Chapter Text
Já fazia alguns dias que Zoey a encarava.
Duas semanas, para ser mais exata.
Bem, não que ela estivesse obcecada ou coisa do tipo, mas aquela garota era muito bonita, de uma forma impossível de ignorar.
Zoey havia chegado à escola nova ha pouco tempo, e até agora, ela tinha zero amigos, então sempre passava os intervalos comendo sozinha ou escutando alguma música aleatória.
Mas uma garota em específico se destacava. Ondas leves, rosas e longas eram uma de suas característica mais marcantes, além do porte alto e sua postura perfeita. Ela era inconfundível, não só pela graciosidade que andava.
E Zoey gostaria muito de falar com ela, de dizer como a admira e como ela sempre parece estar tão elegante e no controle da situação.
Mas ela não ia fazer isso.
Porque, dã? Ela sequer sabia o nome da garota, a única coisa que podia afirmar a seu respeito era que ela era do terceiro ano.
Como raios poderia chegar nela?
O toque do sinal invadiu o ambiente, obrigando todos os alunos e professores procurarem suas respectivas salas, que passariam lentamente durante quatro períodos, até finalmente o horário de almoço.
Ser uma novata em uma escola coreana era realmente... Intenso. Era tudo muito diferente.
Não que ela considerasse isso algo ruim, mas a sua adaptação não estava sendo uma das melhores, assim como seu sotaque.
Zoey falava devagar, exceto quando alguém dava algum espaço para ela falar o que gostava.
As palavras saiam atropeladas e carregadas de sotaque estrangeiro, o que na cabeça dela afastava mais as pessoas do que atraía.
Talvez fosse por isso que ela ainda não havia encontrado um amigo.
Mas tudo bem, certo? O ano ainda estava no começo, os grupos sendo formados e, ou seja, mais chances de encontrar alguém. Não é o fim do mundo estar sozinha por enquanto.
Até porque, ela sempre podia contar com duas coisas, seus fones de ouvido, que sempre a acompanhavam para onde quer que fosse, e o caderno, onde podia anotar, desenhar ou colar o que sentisse vontade.
Era uma espécie de diário pessoal, nada demais.
Ficar os intervalos seria entediantes se não passasse pelo menos vinte minutos encarando a tal menina que sequer sabia o nome.
Ela tinha algo. Havia algo que despertava sua curiosidade, como se ela fosse uma espécie de imã invisível que puxava e o olhar de Zoey fácil até demais.
Era algo estranho.
No fundo, elas não eram muito diferente. A garota vivia sentada com seus fones que atravessavam sua cabeça e geralmente com uma maçã ou outra fruta na mão. Quando o sinal soava, ela se levantava e ia para a sala. Todos os dias. Sozinha.
As pessoas não pareciam reparar nela. Era como se fosse um rosto perdido, ou simplesmente uma garota-invisível cujo o único papel naquela escola seja ser uma figurante.
Mas era diferente com Zoey, porque ela a notou no mesmo dia que entrou. Seus olhos a encontraram e desde então não conseguiu mais desviar.
Mas isso não importava agora. Ela precisava ir para a sala antes que alguma supervisora lhe desse uma passagem à diretoria, com uma advertência de cortesia.
Os fones altos somados a escola que era (muito) grande, memorizar todas as salas era realmente difícil, então não foi nada difícil ela simplesmente se perder lá dentro.
Ela olhava para o chão, lados e costas, recebendo alguns olhares confusos, como se estivesse errada. E só notou o desastre quando colidiu com algo.
Ou alguém.
Indo em diretamente ao chão. Ela não se machucou, mas talvez tivesse perdido o pouco senso de direção que lhe restava.
"Eu sinto muito." Zoey se apressou em se desculpar.
Dois livros e setes páginas (no mínimo) que se encontravam no chão.
Suas mãos se moveram para ajudar a recolher, mas um par de mãos ágeis e rápida pegou tudo antes que ela pudesse processar.
Bem, quase tudo.
Uma folha que caiu um pouco mais longe ficou para trás. Zoey recolheu e antes que pudesse pedir mais uma desculpa e perguntar se a garota estava bem, ela a viu sair correndo.
Ondas rosas balançavam de longe, enquanto ela continuava caída no chão, com o coração acelerado.
Alguns segundos foram necessários até se dar conta de que continuava atrasada e principalmente sem saber sua sala.
Era um dia difícil.
Levantou-se e correu para onde fosse possível. Chegou atrasada na sala e mais tarde provavelmente receberia alguma advertência, ocorrência ou qualquer coisa que pudesse prejudicar seu desempenho, mas não era isso que inundava seus pensamentos.
Ela só pensava que havia acabado de esbarrar na garota que admirava, e agora estava com algo dela.
