Chapter Text
O dia de Hinata seguia totalmente bem. Sério, era apenas mais um dia de folga comum: ele correu pela manhã, fez seu almoço, limpou sua cozinha e estava, agora, vagando pelos canais de sua tv em busca de algo bom para preencher sua tarde.
Um dia normal.
A avalanche de catástrofes começou com o toque estridente do seu celular. Ele devia ter percebido que algo não estava certo quando o nome “Atsumu” brilhou no visor de seu aparelho. Nada de bom vinha desse cara.
— Alô?
— Shouyou. — A voz dele parecia brava, quase desesperada. — Você já viu alguma rede social sua hoje?
Hinata piscou, tentando se lembrar.
— Ahm… Acho que não. — Um desespero tomou conta de si enquanto ele se sentava ereto no sofá. — Porque? Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu muita coisa!
— O que, Atsumu? — Sua voz saiu mais fina e assustada do que ele imaginava. — V-Vazou alguma informação minha?
— O que? — A voz do loiro agora parecia carregada de humor. — Wow, calma lá Hinata! Não é nada disso.
Filho da puta. Shouyou encostou suas costas no sofá de novo.
— Então o que foi? — Ele respondeu, ríspido.
— Seu precioso deu as caras…
A frase sarcástica o atingiu como um trem a mais de 100 quilômetros por hora.
— Kageyama? — Hinata perguntou, endireitando sua postura de novo.
Um bufo saiu do outro lado da linha.
— Que outro precioso eu estaria falando?
Shouyou não tinha o que responder a isso. Droga.
— E ele postou o que? — Perguntou o ruivo, com a curiosidade crescendo em sua barriga.
— Ah, não vou estragar sua surpresa. — Atsumu respondeu, rindo. — Eu te mandei o link do vídeo. Quando assistir me ligue, de vídeo se possível. Quero ver a sua cara.
Hinata não respondeu nada, apenas xingou o companheiro de equipe e desligou a chamada.
O link azul brilhou na tela de seu chat com Miya, fazendo o estômago do ruivo tremer em antecipação. Ele foi direcionado para o Youtube.
“🎶 As Playlists Secretas dos Adlers! O que o time esconde por trás dos fones de ouvido? Uma parceria com o Spotify!”
Hinata franziu o cenho, deitando-se novamente no sofá com o celular em mãos.
Isso era ridículo. Kageyama provavelmente nem tinha playlist em seu celular. Ele parecia ser aquele tipo de cara sem graça que curte todas as músicas e só ouve elas no aleatório depois.
A contra gosto, ele deu play no vídeo.
Uma mulher loira e bonita começou a falar, explicando o que estava acontecendo. Pelo modo como conduzia a conversa, Hinata presumiu que ela fosse a jornalista da plataforma encarregada de entrevistar os patetas do vôlei. Boa sorte pra ela, pensou, não deve ser fácil a missão de tirar alguma emoção de um time de paredes.
Ele avançou alguns segundos, impaciente.
Hinata sabia muito bem o que levou o time rival a estar ali, fazendo uma grandiosa — e provavelmente bem cara — parceria com o Spotify. Alguns meses atrás, Hoshiumi postou um vídeo em suas redes sociais com ele e outros membros do time cantarolando casualmente um rock qualquer dos anos 2000 enquanto treinavam na academia. Hinata não deu a mínima para o vídeo, sendo honesto. O fato de que Kageyama não aparecia nele era um mero detalhe.
Mas sério, se Hoshiumi ia expor os treinos dos Adlers, ele ao menos deveria fazer o favor de incluir o moreno no meio, certo?
De qualquer forma, a internet foi à loucura com isso. Hoshiumi acabou respondendo um dos milhares de tweets com sua playlist do Spotify e, bom, a gestão de marketing do aplicativo foi esperta.
Shouyou focou seus pensamentos no vídeo novamente, mas não antes de fazer uma anotação mental de começar a expor seus treinos com mais frequência nas redes sociais, só por precaução. Parcerias caras eram muito bem vindas.
A tela do vídeo mudou, passando da entrevistadora loira para os jogadores. A boca de Hinata ficou amarga com a imagem de Kageyama em sua tela. Ele parecia… diferente.
Desde que voltou do Brasil, Shouyou não teve o prazer de esbarrar com o outro, mesmo que ele quisesse. Muito.
Com suas vidas caóticas — Kageyama seguindo seus treinos de atleta com os Adlers e Hinata negociando sua entrada para o MSBY — não foi surpresa para nenhum dos dois que os últimos quatro meses tivessem sido um caos total, impedindo que qualquer reencontro fosse executado com sucesso. Independente disso, um sentimento angustiante ainda tomava conta de Shouyou — no Brasil, era comumente chamado de saudade.
