Chapter Text
"Mayday — código internacional de emergência usado para indicar risco real de morte. Pedido de ajuda."
🦈
Ranze Kurona percebeu que algo estava errado com Nanaue numa terça-feira.
Tecnicamente, o tubarão não se chamava Nanaue. No sistema do aquário, era apenas "Macho 01 - Sphyrna lewini - 1,8 m". Ainda assim, depois de passar mais tempo no trabalho observando o animal do que olhando para outro ser humano, o biólogo marinho se deu o direito de escolher um nome melhor.
Kurona conheceu o tubarão-martelo pouco mais de um ano atrás, quando esse foi transferido para o aquário onde ele trabalhava. Desde então, era o responsável pelo monitoramento de Nanaue, e acreditava saber mais sobre aquele tubarão do que sobre a própria vida. Não que fosse difícil, Nanaue era muito mais interessante do que ele, um peixe de quase dois metros com visão de 360 graus, capacidade de detectar campos elétricos, instintos incríveis e uma inteligência extraordinária. Em contrapartida, Ranze era... um jovem biólogo frustrado que não passava dos 1,70 de altura, corpo magro e sem graça, esquisitão com hiperfoco em tubarões e habilidades sociais inexistentes. A única coisa de que se orgulhava era o corte de cabelo rosa trançado na lateral (Kurona gostava de penteados). Não havia disputa possível: Nanaue ganhava sua atenção com facilidade.
Ele conhecia cada padrão de nado, dieta e manias do tubarão-martelo. Por isso, tinha certeza de que, dessa vez, algo diferente estava acontecendo.
Nanaue não estava bem.
As suspeitas começaram na sexta-feira anterior, um dia após a reforma dos equipamentos da ala de peixes cartilaginosos. Kurona ficava nervoso sempre que a equipe de montagem mexia nos filtros, no sistema de resfriamento ou em qualquer parte da estrutura. O pessoal do aquário já estava acostumado com a enxurrada de perguntas e pedidos de revisão sempre que alguém tocava nos sistemas e, por isso, já não o levava tão a sério. Naquele dia, ele se limitou a anotar, em silêncio, as anomalias no comportamento de Nanaue. Com o aquário cheio, o comportamento agitado do tubarão podia ser justificado, e o fluxo intenso de visitantes no sábado e no domingo também contribuiu para que Kurona não relatasse o que vinha observando.
Na segunda-feira, porém, a inquietação persistiu mesmo quase sem turistas. Na terça, quando o padrão anormal se repetiu, o biólogo decidiu que faria um relatório e o entregaria aos supervisores durante a reunião de alinhamento marcada para mais tarde.
Pela manhã, sentou-se em um banquinho diante do vidro e anotou tudo o que podia. Estava tão concentrado no companheiro do outro lado do vidro que quase não percebeu os passos se aproximando. Só se ajeitou no banco e ergueu os olhos quando a presença já estava ao lado dele, dificultando sua linha de visão para com o tubarão.
— Você não desceu no horário do café — disse Alexis Ness, com o habitual tom de voz doce e suave, marcado por um leve descontentamento que tentava esconder.
— Tô ocupado, ocupado.
— Você está pensando demais.
Ness era um dos poucos amigos que Kurona tinha no trabalho. Não que ele tivesse conquistado isso sozinho, foi Ness quem se aproximou primeiro e insistiu até que criassem alguma intimidade. Ele era um jovem rapaz alto e bonito, dono de cachos castanhos com mechas magenta, boa postura e um rosto angelical. Formado em alguma área que Ranze não se preocupou em memorizar, o colega revezava turnos com ele nos horários da tarde, e auxiliava a equipe de suporte no período oposto.
— Sabe disso, certo?
— Desculpe, o quê? — Kurona voltou dos próprios pensamentos tarde demais, percebendo que Ness ainda estava falando sobre algo.