Obviamente iria devolver, mas a preocupação do que a garota dos fones pensaria acabava com seu cérebro, embora ao mesmo tempo soubesse que não poderia continuar com a folha para sempre.
Não que tivesse alguma coisa realmente relevante no papel, ele podia facilmente ser considerado lixo com facilidade, apenas alguns rabiscos desconexos e coloridos habitavam ali, mas Zoey foi ensinada a não julgar.
O sinal soou pela sexta vez aquele dia, finalmente liberando os alunos das aulas chatas, a cantina inundando a escola com aroma delicioso
Sua barriga roncava, mas ela tinha um dever a fazer.
As mãos estavam se mexendo mais que o normal, ela já havia avisado a rosada, era só entregar a folha e tudo resolvido, né? Era simples, mas também era impossível ficar calma sabendo que a tal garota finalmente saberia de sua existência.
Ela parecia ser calma. Zoey nunca a viu gritando ou surtando com alguém, na verdade, ela nunca a viu interagir com alguém.
Mas por quê? Talvez tivesse alguma doença contagiosa, e por isso preferisse ficar sozinha, ou fosse aquele tipo de garota que começa a dizer coisas estranhas e sem sentido, que te dão medo a ponto de te fazer entender o porque ela não tem amigos.
Tirar conclusões precipitadas não ia adiantar nada, ela sabia muito bem disso. Zoey continuaria na curiosidade, e a menina, sozinha.
Não foi difícil acha-la no meio da multidão, seu cabelo rosa, mesmo em tom fechado, se destacava entre a bagunça — apenas o suficiente para encontrá-la caso você procurasse.
Zoey pegou sua bandeja. Não estava com muita fome mas resolveu comer mesmo assim. Ela se lembrou de pegar alguns doces a mais também, para caso ela ganhe uma nova amiga.
A folha continuava intacta em seu bolso, exceto por algumas dobras que marcavam o papel
"Vamos lá, Zoey. Não pode ser tão difícil fazer uma amiga." Murmurou em voz alta, algumas meninas que passaram perto a olharam como se fosse doida e riram. Zoey podia jurar que ouviu cochichos sobre ela.
Respirou uma ou duas vezes antes de seguir em frente, exatamente onde a garota se encontrava.
"Com licença..." Zoey estava em pé na frente da garota misteriosa.
"Quem é você?" A pergunta a atingiu de forma dura. "Veio aqui pra me provocar?"
"O que? Não! Porque eu...Enfim" ela balançou as mãos no ar, um sorrisinho brotava em seus lábios, tentando amenizar a tensão no ar.
"... Então, acho que você deve ter percebido que faltou uma folha, né? Ela tá comigo. Você saiu correndo tão rápido que provavelmente nem notou." Zoey colocou a bandeja na mesa e entregou a folha.
A garota nem reagiu, apenas continuou mastigando sua maçã e olhando para baixo. "Pode deixar ai. Obrigada."
Zoey piscou, confusa. Porque tamanha frieza? Será que tinha fez algo errado?
Ela respirou fundo, seguindo a orientação da mais velha.
"Bem, você vive sozinha, né?" Tentava puxar conversa "Não quer companhia?" Disse enquanto mostrava seu melhor sorriso.
"Não. E acho que devia ir embora."
Zoey pode sentir o coração acelerando e seu sorriso vacilando, mas se manteve firme. Apesar da resposta fria, ela balançou a cabeça, como se entendesse o recado.
"Eu só queria devolver a folha. Não é minha intenção incomodar" Seus braços estavam atrás do corpo e ela morde levemente os lábios, tentando disfarçar o constrangimento.
"Certo. Obrigada novamente." Agradeceu, dando mais uma mordida na maçã.
Zoey continuou a encarando, ficando alguns segundos na ponta do pé se inclinando para frente antes de continuar. "Eu posso me sentar aqui?"
A garota levantou uma sobrancelha e deu de ombros. Isso foi interpretado como um 'sim' e Zoey se sentou, puxando a bandeja para ficar centralizada a sua frente.
"Então... Você sempre almoça sozinha?"
"É, e eu gosto disso."
Zoey mordeu os lábios novamente.
"Se algum outro dia... Você quiser companhia ou sei lá... Você pode me chamar. Você não precisa ser sozinha sozinha."
A cabeça da mais velha finalmente se levantou, junto com seus olhos, antes de voltar para baixo novamente. "Talvez."
Isso definitivamente não ia ser fácil, mas Zoey não ia desistir.
A garota finalmente deixou sua maçã pela metade encima da mesa, deslizando uma mão a sua frente até que ela encontrasse o papel. Ela tateou a mesa uma vez antes que seus dedos tocassem o livro ao seu lado e colocou a folha lá dentro.
Zoey observou tudo com certa atenção enquanto comia o kimchi com arroz em sua bandeja.
"Você encontra tudo tão fácil mesmo sem olhar." Havia hesitação em sua voz.