Voltando sua atenção para o vídeo, ele notou que Kageyama usava calça jeans e camiseta. Quando foi a última vez que Hinata o viu sem seus uniformes ou calças de moletom? Ele sequer chegou a ver Kageyama vestindo algo diferente disso em sua vida? Que merda.
Os jogadores estavam sentados em cadeiras simples, um ao lado do outro. Kageyama estava entre Hoshiumi — é claro que estava — e Ushijima. Shouyou não conseguia entender o que diabos Wakatoshi estava fazendo ali. Ele sequer escutava música? Parecia improvável.
Todos os jogadores presentes — que eram, ao todo, seis— se apresentaram com um “oi” uníssono, seguido da entrevistadora que voltou a falar de novo, mas Shouyou não estava prestando atenção. Seu foco estava cravado no homem de cabelos pretos que encarava todos os pontos possíveis, menos as câmeras. Hinata riu. Kageyama parecia nervoso.
— Vamos começar então! — A moça falou, chamando a atenção de Shouyou para o que estava acontecendo no vídeo além das microexpressões de Kageyama Tobio. — Quantas playlists vocês têm no Spotify e qual vocês escutam com mais frequência?
Uma sequência de suspiros ecoou, enquanto os jogadores buscavam seus celulares para consultar suas possíveis respostas. Foi Hirugami, o capitão do time, quem respondeu primeiro.
— Bom, eu tenho 10 playlists curtidas e 2 autorais. — Ele respondeu, sorrindo fraco. — E a que eu escuto com mais frequência é a minha playlist de treino.
Um som de buzina soou da boca de Hoshiumi. Hinata franziu o cenho. Esse cara era uma ameaça para a sociedade.
— Que chato! — Comentou Kourai. Shouyou jamais iria admitir, mas ele concordava que a resposta tinha sido realmente bem chata. — Eu tenho 25 playlists autorais, e a minha mais ouvida é a… “Rock pauleira pra treinar pesado”.
Um suspiro divertido saiu dos lábios de Hinata. Uma verdadeira ameaça para sociedade.
Kageyama levantou as mãos para o rosto, provavelmente escondendo sua risada. De repente, a fala de Hoshiumi perdeu totalmente a graça para Shouyou.
— Você tá rindo, é? — Kourai se virou para o moreno, num tom agressivo. — Aposto que você nem tem playlist feita no Spotify. Só curte todas as músicas e depois escuta elas no aleatório.
Kageyama abriu a boca para responder, mas foi interrompido.
— Ei, o que tem de errado nisso? — Perguntou Ushijima. — Eu praticamente só escuto minhas músicas curtidas.
Uma sequência de risadas explodiu pelos jogadores, mas Hinata apenas estalou a língua dentro de sua boca. Desde quando Kageyama e Hoshiumi tinham tanta intimidade assim?
— Na verdade… — Kageyama continuou. — Eu tenho 10 playlists autorais, Hoshiumi. — Sua voz estava carregada de acidez. Hinata estremeceu.
— O que!? – Hoshiumi gritou. — Impossível. Deixa eu ver isso.
A mão de Kourai voou para o celular de Kageyama e, por mais que o moreno tenha percebido a movimentação, ele não foi rápido o suficiente.
— Devolve isso agora! — A voz irada de Kageyama soou, mas já era tarde demais. Hoshiumi estava correndo pelo set de filmagem, sumindo e aparecendo no enquadramento da câmera enquanto tentava fugir de Kageyama.
— Há! Se liga, nisso! “Relaxar a noite”! Que nomes são esses, Kageyama? — A voz de Hoshiumi soava abafada devido a sua distância do microfone.
— Seu mer–! — Um bip cortou a voz de Kageyama. — Devolve essa po–! — Outro bip.
— “Indicações da Miwa”. — Hoshiumi continuou, ainda correndo através do set para fugir dos braços de Kageyama. — Ahh, o que nós temos aqui, hm? “Treino não é karaoke, Hinata.”
Depois disso, Kageyama finalmente pegou o celular da mão dele e lhe deu um certeiro golpe nas costelas. Hoshiumi caiu no chão, ofegando e gemendo de dor, mas ninguém pareceu ligar.
Shouyou piscou, atônito. Sua mão começou a tremer e ele podia sentir sua vista embaçando. Ele ouviu certo? Não é possível.
Kageyama voltou para sua cadeira, tão vermelho quanto um tomate. O restante de seu time o encarava com expressões de dúvida e divertimento, provavelmente esperando uma explicação.
