toque, levou as mãos até os fios castanhos, e fez um carinho breve. Não respondeu nada dessa vez, não achou necessário, deixando a testa pousar contra a de Eloy.
O moreno a ajeitou no agarre, e se sentou com cuidado numa caixa próxima, ainda com elu em seu colo. Ficou observando - admirando - seu rostinho com curiosidade e preocupação.
- … Ow, tá bem mesmo? – Murmurou, num tom sóbrio.
Alê assentiu, e deixou os olhos entreabertos.
- Cansado.
- Descansa então. Não vou sair daqui com você cansada. – Foi ajeitando-a, deixando que ficasse sentada com as pernas jogadas pro lado em seu colo, a cabeça apoiada diretamente em seu peito. Acariciou os fios para fora de seu rosto e longe de seu pescoço, sabia como podia agoniá-lo às vezes.
- Guerra...?
- Hm? A guerra? – Eloy ponderou, e suspirou. – Já disse, não vou sair daqui com você assim. Você precisa se cuidar também, e se você não fizer isso, eu vou.
O tom decidido, fez com que o mundo ficasse aos poucos mais desfocado, queria se manter acordada, mas por fim, o conforto venceu. O cansaço lhe puxou. E facilmente podia dizer, que aquele sono, era o melhor que teve em dias.
E aconteça o que acontecer, enquanto esse cara estiver ao seu lado, tudo iria ficar bem.