"Você se surpreende fácil." A resposta veio com um tom de ironia.
"É que eu provavelmente deixaria algum objeto cair se tentasse movimentar eles sem prestar atenção." Ela esboçou um sorriso fraco. "Eu não sei como você consegue... é...?"
"Mira."
"Mira. Prazer Mira."
Ela deu de ombros antes de replicar. "Talento natural, eu acho."
"Ah..." Zoey riu de leve.
'Talvez ela prefira comer em silêncio.' Pensou, já que não tinha nenhuma resposta de Mira, enquanto abaixava a cabeça para comer, mas ainda prestando atenção.
"Você não disse seu nome."
A fala de Mira a pegou de surpresa. Agora foi a vez de Zoey levantar a cabeça.
"Ah, verdade." Sorriu, feliz com Mira ter se importado o suficiente para isso. "Zoey."
"Zoey... Você não era daqui, né? Nunca te notei na escola."
"Pois é, cheguei a pouco tempo aqui. A adaptação é difícil."
Mira termina a maçã e a deixa de lado. Sua mão percorre a mesa até tocar na própria garrafa d'água antes de segura-la e abrir.
O gesto não passou despercebido por Zoey.
'Ela pegou a garrafa mesmo sem olhar? De novo?"
"Você percebe as coisas de uma forma diferente, né?" Sua intenção não era debochar, mas se Mira entendesse isso de forma errada, estava ferrada.
No final das contas, ela não respondeu, apenas se ajeitou na cadeira e colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, o que foi o suficiente para fazer Zoey entender que estava certa.
"É intuição?" Ela se inclinou para frente.
"Tipo isso."
"Eu posso te fazer uma pergunta estranha?"
Mira remexeu na cadeira pela segunda vez.
"Depende do que você considera estranho."
"Como você..." Hesitou. "Como você sabe exatamente onde estão as coisas mesmo sem olhar direito?"
Mira colocou a mesma mecha atrás da orelha, mesmo que ela já estivesse presa.
"Eu presto atenção e confio nos meus sentidos paralelos. Não é difícil."
"Seus sentidos paralelos?" Zoey repetiu baixinho, tentando entender. "Ah, entendi."
Não era verdade. Ainda não fazia sentido em sua cabeça, mas achou que seria muito incoveniente perguntar.
O silêncio se instalou novamente.
"Então, Mira" Zoey começou. "Voltando ao assunto inicial, se algum dia você quiser companhia, pode me chamar."
O olhar de Mira levantou e se abaixou novamente antes de responder.
"Seus amigos não vão reclamar?"
"Não se preocupe com isso."
"Certo, então." A resposta veio com uma leve indiferença.
Zoey tamboritava os dedos na mesa. "Isso significa que temos alguma chance de almoçarmos juntas novamente?" Ela não queria pressionar ninguém, mas estava curiosa.
Mira pensou um pouco antes de responder. "Não sei. Se você não tiver ninguém melhor para ficar..."
Uma faísca se ascendeu no coração de Zoey. Um grande sorriu brotou em seus lábios, que tentou disfarçar mordendo discretamente.
"Parece que você percebe tudo antes de ver." Tentou mudar o foco da conversa para Mira novamente.
"Atenção. Eu já te disse isso."
"Atenção ou tem mais alguma coisa?"
"O que você quer dizer com isso?" Mira levantou uma sobrancelha levemente.
"Nada, eu só to chocada. A gente pode se ajudar, sabe? Eu posso ficar te fazendo companhia e você me ensina o que sabe." Zoey estava animada.
Mira balançou a cabeça, começando a recolher seu livro e colocando o celular no bolso, levantando-se e pegando o resto da maçã comida.
"Espera, onde você vai?" Zoey se levantou também.
"É que eu costumo comer e depois ir para perto das escadas do pátio. E como eu pensei que você tinha acabado, pensei que podia ir."
"Ah, claro..." Ela abaixou a cabeça. Mira não tinha gostado da companhia dela?
A rosada jogou o resto da maçã em um lixo próximo, e se voltou para Zoey.
"Você vem?"
Zoey se esforçou o máximo para devolver a bandeja o mais rápido possível sem derrubar ninguém antes de se juntar a Mira.
Ela se movia com uma facilidade absurda mesmo que o olhar continuasse baixo, desviando de todas as pessoas como se sentisse elas ali e soubesse que precisava se afastar.
Era incrível sua noção de espaço.
"Nossa, você realmente não precisa da sua visão para nada, né?" O tom era de piada, tentando quebrar o gelo.
"Meus outros sentidos dão conta do recado sozinhos."
Elas continuaram andando, em silêncio . Mira finalmente olhava para frente agora.
Ambas andavam muito perto do campinho, onde os garotos costumavam jogar futebol.