— P-Primeiramente. — A voz dele soou quebradiça. — Essa playlist tem mais de sete anos, ok? É da época que eu estudava com ele…
O estômago de Hinata girou 180° graus. Pelo amor de deus, ele havia escutado certo.
— Hmm, que legal Kageyama! — A entrevistadora imediatamente interrompeu, provavelmente tentando controlar a situação. Os olhos delas estavam arregalados. — Esse Hinata que você diz é o novo oposto dos Black Jackals?
Kageyama respirou fundo, concordando com a cabeça.
— Nós fizemos o ensino médio juntos, e ele cantava demais nos treinos. Algumas músicas grudavam na minha cabeça pior que chiclete, então eu fiz essa playlist na época. — Ele coçou o pescoço, constrangido. — N-Nem me lembrava que ela ainda existia. Faz anos que não escuto.
A entrevistadora deu um sorriso acalorado para ele.
— E você acha que Hinata canta bem? — Ela perguntou.
Kageyama encarou a câmera e sorriu. Era o mesmo sorriso assustador que ele dirigia a Hinata na época da escola. A boca de Shouyou ficou seca.
— Como cantor, ele é um excelente jogador de vôlei.
Uma sequência de risadas ecoou do fundo. Hinata pausou o vídeo.
Ele levou suas mãos até a boca e respirou fundo.
Eu vou vomitar, pensou. Kageyama fez uma playlist com as músicas que eu cantava no treino. — E também acabou de falar para milhares de pessoas que Shouyou cantava mal, mas isso era um detalhe que ele cuidaria depois.
Num surto de energia cruzando seu corpo, Hinata afundou sua cabeça em uma das almofadas e soltou um grito.
Essa foi a melhor notícia da sua semana.
Voltando sua atenção para o celular, Shouyou soltou o vídeo novamente.
— E qual é a sua playlist mais ouvida? — Perguntou Hoshiumi, agora sentado ao lado de Kageyama mas ligeiramente inclinado na direção oposta ao moreno.
— “Para aquecer”. — Ele respondeu. — É minha playlist de rock pra… Bom, pra aquecer…
Ele pareceu constrangido mas, para seu alívio, Romero logo tomou frente, livrando Kageyama do foco vergonhoso da entrevista. O ponteiro brasileiro do time começou a contar algo sobre suas playlists para lavar o carro, mas Shouyou não dava a mínima. Seus olhos estavam cravados no homem moreno de olhos azuis que acabou de assumir que tinha uma playlist sobre ele. O sorriso de seu rosto ainda não tinha sumido.
— Bom, vamos para a próxima pergunta. — A voz da entrevistadora loira tirou Shouyou de seus devaneios sobre Kageyama. — Algum de vocês sabe tocar algum instrumento?
Kobayashi, o central do time que Shouyou sempre esquecia o nome, tomou frente na resposta dessa:
— Eu sei tocar bateria! — Ele fez um sinal de rock com as mãos. Hinata suspirou, concordando. O moicano loiro dele definitivamente deixava esse tipo de coisa bem clara.
— Eu sei tocar violão. — Falou Romero. — Não sou muito bom nem nada do tipo, mas é um instrumento comum no Brasil e eu aprendi quando era criança.
Os outros jogadores soltaram sons de surpresa. Kageyama parecia muito chocado, inclusive.
— Minha mãe tentou me colocar em aulas de flauta quando eu estava no fundamental I. — Falou Hoshiumi. — Mas eu desisti em menos de 2 semanas.
— Quem poderia imaginar… — Brincou Kobayashi e uma sequência de risadas soou.
— Eu sei tocar guitarra elétrica. — Falou Kageyama, tão baixo que Hinata achou ter ouvido errado. O silêncio pesado que se instalou no vídeo provava o contrário.
O time inteiro se virou para Kageyama, que pulou em seu assento, assustado.
— Você tá zoando, né? — Perguntou Hoshiumi.
E Hinata riu, porque era óbvio que Kageyama estava brincando.
— Não. — Ele respondeu simplório. — Por que eu mentiria em uma entrevista com o Spotify, seu idi- — Um bip cortou sua fala.
O estômago de Shouyou despencou 10 metros. Isso só podia ser uma pegadinha. Uma esquete de humor planejada totalmente para que ele caísse igual um imbecil numa mentira óbvia dessas.
Mas não. O vídeo ainda seguia normalmente e todos pareciam igualmente chocados que Kageyama Tobio, o levantador prodígio, sabia tocar guitarra.
Que porra é essa?
— Nem fud- — Um bip cortou a fala de Hoshiumi. — Desde quando você toca guitarra? Pera, você toca tipo, bem, ou só tipo, mais ou menos?
