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Viver com os gêmeos trazia frescor à sua vida, mas também podia ser um sofrimento.
Para começo de conversa eram totalmente diferentes, como o dia e a noite. 707... Luciel, Saeyoung, como quer que se chamasse esse garoto demoníaco, era um furacão autêntico. Agora que não trabalhavam mais como agentes secretos e compartilhavam um teto, era consciente do enorme mundo interior do ruivo. Malhar, computadores, jogos, hackear, incomodar seu irmão... Não sabia como conseguia dormir à noite. Lhe parecia impossível que esse cérebro descansasse em algum momento.
Saeran, por outro lado, tendia a não se meter em assuntos de terceiros. Cuidava de sua vida, sem se importar com Saeyoung e Vanderwood... ou ao menos era o que aparentava. O garoto escutava mais do que parecia e mais de uma vez o ex agente já tinha se queixado de que faltava algo em casa para encontrar no dia seguinte. Supunha que esta atitude se devia a que ele ainda vivesse atormentado pelos fantasmas do passado, tão próximo que ainda estavam do presente.
Para falar a verdade, Vanderwood não estava em condição de se queixar. Depois de seu abandono da profissão de agente secreto se viu forçado a rodar o mundo sem descanso, sabendo que iam atrás dele. Acreditava estar cansado de Saeyoung, que lhe contatava quase todos os dias, mas na verdade estava cansado de si mesmo. A primeira vez que tomou uma decisão por conta própria, que não vinha de seus chefes, havia sido algo que não tinha a ver com sua vida de maneira direta. E, apesar de tudo, havia sido gratificante terem saído da missão com éxito. O problema não era ter éxito, nem haver ajudado em algo que não o envolvia, o que o incomodava era que tinha sido tarde demais.
Vanderwood compreendia que não era fácil desvencilhar-se de sua vida anterior da noite para o dia. Se havia ajudado Saeyoung era por estar cansado de se esconder, cansado de não poder ajudar quem queria pois não estava nos planos. E mesmo que tenha sido difícil, de certo modo havia sido simples, porque, mais uma vez, estava seguindo os planos dos demais. A diferença era que havia decidido participar desse plano por conta própria. Havia perdido seu emprego, sim. Tinha tido que fugir pelo globo, também. Mas era gratificante saber que havia feito a diferença por si próprio.
Enfim aceitou a oferta de Saeyoung de morar com eles dois. Vanderwood, sem família nem lugar para voltar, como quase todos os agentes do lugar de onde escaparam, se deixou levar pelo sentimento de amizade que, pensava, o unia ao gêmeo mais velho.
Embora naquela manhã, sinceramente, desejasse estrangular ambos.
—Se continuarem assim eu juro que afogo os dois no banheiro.
Saeran torceu o nariz, como se tivesse sentido um cheiro ruim, e Saeyoung riu entre dentes.
—Vandy, como você está rabugento hoje. Se anime, que agora mesmo vamos sair de férias!
—Férias? Contanto que seja com vocês não vão ser férias. Vai ser um inferno.
—Se você não gosta sempre pode cair fora, velhote —murmurou Saeran, apegado ao celular.
Vanderwood reprimiu a vontade de lhe estapear a cara. Sim, estava um pouco rabugento, até ele tinha se dado conta.
—Olha aqui pirralho, vá ser malcriado assim na casa do ca...
—Haja paz, haja paz —interrompeu Saeyoung. Vanderwood e Saeran murmuraram "aff" em uníssono, o que provocou uma gargalhada do ruivo. —Se no fundo sóis iguais, deverieis tratar-vos melhor.
Vanderwood tentou perfurar o jovem com o olhar. Não funcionou. Ele tinha a cabeça dura demais para funcionar.
—Quando saímos? —se levantou da cadeira e começou a recolher os restos do café da manhã. O infeliz do Saeran cozinhava bem.
Algo de bom havia de ter, não?
—Em algumas horas. Suponho que já tereis tudo preparado, porque não vou esperar ninguém —comentou Saeran, referindo-se claramente a só um deles.
Saeyoung desapareceu. Logicamente não tinha a mala feita. O surpreendente teria sido o contrário. Vanderwood suspirou, apesar de que no fundo o que queria era rir. Depois de tantas adversidades, a vida seguia. E essa era a melhor parte.
—Ei, menino demônio —chamou a atenção de Saeran em voz baixa. O mais novo dos gêmeos não o olhou, mas ele sabia que estava escutando. —Você vai ficar bem?
Não houve resposta imediata. Ao contrário de seu irmão, Saeran pensava nas coisas antes de dizê-las.
—Vamos à ilha de Jumin. Só vão estar os de sempre. Aprendi a aguentar eles.
No idioma saerânico, isso significava que havia aprendido a apreciá-los. Como dizia Saeyoung, esse grupo estava cheio de tsunderes ou algo assim. De gente que custava a expressar os sentimentos e se o fazia era quase nada. E Vanderwood era o primeiro.
—Bom. Disseram que teria uma equipe médica, mas estamos muito longe da civilização. Se te der uma das tuas coisas...
Saeran lhe mostrou o dedo do meio da mão direita. Resposta esperada.
—Cuida da tua vida, velho.
O menino provavelmente ficaria bem. Todos ficariam bem. Ao menos é o que Vanderwood desejava. Nos poucos meses que passara estando com eles de maneira assídua, havia aprendido a apreciá-los muito. O tinham aceito como a um deles, lhe deram acesso ao seu ~misterioso~ chat e até tinham lhe convidado para passar uma semana de férias com eles. Só uma ação favorável que lhes tinha feito no passado e eles o devolveram tanto.
Se essa era sua penitência por sua passividade ao longo da vida, estava mais que disposto a recebê-la.
—Vamos? 'Tá tudo preparadinho. Não levei nem meia hora.
Saeyoung apareceu na porta, arrastando uma mala que era quase maior que ele.
—Aviso que a gente 'tá pronto? — perguntou, levando a mão ao celular. Os gêmeos assentiram.
Vandy: gente
Vandy: estamos prontos
Yoosung: não acredito!!!
Yoosung: não acredito que Saeyoung terminou tão rápido!!
Vandy: eu também não acredito... mas aconteceu
Saeyoung: EU DISSE PRA VOCÊS QUE MILAGRES EXISTEM
Vanderwood, por fim, riu. Esperava uma semana movida... e agradecia que tivesse sido assim.
Não era um homem ganancioso, assim a única coisa que pedia da vida era que o que viesse dali em diante fosse tão horrível como aguentar dois gêmeos ruivos.