As risadas eram mais perceptíveis. O cheiro de grama recém cortada invadia suas narinas.
Uma bola rolou, entrando no caminho de Mira, que simplesmente desviou como se sentisse sua aproximação mesmo sem erguer a cabeça.
Um garoto chegou correndo e a pegou, antes de desaparecer no campo novamente.
Ela fingiu ignorar, pelo menos por enquanto.
Até finalmente chegarem perto das escadas. Era um lugar bom, mas muito isolado. Não passava quase ninguém nessa parte da escola, as pessoas podiam ver o lugar com facilidade se prestassem atenção. O que raramente acontecia.
Mira sentou no chão, com suas pernas dobradas em frente ao corpo, encostando as costas na parede.
Zoey fez o mesmo, mas na parede lateral com as pernas cruzadas. Ela podia ver Mira de frente e lado ao mesmo tempo, como se cada uma estivesse em uma extremidade de um 'L'.
"Mira."
Sua voz tremia um pouco.
"Aconteceu algo?"
"A bola."
"Tá, o que tem a bola?" Questionou como se Zoey fosse uma criança.
"Você não olhou. Só desviou. Como você fez isso?" Sua mão brincava com os próprios dedos.
"Já te falei, eu tenho atenção. E meus outros sentidos ajudam."
Espera.
'Outros sentidos? Então ela não...?'
"Você..." Mas as palavras não saiam. O medo de magoar ou acabar falando algo errado era forte demais. "Você não... enxerga, não é?" Disse finalmente juntando as peças. Havia algo triste em seu tom, que não passou despercebido.
"Pois é, Zoey." Diferente da morena, sua voz não parecia nem um pouco melancólica ou cuidadosa, como se fosse algo que não a afetava de nenhuma maneira.
Tudo fazia sentido agora. O por quê ela sempre usava mais as mãos do que os olhos, a atenção extra, os desvios.
"Então é por isso que..." A frase morreu no ar quando mordeu a própria boca. Um fio de medo se instalou ali. E se ela tivesse dito algo insensível ou que a deixasse desconfortável? "Eu realmente não sabia... Me desculpa se eu falei alguma coisa... Errada."
Mira apenas balançou a cabeça em concordância.
"Olha, se eu estiver incomodando, você pode dizer, ok?"
"Eu com certeza vou dizer." Pela primeira vez, um sorriso escapou de seus lábios.
Zoey estremeceu. A forma como ela falou a deu calafrios, mas se fosse pensar pelo lado bom, isso significava que até agora estava tudo bem.
"Mas isso não muda nada, eu acho." Foi sua vez de olhar para baixo. "Quer dizer, na verdade muda, porquê agora eu entendo o que você quis dizer, mas pra mim, você continua sendo você."
Mira riu de forma irônica. "E você por acaso sabe quem sou eu?"
Zoey mordeu os lábios de novo. Como ia explicar que ao mesmo tempo que sabia, não sabia quem Mira era?
Ela levou alguns segundos antes de responder.
"Você é alguém que eu gostaria de conhecer."
Mira inclinou a cabeça em sua direção. Seu olhar subindo exatamente para os olhos de Zoey.
"E porquê você gostaria de me conhecer?"
"Porque eu quero entender o por quê você chama minha atenção."
As bochechas de Mira ficaram levemente rosadas. Um calor confortável se espalhou pelo seu peito, uma sensação nova e diferente.
Sua cabeça se voltou para frente antes de ajeitar as próprias pernas na frente do corpo. "Talvez a gente possa tentar, então."
Um sorriso vitorioso brotou em seus lábios.
Pela primeira vez, o silêncio entre elas era confortável.
E mais uma vez, Zoey quebrou ele.
"Porque você gosta de ficar aqui?"
A pergunta de repente causou um leve estranhamento.
"É silencioso, na medida do possível. Ninguém liga pra esse canto e vem me perturbar por... Você sabe."
Um olhar de solidariedade recaiu sobre Mira.
"As pessoas costumam a te... Incomodar muito por você ser..." A pergunta morreu no ar antes de se corrigir "Por você não ser igual a eles?" Consertou.
"Eu sou igual a eles, mas de um modo diferente." Sua voz tinha um tom duro.
"Não foi isso que eu quis dizer. Você não precisa responder se não quiser." Zoey olhou para onde algumas poucas pessoas passavam, mas era tão longe que era praticamente impossível ouvir o que diziam.
"Eles me incomodavam mais quando eu era menor." Ela respondeu depois de alguns segundos em silêncio.
"Você estuda aqui há muito tempo?"
Mira balançou a cabeça. "Desde o primeiro ano."
"É por isso que você consegue se orientar bem aqui?" Ela tentava fazer a conversa continuar, mas estava genuinamente curiosa.
"Não só por isso, mas é, passar tanto tempo aqui ajuda."