Hinata sequer piscava. Seu coração batia tão rápido que quase ultrapassava o som do vídeo. Ele engoliu seco enquanto esperava a resposta do outro.
— Eu toco desde criança. — Ele respondeu como se não fosse nada importante. Inacreditável. — Aprendi por causa da minha irmã mais velha. Quando era adolescente, ela gostava muito desses rocks dos anos 2000, quer dizer, ela gosta até hoje. — Ele fez uma pausa, piscando algumas vezes e desviando o olhar nervoso da câmera. — Enfim, ela queria começar a fazer aula de guitarra e minha mãe me colocou no meio… Acho que foi uma tentativa pra me tirar um pouco do vôlei.
— Pelo visto, o plano da sua mãe não deu certo. — Brincou a entrevistadora. Sua voz estava quebradiça e tensa, provavelmente pelo nervoso de estar acompanhando sua entrevista ir pelos ares.
— Isso é muito legal, Tobio. — Falou Ushijima. Sua voz era tão sem emoção que fazia Hinata querer enfiar seu pulso inteiro dentro da boca. — E você sabe tocar bem?
— É, é! — Continuou Hoshiumi. — Você não respondeu o resto da minha pergunta!
— B-Bom, eu não toco tão bem assim, sei algumas músicas de cor e treino poucas vezes no ano, tipo uma vez a cada dois meses por ai. — Ele respondeu, coçando a nuca.
Shouyou soltou um guincho. Kageyama tocava guitarra a cada bimestre desde que eles se conheceram e ele não sabia disso. Que tipo de amigo ele era?
— Não chego nem perto de ser bom de verdade. — Avisou Kageyama. — Até porque as cordas das guitarras elétricas machucam os dedos… Sempre que pratico demais acabo me machucando e não posso correr o risco de piorar meus levantamentos por causa disso.
Uma sequência de “ah” tomou conta do restante do time.
Hinata se sentia enjoado. Isso fazia tanto sentido, era algo tão Kageyama de se fazer que seus ossos estavam começando a latejar de dor. Ele pausou o vídeo e gritou na almofada mais uma vez.
— Isso foi muito fofo, Tobio! — Comentou a influenciadora. — Mas então você pratica até hoje? Ainda consegue tocar alguma coisa?
— Sim. — Concordou o moreno. — Faz um pouco mais de 3 semanas que toquei pela última vez. Gosto de manter uma prática constante o suficiente pra não esquecer o que já sei, mas também não tão frequente pra não impactar no vôlei.
— Você tá mentindo, sem chance. — Falou Hoshiumi, cruzando os braços. — Alguém tem uma guitarra aí?
Um silêncio seguiu, fazendo Shouyou piscar, chocado com a audácia do outro.
— Ah, qual foi! A gente tá na sede do Spotify e ninguém tem uma guitarra?!
Um corte discreto aconteceu no vídeo, mudando para uma cena onde um homem desconhecido aparecia com uma guitarra em mãos, já instalada em uma pequena caixa de som.
— Agora eu quero ver! — Hoshiumi sorriu ameaçadoramente. — Bora Kageyama, toca alguma música da minha playlist aí.
Kageyama parecia prestes a quebrar a guitarra na cabeça de Hoshiumi. Mas, respirando fundo, ele fechou os olhos e começou a dedilhar o instrumento.
Um toque familiar soou através do alto-falante do celular de Hinata. Ele conhecia essa música! No canto inferior da tela, um letreiro apareceu indicando o nome da melodia, “Do I Wanna Know” do Arctic Monkeys.
Kageyama tinha sua cabeça abaixada com os olhos vidrados nas cordas da guitarra, o que era uma pena. Hinata faria de tudo para ver o rosto dele agora.
O som era perfeito aos ouvidos de um amador como Shouyou e, a julgar pelas expressões chocadas do restante do time, eles também compartilhavam da mesma opinião.
Kageyama tocou por algum tempo, mas Hinata não sabia dizer quanto. Algo entre 10 segundos ou 10 minutos, difícil dizer. A única certeza que o ruivo tinha é que ele jamais esqueceria a imagem cravada em seu cérebro do moreno dedilhando um rock em uma guitarra elétrica preta brilhante.
— Essa não vale! — Reclamou Hoshiumi depois que Kageyama parou de tocar. — Você só escolheu o rock mais genérico dos últimos anos. Eu nem escuto essa música!
Kageyama bufou, revirando seus olhos. Uma sequência de bips soou, censurando quaisquer que fossem as palavras ditas pelo outro. Hinata queria muito ter ouvido todas elas.