— Café, Kurona — recomeçou o outro, estendendo um embrulho de papel-alumínio em sua direção, ainda sorrindo. — Eu te preparei um sanduíche porque sabia que você ia pular o café da manhã. Vai dar uma pausa meu bem, você nem ao menos foi ao banheiro!
— Nanaue não está bem. Preciso cuidar dele.
— Você precisa cuidar de si mesmo primeiro — insistiu o amigo.
Sem muita alternativa, Ranze aceitou o lanche, pegando o pequeno embrulho e deixando a prancheta de lado por um momento. Ele não estava com fome, não conseguia sequer pensar em comida num momento como aquele, mas apreciava a atitude gentil da única pessoa que o tratava como gente naquele lugar, então não iria reclamar.
— Pode ir. Eu te dou cobertura e fico de olho no seu martelo enquanto você come — avisou o cacheado, dando dois tapinhas nos ombros do menor para incentivá-lo a dar uma pausa.
— Tá, tá.
— De nada, Kurona...
— Desculpe, desculpe. Obrigado pelo lanche.
O biólogo se levantou e lançou um último olhar ao tubarão. Nanaue ainda nadava de um jeito torto, inquieto, como se algo invisível o incomodasse.
— Nanaue — murmurou.
— O quê? — Ness deu um passo para o lado, dando um sorriso torto enquanto tentava compreender o que Kurona tinha dito.
— O nome dele é Nanaue.
— Ah, certo. Vou me lembrar.
🦈
A sala de reunião do aquário cheirava a café velho, papel úmido e ansiedade. O lugar era uma constante tortura para Kurona, que não gostava nem um pouco do clima tenso que sempre se formava na sala de reuniões, de todos aqueles técnicos sérios e bem vestidos, e os assuntos difíceis como corte de gastos e marketing para a próxima temporada. Tudo aquilo era sufocante, e a única parte que importava para si era falar da saúde de seus tubarões.
Ele esperou pacientemente até chegar sua vez de falar, muitos já revirando os olhos, adivinhando qual seria o assunto.
— O Macho 01 da espécie Sphyrna lewini começou a apresentar comportamento atípico nessa última semana, desde a nova troca de equipamentos.
Seu comentário logo arrancou alguns suspiros dos funcionários, o que o deixou ainda mais nervoso. Felizmente, Ness estava ao seu lado para lhe dar apoio, segurando sua mão com delicadeza por baixo da mesa. O gesto bondoso lhe deu um pouco mais de coragem.
— Claro, cadê a novidade?! — Provocou um dos líderes no final da mesa.
— Dessa vez é diferente.
— Não é diferente, Kuroninha. Os equipamentos foram trocados na quinta, os bichinhos ainda estão se acostumando.
— Ele nunca agiu assim antes — insistiu, apontando para a prancheta onde havia anteriormente feito diversas anotações sobre o que observou. — Esse macho faz o mesmo trajeto todas as manhãs: um arco amplo pela parte funda, sobe até perto do acrílico, passa raspando o reflexo do vidro durante a tarde e depois desce até o fundo de novo. Nos últimos dias, ele está apenas nadando em círculos sem parar e evitando o quadrante esquerdo inferior de um jeito estranho, apresentou duas colisões leves contra a barreira lateral e recusou alimentação três vezes seguidas. Não é um comportamento esperado.
— Alexis, você viu isso também? — Perguntou o diretor, estreitando os olhos numa análise silenciosa.
O cacheado congelou em seu lugar por um instante, pego de surpresa, sem esperar ser chamado na conversa tão cedo. Contudo, ele logo se recompôs e deu suporte ao amigo, falando sobre o que conseguiu captar da situação e reforçando o ponto de Kurona. Ambos sabiam que o diretor poderia ser convencido com o discurso certo.
— Eu notei ele mais agitado, sim. Não sei dizer o que pode ter desencadeado isso, mas... foi um final de semana cheio, tivemos uma reforma, várias coisas podem ter desencadeado esse comportamento. Acho que vale a pena investigar.