"Eu acho isso incrível." Zoey encostou a cabeça na parede.
"O que?"
"Eu me perdi hoje."
"É porque você é nova, logo se acostuma com o ambiente."
"É, talvez... Eu não conseguiria fazer o mesmo que você."
"Pffff, não diga isso. Qual é sua sala?"
Zoey estava cada vez mais feliz por estar conseguindo respostas cada vez maiores de Mira.
"Segundo. Segundo ano B."
"Fácil, quarto andar a direita. Sétima sala."
"O problema é como chegar lá sem se atrasar."
"Você se acostuma um dia."
A morena riu baixinho.
O sinal tocou, alertando que o almoço havia acabado.
"Acho que essa foi a primeira vez que o almoço passou rápido." A rosada disse, e o coração de Zoey bateu um pouco mais alto que o normal.
"Isso significa que eu posso voltar amanhã?" Seu tom entregava o excesso de ânimo com a idéia.
"Bom, você não é chata igual eu pensei que seria." Um sorriso irônico brotou em seus lábios.
"Obrigada?"
"Eu geralmente não costumo a... Passar o intervalo com outras pessoas." Ela pegou o livro e o próprio celular antes de se levantar. "Mas... Se for você, eu acho que eu não me importo."
"Então, você tem certeza que eu posso me juntar a você amanhã?" Zoey também se levantou.
Mira já saia do 'esconderijo' quando a pergunta a atingiu.
"Se você quiser." Ela deu de ombros. "Até amanhã, Zoey."
"Até amanhã, Mira." Sussurrou antes de ficar sozinha e atrasada pela segunda vez no dia.
Mas a sensação de vitória a consumia. Ela não havia apenas superado seu medo, mas conversado com a tal garota também.
E era estranho e emocionante ao mesmo tempo, mas isso não ia a afetar agora.
Com muito custo, voltou a sala de aula, onde passaria mais longas horas do seu dia.
➳
No dia seguinte, Zoey chegou mais cedo na escola.
Não que precisasse entregar algo ou falar com algum professor.
Ela só queria tentar conversar com Mira.
Sempre que chegava na escola, a garota estava em seu 'esconderijo' de sempre, geralmente com fones na cabeça, mas algumas vezes ela tinha um livro na mão.
Assim como hoje.
A escola estava praticamente vazia, algumas garotas estavam sentadas conversando enquanto outras pareciam escrever na velocidade da luz.
Ainda era sete e meia, faltava meia hora para o início da aula, e pelo menos vinte minutos até que os outros alunos chegassem também.
A rosada estava no lugar de sempre, passando os dedos por algumas páginas totalmente brancas, mas com alguns relevos que provavelmente passariam despercebidos pela maioria das pessoas. Fones de ouvido atravessam sua cabeça.
Zoey se aproximou depois que encheu sua garrafinha e inclinou para tocar de leve o ombro da mais velha. "Então você gosta de ler?" Falou quando os fones foram abaixados, pousando em seu pescoço.
"Ler? Ah, não, eu não gosto de ler, eu prefiro queimar livros no meu tempo livre." Ela revirou os olhos.
A morena riu baixinho "Acho que nunca vou entender seu gosto então." Disse sem saber realmente se devia rir ou se desculpar.
Sentando-se exatamente no mesmo lugar do dia anterior, os olhos de Mira pousaram exatamente nos de si. Era a primeira vez que isso acontecia.
"Era sarcasmo."
Foi quase difícil responder. Mira ficava muito mais bonita quando seus olhos não estavam tão baixos.
"Eu sei." Sua cabeça balançava para cima e baixo, como se isso pudesse responder por ela. "Você não costuma seguir o que as pessoas consideram normal, né?"
"Normalidade é chato e coisa de quem não tem imaginação." Pausa. "Eu não sou assim."
"Eu nunca fui muito boa em ser normal também." Seus dedos estralavam.
"E você considera isso ruim?" O livro foi fechado, mas um dedo ainda marcava exatamente a página em que tinha parado.
"Você considera algo ruim?" A pergunta foi devolvida. Gritos de uma supervisora xingando alguns alunos puderam ser ouvidos mesmo a distância.
"Não. Eu penso que ser diferente é uma vantagem."
"Porque?"
"Não te torna previsível." — "Te torna único."
"Você não acha que talvez seja melhor ser previsível pra se encaixar melhor?" Pergunta mordendo o lábio
"Se forçar a ser alguém que não é não te faz 'se encaixar melhor', apenas mascara quem você é e apaga sua autenticidade. Ser diferente é um ponto ao seu favor, e ninguém devia deixar você pensar o contrário."
"Isso foi um elogio?" Disse tentando não deixar claro que estava sorrindo.
"É sobre isso mesmo que você quer falar?" Seus olhos se reviraram.