Ele respirou fundo e começou a tocar uma nova música. Essa Shouyou não conhecia. Parecia um rock mais pesado e agressivo que o anterior. O letreiro surgiu mais uma vez, mostrando agora o nome “My Own Summer (Shove It)” da banda Deftones.
Pausando o vídeo, Hinata buscou seu notebook desesperadamente pela sala, ligando-o o mais rápido que seus dedos nervosos conseguiam. Com a tela do Youtube aberta, ele digitou rapidamente o nome que aparecia na tela do seu celular, apertando o play. O som de Kageyama parecia exatamente o mesmo da música original, pelo menos para Shouyou.
Voltando sua atenção para o vídeo, ele assistiu o moreno tocar o trecho mais uma vez, percebendo um olhar de choque surgindo no rosto de Hoshiumi. Ele bateu nos ombros de Kageyama e soltou um guincho.
— Cara! Isso foi fo– pra cara–! — Sua fala foi cortada, mas Shouyou entendeu bem o que ele queria dizer.
— Quem topa largar tudo e formar uma banda! — Pediu Kobayashi. Kageyama arregalou os olhos com uma expressão de horror em seu rosto. Hinata não pode deixar de suspirar aliviado. Imaginar o vôlei sem Kageyama era uma tarefa quase dolorosa.
A entrevistadora soltou um riso tenso e puxou o rumo da conversa mais uma vez.
— Na verdade, acho que o novo talento do Kageyama nos leva para nossas próximas perguntas! — Ela puxou um dos papeis em suas mãos. — Qual o estilo de música vocês mais gostam e qual banda com certeza vai estar no seu top 5 artistas no final do ano? O que acha Kageyama? Consegue tocar um pouco dos artistas preferidos do seu time?
Kageyama parecia um gato assustado. Seus olhos estavam arregalados e sua boca estava aberta, mesmo que nenhum som saísse dela.
— Bom… — Começou Romero, provavelmente tentando acalmar seu levantador. — Acho que é um consenso que o estilo de música preferido de todo mundo aqui é rock, então… Talvez fique mais fácil pra você, Tobio.
— Posso tentar, mas não prometo nada… — Ele avisou.
— Na verdade. — Interrompeu Ushijima. — Eu também gosto de música clássica.
Hinata franziu o cenho, assim como todos os membros do time.
— Que isso? — Interrompeu Hoshiumi. — Virou a branca de neve agora, é?
O time explodiu em risadas. Até Shouyou riu. Pouco, mas riu.
Contudo, o som de risos foi imediatamente cessado quando Kageyama começou a dedilhar. O letreiro agora mostrava o nome “O Lago dos Cisnes” do Tchaikovsky. Hinata não sabia que música era, mas definitivamente era uma música clássica. Talvez ele tenha ouvido em algum filme, mas não se lembrava qual.
O som durou um pouco mais de 20 segundos até Kageyama parar.
— Argh, desculpa, eu só lembro o começo…— O moreno ralhou, encarando a guitarra com uma carranca feia.
Pela primeira vez em toda sua vida, Shouyou presenciou uma expressão de choque genuíno no rosto de Ushijima Wakatoshi. Foi assustador.
— I-Isso foi o Lago dos Cisnes do Tchaikovsky? — Ele perguntou, com a surpresa transbordando em sua voz.
— É. — Respondeu Kageyama. — Minha mãe gosta muito dessa música, ela até aprendeu a tocar no piano… Uma vez ela pediu pra eu aprender e aí… Eu aprendi. — Ele respondeu com uma simplicidade que machucava os órgãos de Hinata.
Falando sério, ele iria morrer a qualquer momento e o culpado seria Kageyama Tobio.
— Peraí peraí… — Começou Hirugami. — Você é um atleta, forte, bonito, alto, — ele falava enquanto apontava as qualidades em seus dedos das mãos — toca guitarra, aprendeu a tocar música clássica por causa da sua mãe e rock por causa da irmã mais velha… Como que você ainda tá solteiro?!
O rosto de Kageyama tomou uma coloração rosa brilhante enquanto ele tentava se esconder atrás de suas mãos. Shouyou achou essa pergunta absurdamente desnecessária.
— Atenção mulheres! — Chamou Romero, enquanto apontava o polegar para Kageyama com as sobrancelhas levantadas sugestivamente.
Hoshiumi foi o primeiro que soltou uma gargalhada debochada, seguido do restante do time. A vermelhidão no rosto do levantador pareceu piorar ainda mais, se é que isso era possível.
— Perdi alguma coisa? — Romero perguntou, visualmente confuso.