Em resposta à informação, a veterinária sentada à esquerda procurou pelo tubarão-martelo no sistema de seu notebook, rodou os exames e fez uma breve análise para a equipe.
— Os parâmetros sanguíneos de ontem estão dentro do aceitável. Sem parasita evidente. Amônia, nitrito e nitrato normais no tanque. Oxigênio ok. Não temos um sinal laboratorial.
Kurona prendeu a respiração por um segundo. Ele sabia disso. Tinha checado tudo duas vezes antes da reunião.
— Eu entendo — respondeu cautelosamente, baixando os olhos para não transparecer sua insegurança. — Só estou dizendo que tem alguma coisa errada. E começou depois da reforma dos equipamentos. O timing bate, bate.
O ambiente ficou em completo silêncio enquanto o diretor pensava. Ele trocou um olhar rápido com a veterinária, depois para seus demais técnicos. Então, finalmente pousou sua atenção no biólogo, parecendo tomar uma decisão.
— Você acha que é o que? — Perguntou. — Equipamento defeituoso?
Kurona odiava essa parte. Ele não era engenheiro, não sabia o nomear o real problema, apenas identificar os sintomas dos animais que monitorava. Com todos os olhares da sala sobre si, a garganta já secando e o pé batendo levemente no chão, Ranze segurou mais firmemente a mão de Ness para continuar seu raciocínio.
— Eu não sei, mas é a minha melhor hipótese — admitiu. — Alguma coisa mudou no Nanaue- desculpa... no Macho 01 dos martelos. A forma como ele se desloca, o foco que ele tem em evitar uma área específica do tanque... pode ser um ruído, vibração, ou até campo eletromagnético, a espécie é sensível a alguns desses sinais. Eu gostaria de solicitar uma checagem.
Não havia mais nada a dizer. Ele argumentou tudo o que tinha em mente, e só lhe restou esperar o veredito. Ergueu novamente o olhar, dessa vez em direção ao próprio diretor, e tentou depositar ali sua honestidade. Em resposta, o homem fez uma expressão de quem entendeu o ponto, mas também lembrava do orçamento.
No final, a questão sempre era sobre o orçamento...
— Tá bom. Por segurança, vou solicitar uma vistoria no sistema do tanque. Uma empresa parceira. Eles conferem bombas, filtros, o que for preciso, e se tiver qualquer coisa irregular, a gente corrige. Tudo bem assim?
— Sim, senhor.
— Ótimo. E, Ranze... — o diretor completou, num tom um pouco mais leve. — Tente descansar. Você anda fazendo muita hora extra. Esses bichos precisam de você inteiro.
Kurona quase riu. Sabia que a preocupação do homem não era sobre sua saúde e bem estar.
E ele não iria embora tão cedo.
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Na manhã seguinte, o aquário iniciou seu funcionamento como em qualquer outro dia. Crianças na entrada, famílias na fila e cheiro de pipoca vindo da lanchonete. Mas, para Ranze, o clima era de tensão e ansiedade.
Ele chegou uma hora mais cedo do que o normal, nem se deu o trabalho de se arrumar devidamente, apenas acordou e correu até o trabalho. Uma onda de pensamentos atravessava sua mente sem parar: ele se perguntava se Nanaue estava bem, se havia piorado, se a equipe de manutenção era de confiança e se eles já tinham começado o serviço sem ele lá para orientar. Com tudo isso martelando em si, atravessou o corredor dos tanques com pressa em direção a sua ala.
Foi quando ouviu vozes vindas da área externa, indo na mesma direção do tanque do tubarão-martelo.
— ...Não acredito que me arrancaram da cama para olhar um filtro limpo — uma voz masculina resmungou, alta demais para o horário.
— Pelo menos paga bem — outra retrucou, mais neutra. — E é um aquário, Raichi. Podia ser uma estação de esgoto.