"Talvez agora seja. Não acho que seja fácil arrancar algum elogio seu." Os chaveiros da mochila tilintaram quando esbarrou o próprio braço por acidente.
"Não se acostuma então." Os olhos voltaram para baixo e os dedos voltaram a se movimentar pelo papel.
"Você tem ciência de que quanto mais você é misteriosa mais eu quero descobrir sobre você, né?" Ela se apoiou no braço direito, ficando mais próxima de Mira e balançando os próprios ombros para frente e para trás como forma da provocação. Um sorriso largo estava estampado em seu rosto.
"E o que você quer que eu faça sobre isso?"
"Não sei." Os ombros pararam de se mover. "Eu posso te fazer uma pergunta? Você não precisa responder se não quiser."
"Eu estou começando a ficar com medo de quando você me pergunta isso." Comentou enquanto passava a página do livro.
"Como é viver, pra você?"
A pergunta foi como uma baque, mesmo que não tenha soado ofensiva.
Algumas pessoas já haviam perguntado coisas parecidas para Mira, de uma forma muito mais generalizada e indelicada, claro. Mas agora, com Zoey querendo saber como era a sua visão de mundo, era diferente.
O livro foi fechado novamente, mas desta vez com um um marcador no lugar do dedo.
"Bom, geralmente eu respiro, durmo, acordo, tomo água, escovo os dentes e coisas assim, sabe? Mas ultimamente eu estou aturando várias perguntas filosóficas." Um sorriso de canto surgiu em seus lábios.
Zoey a encarou um pouco antes de responder. "Então, eu sou parte da rotina agora?"
"Para a minha infelicidade." Uma risadinha baixa escapou antes que Mira cobrisse com uma das mãos.
A morena acompanhou a risada. "Bem, acho que posso lidar com isso."
E o assunto acabou.
Não era essa a resposta que esperava. Mira sabia disso. Mas mesmo assim, se contentou com o que recebeu, sem pressionar ou tentar contornar a situação com outra pergunta.
"Sentir antes de ver."
"O que?" Questionou.
"Você me perguntou como é viver, pra mim, e eu estou te respondendo. Viver é sentir antes de ver. Se atentar aos detalhes que os outros podem se dar o luxo de ignorar."
"Eu nunca tinha parado pra pensar por esse lado. É intenso." O olhar caiu sobre o livro da rosada. "Mas você fala como se vivesse em um mundo diferente do meu."
"Talvez eu viva."
"Você se incomodaria que alguém tentasse ir para seu mundo?
"Depende da pessoa."
"Se fosse eu, como você se sentiria?"
"Eu não me preocuparia, é impossível chegar aqui mesmo." Um riso seco saía de sua garganta.
"Como você tem certeza? Alguém já tentou?" Ela parecia presa em suas próprias palavras agora.
"Não, e por isso é impossível."
"Você diz isso porque não conheceu ninguém disposta a tentar."
Zoey percebeu os olhos de Mira em si, e um arrepio percorreu seu corpo, era como se tivesse sendo vista de verdade. Ela copiou o movimento e pode observar a íris castanha da mais alta. Elas eram grandes, quase iguais a de um gato, e conseguia transmitir autoconfiança, o que a estremecia involuntariamente por dentro.
"Talvez."
"Seus olhos são lindos." Zoey comentou, não era sua intenção constranger a garota, mas foi exatamente o que aconteceu.
Ela respirou uma vez antes de responder. "Obrigada..." Disse, antes de abaixar a cabeça novamente.
Um silêncio pesado e breve tomou conta do ambiente.
"Quando eu chegar ao seu mundo..." Começou. "Você vai estar me esperando?"
"Depende se você vai ficar ou não."
"Então eu espero que você esteja me esperando quando chegar." Um sorriso gentil brotou nos lábios.
Elas continuaram sentadas. Zoey olhava para o nada, e com o passar do tempo, a escola ficava cada vez mais cheia e barulhenta.
Mira também não voltou a ler seu livro.
"Não sei se consigo entender o que você quer dizer com 'Sentir antes de ver'." Ela brincava com os próprios dedos no colo, as vezes os estralando.
"Imagino que seja difícil compreender algo fora da sua realidade." Um pequeno sorrisinho apareceu em seus lábios.
"E você nunca se frustou por isso?"
Mira precisou pensar antes de responder. "Você faz perguntas... diferentes, Zoey." A morena riu. "As vezes sim. Quando eu era criança principalmente, mas agora eu entendo que isso não vai adiantar nada. É minha forma de existir, e por isso geralmente eu prefiro ficar sozinha."
A morena se sentia mal, mas sabia que Mira não iria querer olhares de pena ou consolação.
"E você quer que eu fique?"
A rosada tombou um pouco a cabeça para o lado, como se pensasse exatamente o que responder.
"Eu não me importo de você ficar, desde que não atrapalhe."