Ushijima, que sentava ao seu lado, inclinou-se em direção ao seu ouvido, sussurrando algo em um volume baixo demais para ser captado pelo microfone. Os olhos de Romero se arregalaram quando Wakatoshi terminou sua frase.
— Foi mal, Tobio! — Ele pediu, com a expressão mostrando culpa e um leve desespero.
Hinata pausou o vídeo, escondendo seu rosto em suas mãos. Desde quando Kageyama tinha essa relação implícita com seu time? O que Ushijima havia sussurrado? Será que Kageyama tinha uma namorada? A vontade de vomitar de Shouyou voltou com calor assustador queimando em seu estômago.
— Vocês não deveriam estar falando das suas bandas preferidas ou algo assim? — Perguntou Kageyama, ainda igualmente vermelho, depois que Hinata apertou o play do vídeo novamente.
— Isso! — Completou a entrevistadora, quase gritando. Shouyou estava quase sentindo pena dessa mulher.. — Quem começa? Que tal continuar você, Ushijima?
— Bom… — Ele começou. — Por mais que eu escute muitas músicas clássicas, acho que meu estilo preferido ainda é rock… Especificamente um rock progressivo, sabe? E, entre meus artistas mais ouvidos, provavelmente vai estar o Dire Straits.
No mesmo instante, Kageyama começou a tocar outra música. Essa Shouyou conhecia, e o nome — Sultans of Swing — apenas confirmou sua suspeita. Seu pai costumava ouvir essa quando ele era criança.
Um gosto amargo tomou conta de sua boca. Por que Kageyama nunca se mostrou interessado em contar sobre esse hobbie para Hinata? Tudo bem que ele não era o maior rockeiro da face da terra, mas mesmo assim… Se Kageyama tivesse ao menos dado a chance para que Shouyou conhecesse esse lado, ele teria ouvido todas as músicas de rock do planeta se fosse preciso.
O restante do time ofegou em surpresa, parabenizando Kageyama.
O próximo foi o cara do moicano que Hinata havia esquecido o nome — de novo.
— Meu estilo de rock preferido é o nu metal! — Shouyou nem sabia o que era isso. — E, entre meus artistas mais ouvidos, com certeza vai ter o Limp Bizkit.
Hinata franziu ainda mais seu cenho. Que nome era esse?
Kageyama, entretanto, parecia muito familiarizado com a banda. Uma melodia pesada começou a tocar. O canto da tela brilhou com o nome “Break Stuff”, e a música continuou seguindo, dessa vez por um período mais longo que as anteriores. Kageyama parecia realmente gostar dela. O sorriso dele dava essa impressão, pelo menos.
Hinata mordeu o lábio inferior. Talvez ele realmente devesse começar a ouvir músicas com gritaria e guitarras nervosas se isso fosse arrancar sorrisos tão bonitos e singelos do moreno.
Depois que o trecho acabou, foi a vez de Hoshiumi.
— Okay! Minha vez! — Ele parecia tão ansioso que Hinata poderia vomitar, de preferência nele. — Meu estilo de música preferido é o punk rock! E, entre minhas bandas preferidas, tenho certeza que vai ter o Green Day!
Kageyama fez um biquinho com a boca, parecendo incomodado com a banda escolhida por Hoshiumi. Hinata achou que ele fosse reclamar, mas o moreno apenas suspirou e começou a tocar novamente.
Dessa vez, o som da guitarra era intercalado. Kageyama tocava uma nota, parava, repetia a mesma nota e parava. Shouyou estava totalmente perdido — ele nunca tinha ouvido aquela música em toda sua vida. Hoshiumi, em outra instância, parecia tão eufórico que poderia morrer ali, nos braços de Kageyama. Hinata revirou os olhos com tanta força que eles quase ficaram presos na parte de dentro de sua cabeça.
O nome “Brain Stew” apareceu na tela e, antes que Shouyou pudesse buscar e digitá-la em seu computador, a voz irritante de Kourai surgiu no vídeo.
— I'm having trouble trying to sleep. — Ele estava cantando a música enquanto balançava seu corpo na direção de Kageyama, que ainda dedilhava as mesmas notas na guitarra. — I'm counting sheep, but running out.
Hoshiumi balançava a cabeça, fazendo seu cabelo branco chacoalhar. Kageyama olhava para ele, rindo fraco enquanto mexia a cabeça em um movimento semelhante. O cabelo dele balançava fracamente sobre sua testa. O mal-estar de Shouyou piorou.
— As time ticks by, still I try. — O canto desafinado do platinado parecia muito sintonizado com a música de Kageyama, mesmo para Shouyou e sua nítida falta de conhecimentos musicais. — No rest for cross-tops in my mind. On my own, here we go!