Um calafrio percorreu a espinha do biólogo. Kurona virou a esquina o mais rápido que pôde, a tempo de ver três caras com uniforme e pranchetas se aproximando junto da supervisora do aquário. Um deles vinha na frente com expressão fechada, um homem alto e loiro, de cabelo curto repicado, olhos dourados e semblante de quem iria arranjar briga se tivesse oportunidade. Atrás, um homem mais velho, sério e atento, prendia suas tranças num rabo de cavalo improvisado e conversava com a supervisora. O terceiro deles, mais distraído, passava atrás olhando os aquários vizinhos com curiosidade enquanto ajustava os óculos no rosto.
Quando se encontraram no meio do corredor, frente a frente, os três encararam Ranze como se ele fosse uma espécie de anomalia.
Bom, de fato talvez fosse.
— Bom dia senhor Kurona. Este é Jingo Raichi, o engenheiro mecânico responsável pela equipe de manutenção — explicou a supervisora, sem muito ânimo. — E esses são os técnicos, Agi e Zantetsu. Eles vieram verificar o sistema do tanque do tubarão-martelo, como o senhor pediu.
Nenhum deles sorriu para o biólogo. Ao invés disso, Kurona recebeu olhares afiados dos três, como se estivesse sendo lido ali mesmo. O rapaz também não se ajudava, sabia que seu cabelo devia estar uma bagunça, o rosto corado por ter corrido até ali, as roupas amarrotadas e a postura totalmente desengonçada: ele também se julgaria se estivesse no lugar dos profissionais.
Depois de um tempo constrangedor de silêncio, Ranze percebeu que estavam esperando que ele os cumprimentasse primeiro. Assim, logo mudou de postura, erguendo uma mão em direção ao líder da equipe.
— Bom dia, bom dia! Sejam bem vindos...
— Então você é o cara do "tubarão triste" — disparou o loiro sem filtro algum, apertando a mão do biólogo com firmeza desnecessária.
Kurona demorou um tempo para reagir. Muita gente, muita informação, pouco preparo. Ele se afastou um pouco e esfregou suas mãos para aliviar a sensação de toque. Em seguida, forçou um olhar direto, tentando soar sério e profissional.
— O tubarão não está triste — corrigiu. — Está estressado e alterado.
Raichi deu de ombros. Ele não podia se importar menos.
— Tá. E você acha que é culpa do maquinário novo?
— Eu acho que começou depois da reforma dos equipamentos, sim. E que ignorar isso é pedir pra perder um animal saudável.
Algo fervilhou nos olhos do engenheiro. Algum tipo de emoção que Kurona não conseguiu compreender. Então, Agi interveio com um meio sorriso, apaziguando a tensão que começava a se formar.
— Vamos fazer uma varredura completa, Sr. Kurona. Bombas, filtros, tubulações, gerador, o pacote. Se tiver qualquer coisa fora do normal, a gente encontra.
Zantetsu assentiu (embora talvez nem estivesse prestando atenção na conversa toda) e já foi se dirigindo em direção à porta de acesso técnico.
— Ai, caramba. Zantetsu, espera.
Em algum momento, a supervisora também se afastou, e Ranze foi forçado a ficar a sós com aquele engenheiro indelicado. O loiro sorriu simples, provocando.
— Se for só drama, a gente vai cobrar igual.
Ele definitivamente não parecia um cara fácil de lidar.
— O tubarão está evitando aquele canto ali desde ontem — apontou o menor. — Registrei os horários no relatório. Se for fazer algum teste desligando qualquer coisa, me avise antes. Eu preciso acompanhar o processo.
Raichi franziu a testa, avaliando se a presença do rapaz era realmente necessária ou apenas exagero.
— Beleza, esquisitão. Você fica de olho no peixe. Deixa as máquinas comigo.
E em seguida passou por ele, indo para o mesmo acesso que anteriormente seus técnicos entraram. Antes de fazer o mesmo, o maior se virou novamente para Kurona, erguendo uma sobrancelha.
— Você vem ou não?
E ainda que estivesse apreensivo, Kurona o seguiu.