Zoey assentiu, mesmo sabendo que Mira não perceberia. Um misto de alívio com uma pitada de felicidade invadia seu coração. Os ombros finalmente relaxaram um pouco.
"Você quer me contar algo sobre você?"
Mira abria seu livro e suas mãos voltaram a deslizar nas páginas.
A resposta demorou um pouco antes de vir. "O que você quer saber?"
"Qualquer coisa que você queira me contar."
A mais alta soltou um suspiro. "Você não desiste, né? Quer mesmo entrar no meu mundo?"
"Só se você permitir."
Mira pensou antes de verbalizar. "Não tem nada que eu queira te contar. Talvez você deva me contar algo sobre você."
Zoey gelou. Falar sobre os outros era fácil, mas quando o assunto chegava nela, a tarefa se complicava.
"Eu gosto de escrever." Sua voz saia baixa.
"Sobre o que?" O interesse foi plantado.
"Não tem algo fixo, mas geralmente são histórias. Eu gosto de contos de fadas, e quando escrevo, posso ser a autora da minha própria história pelo menos uma vez. É tudo tão... Fácil, e eu tenho a certeza que de tudo vai acabar bem." Ela fez uma pausa. "É mais fácil fantasiar com uma história que você pode controlar."
Mira brincava com a capa do livro. "Porque essa obsessão por controle, Zoey?"
O questionamento foi nu e cru, mas ao mesmo tempo, feito com ingenuidade.
"Não é obsessão por controle, é só que... Controlando a própria história, você sabe tudo o que vai acontecer, nada pra você é novo, nada te pega despreparada. Ninguém pode me machucar, pelo menos não ali." Ela brincava com os chaveiros.
"As vezes, ser pega de surpresa é bom."
"As vezes."
"E você prefere cortar todas essas surpresas porque algumas são negativas?"
As mãos de Zoey pararam.
"Não exatamente, eu só prefiro garantir minha segurança, mesmo que seja imaginaria." Suas mãos voltaram a se mexer.
"Sentir o inesperado é o que faz todos nós existirmos."
A morena virou a cabeça em sua direção, como se finalmente tivesse entendido.
"Talvez você esteja certa, mas minha história são os únicos lugares onde eu não sou uma figurante. Onde eu sou responsável pela minha felicidade."
"Você não pode deixar que os outros te façam pensar assim. Você é responsável pela sua felicidade, dentro ou fora da ficção."
"Você nunca se perde, né?" Um sorriso leve cobria seu rosto.
"Pelo contrário, eu vivo perdida, a questão aqui é como eu escolhi lidar com isso." O ar parecia mais denso agora. "Você não pode controlar o que a vida traz, mas pode controlar como reage."
"Você acha que algum dia, eu tenho chance de virar uma personagem na sua história?"
Mira deslizava os dedos pela capa do livro, contornando o relevo. "Talvez."
"E o que você escreveria sobre mim?"
Segundos em silêncio foram o suficiente para fazer a ansiedade de Zoey aumentar. "Eu ainda não sei."
Zoey balançou a cabeça e murmurou um "Tudo bem." Baixinho, mas ela não estava chateada.
Elas só perceberam que o tempo passou quando o sinal soou, sinalizando mais um início de aula.
Ambas foram para suas respectivas salas.
O coração de Zoey ainda batia um pouco mais alto quando entrou na sala. Talvez fosse a emoção ou talvez fosse a felicidade de finalmente ter conhecido alguém que a entendia.
Após sentar, seus pensamentos iam longe do real foco da aula, era difícil esquecer o que Mira falava sobre sua percepção de mundo.
Mira não estava muito diferente. O calor em seu peito não havia desaparecido nem após se distanciar da garota que a proporcionou a sensação. A curiosidade em excesso sobre a garota que foi corajosa o suficiente para cruzar seu caminho e escolher ficar, mesmo antes de conhecer.
Pela primeira vez, ela não se sentia tão sozinha.
Zoey olhava pela janela, desejando que o som do sinal se repita, para que ela possa conversar mais um pouquinho com aquela garota que conseguiu despertar algo diferente por dentro.
Enquanto o professor tagarelava, ela esboçava algumas palavras em seu caderno, algumas mais fortes que a outra. Cada palavra a lembrava de que aquilo poderia ser o começo de algo que sequer sabia ao certo o que seria.
A sala silenciosa em contraste com o exterior barulhento desconcentrava Mira mais fácil que o normal, o que causava preocupação e ao mesmo tempo curiosidade.
Curiosidade de saber o que se passava na cabeça de Zoey agora.
➳
Zoey entrou na escola mais cedo novamente, esperando encontrar Mira, assim como no dia anterior.
Ela não parou para encher a garrafinha desta vez, apenas foi direto no lugar onde a rosada costumava ficar.