Hoshiumi parou de cantar, deixando apenas Kageyama seguir com a mesma melodia na guitarra.
Quando o moreno parou, Hoshiumi e os outros membros da equipe soltaram um grito de euforia. Kageyama sorriu, ele parecia contente com a cena que tinha acabado de seguir diante de seus olhos.
Hinata pausou o vídeo, buscando a música na barra de pesquisa de seu navegador. Ele ouviu os primeiros 45 segundos e, a muito contragosto, admitiu que o canto improvisado de Hoshiumi ficou realmente parecido com a versão original. Com um bico emburrado nos lábios, ele soltou o vídeo de novo.
— Seu arrom–! — A frase de Hoshiumi foi cortada por um bip. Ele tinha suas duas mãos espalmadas nos ombros de Kageyama, que sorria com os olhos arregalados para ele. — Sério, isso foi muito fod–! Se um dia você quiser largar o vôlei, vou ser seu fã número um.
Hinata pausou o vídeo mais uma vez.
Não. Ele não escutou o que ele pensou ter escutado, certo?
Ele levou suas mãos até suas têmporas, respirando profundamente enquanto tentava encontrar alguma calma nas profundezas do seu corpo — não estava funcionando.
Quem esse palhaço pensa que é para falar assim com Kageyama? Na frente de milhares de telespectadores? O que ele sabia para se autointitular fã número um do outro? A raiva borbulhava com tanta força nas entranhas de Hinata ao ponto de fazer suas mãos tremerem.
Depois de alguns segundos de respiração profunda, ele apertou o play mais uma vez. A marca da sua digital embaçada ficou gravada na tela do celular pela força usada na simples tarefa.
— Isso foi incrível, Kageyama! — A entrevistadora elogiou e Hinata suspirou, nisso ele precisava concordar. — Você e Kourai levam jeito! — Shouyou revirou os olhos, retirando seu pensamento de segundos atrás.
O restante do time concordou, dando batidinhas nas costas dos dois jogadores.
— Minha vez agora! — Chamou Romero, visivelmente ansioso para que Kageyama tocasse algo do seu artista preferido. — Meu estilo de música mais ouvido é o rock clássico e, entre as minhas bandas, tenho quase certeza que o Pink Floyd vai ser o artista número 1.
Kageyama levantou as mãos para começar a dedilhar uma música, mas parou o movimento no ar. Ele respirou fundo algumas vezes até começar novamente. Ele parecia estar criando coragem.
Nas primeiras notas, Hinata já reconheceu a música. O canto da tela brilhou com a legenda “I Wish You Were Here”, apenas confirmando suas suspeitas. Ele gostava muito dessa.
Kageyama dedilhou as notas com maestria por quase 15 segundos inteiros, e Hinata mal conseguia organizar seus pensamentos de forma coerente para explicar o que ele estava sentindo com tudo aquilo.
Para seu horror absoluto, Kageyama encontrou uma forma de piorar ainda mais o estado frágil de Hinata, cantarolando suavemente a letra música.
— How I wish, how I wish you were here. — A voz dele era profunda o suficiente para fazer parecer que assistir aquilo era algo ilegal, proibido, intimo.
(Como eu queria, como eu queria que você estivesse aqui)
— We're just two lost souls swimming in a fishbowl, year after year.
(Somos apenas duas almas perdidas nadando em um aquário, ano após ano)
— Runnin' over the same old ground, what have we found?
(Correndo pelo mesmo terreno, o que encontramos?)
— The same old fears, wish you were here
(Os mesmos velhos medos, queria que você estivesse aqui)
E, então, ele parou.
O coração de Shouyou batia tão forte em seu peito que ele temia que, a qualquer momento, o órgão pulasse para fora da sua boca.
— Uau Tobio, isso foi lindo! — A voz da entrevistadora tirou Hinata de seu transe. — Você cantou muito bem! Curte essa música?
— Bastante. — Ele respondeu. Suas bochechas estavam rosas. — Meu avô costumava ouvir ela quando eu era criança… Passei muitos anos associando essa música a ele até que… Enfim, nos últimos anos, acho que o significado mudou um pouco pra mim.
Ele não falou mais nada depois, mas Hinata ainda conseguia ouvir os batimentos estrondosos de seu coração ecoando em seus ouvidos. Ushijima sorriu para ele no vídeo, dando alguns tapinhas em seu ombro como resposta. Ele pareceu ter entendido as palavras implícitas de Kageyama naquele momento, e Shouyou nunca sentiu tanta inveja em toda sua vida.
— E sua banda preferida, hm? — Perguntou Hoshiumi.
— É verdade, Kageyama! — Completou a entrevistadora.
O moreno suspirou enquanto fazia mais um biquinho com os lábios. Hinata estava quase chorando.
— Bom, certas pessoas — ele falou enquanto olhava para Hoshiumi — roubaram meu artista mais ouvido… E eu não sei qual estilo de rock eu mais escuto. Eu escuto tudo, eu acho… — Ele não parecia muito certo da última frase.
— Ah, para! — Hoshiumi reclamou. — Você só não quer admitir que seu rock mais ouvido é o emo.
Kageyama levantou o braço em um golpe certeiro, acertando o nariz de Hoshiumi, que arfou de dor.
— Não tem problema! — A entrevistadora interviu novamente, com o pânico estampado em seu rosto novamente. — Pode tocar uma música do mesmo artista, Kageyama.
Ele fez um biquinho de novo — Shouyou iria desmaiar a qualquer momento — e começou a dedilhar.
A melodia agora parecia ser mais pesada e, muito provavelmente, era conhecida por todos ali a julgar pelas expressões de reconhecimento de todo o time. Shouyou, novamente, nunca havia ouvido a melodia antes.
O nome brilhou na tela — “Boulevard of Broken Dreams” —, fazendo Hinata arrastar os dedos mais uma vez pelo teclado do notebook. A melodia era idêntica à que Kageyama tocava, mas o que realmente chamou a atenção do ruivo foi o videoclipe, que parecia realmente emo. Ele estreitou os olhos para Hoshiumi, incomodado com a veracidade das informações que este estava casualmente compartilhando nessa maldita entrevista.
Kageyama não arrastou muito o toque dessa, mantendo a melodia por um pouco mais de 15 segundos. Os membros do time o parabenizaram novamente, mas Shouyou já estava de saco cheio dos elogios daqueles homens sem graça. Ele pulou 10 segundos do vídeo, impaciente para que o Hirugami dissesse logo sua música preferida. Ele queria ouvir Kageyama tocando mais uma vez.
— Meu estilo de rock mais ouvido provavelmente é o indie. — O capitão finalmente anunciou. — E minha banda mais ouvida deve ser o Franz Ferdinand.
Kageyama sorriu fraco, deslizando seus dedos pela guitarra novamente. Dessa vez, o toque não era nervoso como o anterior. Parecia algo que Hinata conseguiria escutar em seus fones de ouvido. A música começava em um ritmo, mas parecia ir diminuindo de velocidade até que, numa virada da batida, voltava a crescer. O nome que brilhou na tela era “Take Me Out”.
Shouyou ouviu a música original, percebendo que — para o choque de ninguém nessa altura do campeonato — o toque era exatamente igual ao de Kageyama. Sério, como era possível uma pessoa ser um prodígio no vôlei e no rock? Os dedos de Hinata cravaram na almofada em um acesso rápido de raiva.
A entrevistadora tomou o rumo da conversa novamente — ainda com os olhos levemente arregalados de tensão — e agradeceu a presença do time para a entrevista e várias outras coisas que Hinata, honestamente, não dava a mínima.
Sua língua se remexia sem parar em sua boca, amarga e pesada.
Kageyama era um rockeiro. Ok, ele viveria com isso.
Kageyama era um guitarrista. Okay, ele tentaria viver com isso.
Kageyama e Hoshiumi tinham a mesma banda como favorita. Certo, ele não suportaria viver com isso. Era demais.
Antes mesmo de raciocinar sobre o que estava fazendo, Shouyou já tinha seu aplicativo de mensagens aberto no celular.
Hey, desde quando você toca guitarra??
14:23
?
Desde criança, eu disse no vídeo.
Oi pra você também, inclusive.
14:24
E por que você nunca me contou?
14:24
Achei que você não curtia muito isso.
14:25
Achou errado, idiota
Sério, me sinto traído
14:25
???!!!
Traído pelo QUE?
Pelo amor de deus
14:25
Pensei que eu fosse seu melhor amigo?
o(TヘTo)
14:26
Nunca mais me envie essa coisa
horrorosa de novo.
14:26
Que coisa horrorosa?
Isso?
(⊙_⊙)?
14:26
Eu vou te bloquear.
14:27
Hmm isso te incomoda então?
(〜 ̄▽ ̄)〜
14:27
Infelizmente, Hinata não obteve mais respostas. Mas ele também não foi bloqueado, então as coisas estavam boas. Talvez não tão boas, porque Kageyama provavelmente ainda tinha aquele piolho branco pendurado em seu pescoço ouvindo as mesmas músicas barulhentas que ele. Mas isso seria temporário. Shouyou tomaria medidas sérias quanto a isso.