E por incrível que pareça, Mira não estava lá.
Claro que achou estranho, aquele lugar tinha praticamente seu nome escrito com caneta permanente invisível, se ela não estava ali, onde estaria?
A resposta não era óbvia, e a única coisa que Zoey pode fazer é dar uma leve rodada pela área da escola que estava livre para os alunos, ou seja, todo o primeiro andar.
Era frustante procurar alguém e não ter resultado nenhum. Até onde sabia, Mira não era de ficar em lugares óbvios ou lotados, mas até em lugares que deduzia que ela poderia estar, não havia ninguém.
'Talvez ela só esteja atrasada.'
Mas não estava. E Zoey ficou sentada sozinha como nos outros dias das duas semanas anteriores esperando algum sinal do mais perto que havia chegado de uma amiga.
Faltava menos de cinco minutos para precisar entrar na sala, até que uma garota um pouco mais alta e com um sorriso carismático e estranho se aproximou.
"Oi." Ela parecia envergonhada.
"Oi." Respondeu.
"Você é amiga da Mira, né?" Seu sorriso se mantinha estranho, mas era perceptível o esforço que fazia para manter ele.
"Desculpa mas... Porque a pergunta?" Questinou tombando a cabeça levemente para o lado.
"É que... Bem, meu nome é Rumi, e aqueles são meus amigos." Ela apontou para um grupinho com mais cinco garotos. "E a gente queria saber como você consegue."
Zoey piscou, confusa.
"Consigo...?"
"É, como você consegue, você sabe, conversar com ela." Rumi falava um pouco mais baixo, como se temesse que alguém ouvisse.
"Eu não sei, eu só... Converso com ela?"
"Você é nova, né? Ninguém deve ter te contado ainda, mas eu posso estar aqui pra isso também." Ela se sentou. "Mira é tipo, a garota mais inteligente da escola. Desde que começou a estudar aqui, ela nunca deixou sua... Condição a impedir de ser a primeira da sala." A forma como dizia 'condição' causava um incomodo em Zoey.
"E além de ser super inteligente, também é a garota mais fechada da escola. Ela até recebeu alguns apelidos, como 'Ice Queen', porque ela é atraente e ao mesmo tempo fria, e 'Cerebro Frio', que eu acho que dispensa explicações do porque.
O ponto é que nunca ninguém conseguiu arrancar mais de duas ou três frases monossílabicas dela, e tá todo mundo comentando como você conseguiu isso. Alguém começou um boato dizendo que você chantageou ela com algum segredo, mas duvido que você seja esse tipo de gente. Vocês já se conheciam antes da escola?"
As palavras dispararam, quase rápidas demais para poder processar.
"Espera, o que?" A confusão borbulhava sua mente. Suas mãos foram diretamente aos chaveiros da mochila.
"Como conseguiu se aproximar?" O sorriso aos poucos virava empolgação.
"Bom... eu—"
"Você sabe se ela tem namorado?" Algo em seu sorriso havia mudado"Namorada, talvez?" Um leve mordidinhas nos lábios passou totalmente sua intenção.
"Eu acho que—"
"Acha que tenho chance de virar amiga dela?"
"Olha, talvez, se você—"
"E como você faz pra ela não te afastar?"
O sinal tocou.
Zoey pegou a mochila e saiu correndo, ainda sem saber exatamente onde era sua sala, mas com certeza agradeceria aos céus mais tarde por terem feito o sinal marcar presença nesse momento.
Nesse momento, ela não sentia mais a coragem que juntou para entregar a folha de Mira.
Horas depois, o sinal repetiu o som de sempre, mas sabia que naquele dia, ela ficaria igual ficou durante dezesseis anos de sua vida. Sozinha.
Mas não totalmente. Vários alunos a cercavam, fazendo as mesmas perguntas de Rumi, insinuando que ela sabia de algum segredo profundo e perguntando se ela tinha lançado algum feitiço para amizade.
As próximas aulas foram piores. Uma voz se perguntando constantemente em sua cabeça se Mira estava bem atrapalhava todo seu raciocínio, o que a fazia se perder nas próprias contas matemáticas ou no que acabara de ler.
Como era possível alguém que você conversou tão pouco fazer tanta falta?
Mesmo que estivesse pisando em ovos desde que começou a conversar com a rosada, era legal ouvir o que dizia, saber sua perspectiva de mundo e o que achava do mundo em que as rodeava. Era legal imaginar um mundo novo. O mundo dela.
Quando finalmente estava liberada da escola, a sensação estranha aumentou.
Elas não trocaram telefones. Zoey sequer sabia se ela tinha alguma rede social, e ninguém conversava com ela o suficiente para responder isso.
Também não sabia onde morava, ou seja: podia ser em qualquer lugar.
Estranho como alguém que mal conhecia podia deixar um vazio tão grande.
