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O Nascimento de uma trégua

Summary:

Jason está em trabalho de parto, sozinho em casa, com um bebê que vai nascer prematuro. Sem muitas opções, ele liga para a única pessoa que ele sabe que chegará a tempo de cuidar do seu bebê.
O problema é que da última vez que eles se viram, Bruce quase matou Jason.

Notes:

Para a Batfamily Week 2025 Day 1

Enemy to Caretaker / Scars

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

O nascimento de uma trégua

Primeiro veio a dor.
Tentando racionalizar - ainda não estava na hora - Jason pensou que era uma contração de treinamento.
Ele tentou ignorar. Tomou um banho gelado. Sentou no sofá. Apoiou o quadril para fora do sofá.
Estava cedo. Cedo demais.

Jason tinha acabado de passar pela 34° semana da gravidez. Estava tentando prestar atenção em todos os mínimos sinais fazendo todo o pré-natal em dia. Ele e Roy sabiam da chance de um parto prematuro, Jason só descobriu a gravidez tarde demais, já no terceiro mês, depois de semanas bebendo e fumando normalmente.
Apesar disso, até então o desenvolvimento do bebê estava indo bem, um pouco baixo na linha de desenvolvimento, mas ainda nos bons parâmetros.

Ele olhou para o relógio no celular. O intervalo tinha sido de menos de cinco minutos. Era uma contração real. Não tava dando mais pra ignorar.

Ele conseguiu ir até o armário, puxando toalhas e lençóis limpos até a sala, empilhando-os ao seu lado no sofá.

E o que não deu mesmo pra ignorar foi a bolsa estourando. Jason tocou a calça no meio das pernas, como se pudesse segurar o líquido. Não podia.
A dor era muito forte, ele sentia o corpo forçando o bebê para baixo e para baixo.

Por mais que seu orgulho quisesse que passasse por isso sozinho, ele sabia que era arriscado demais. Não era mais só a sua vida que estava em perigo, a da sua filha também estava.

Não dava pra ligar pra Roy. Por mais que seu marido quisesse estar presente no parto da bebê, eles tinham organizado um último trabalho para o Arsenal para que na reta final da gravidez eles pudessem ficar juntos. Agora ele estava do outro lado do país, em uma grande operação e dificilmente conseguiria um zeta.

Ele não podia chamar nenhum dos seus capangas, porque o melhor que eles fossem, ninguém conseguiria ajudar em um parto quanto mais conceber a ideia do seu chefe ter uma vagina.

A dor lascinou forte mais uma vez e Jason gritou, sem preocupação dos vizinhos se importarem. Ali era Park Row. Ninguém se importava. Ele se permitiu por um momento perder o foco de tudo, até sentir a contração passar.

Só teria uma pessoa que chegaria rápido o suficiente e que saberia lidar com qualquer merda que estivesse acontecendo. Só que da última vez que se viram, tudo que Jason ganhou foi uma cicatriz feia no pescoço.

Quando conseguiu um mínimo de consciência - razão seria difícil - ele decidiu discar o número que tinha decorado desde adolescente.

Com muitos motivos, recusou todas as tentativas de aproximação de Bruce nos últimos dois anos. Além de não ter matado o palhaço e decidido quase matar Jason, ele não tinha motivos para ver o homem de novo, apesar das mensagens, novos equipamentos e às vezes presentes.

— Alô?
— Park Row, meu apartamento. - Jason fez uma pausa para gemer de dor - O mais rápido possível. Traga o medkit infantil.

Jason não tinha saco para dar mais informações e desligou o telefone. Quando veio a próxima contração, ele tentou fazer um pouco da respiração de parto, que ele e Roy tinham começado a praticar na última semana. Três minutos de intervalo. Estava perto.
Buscando conforto, apesar de ser difícil se mover, ele se agachou no chão, com o rosto apoiado no assento do sofá. A posição parecia ajudar.

Mais um pouco da respiração e o inconfundível som do batmóvel cantou alto pela rua até parar.

Os poucos segundos de silêncio foram interrompidos pelo som da sua janela sendo quebrada e os passos rápidos até ele.

— Jason. O que está havendo?
— Eu to em trabalho de parto porra.- Jason murmurou

As lentes brancas se estenderam e se estreitaram, até que as mãos enluvadas retiraram a máscara e Jason encarou o rosto chocado de Bruce.

— Quantas semanas?
— Trinta e quatro e três dias. A bolsa já estourou também. - Jason murmurou - Cedo demais.
— Contrações?
— Três minutos.
— Tampão?
— Eu não olhei.

Bruce assentiu, tirou as luvas e a parte superior da armadura. Jason o seguia com os olhos, sem perder um movimento.
O cavaleiro das trevas se levantou, estendendo as duas mãos para ele.

— Vamos, você precisa tirar essa calça. - Bruce disse, resoluto
— Tá, tá.

Jason aceitou as mãos oferecidas à ele, levantando com esforço. De pé, mesmo que Bruce vestisse as botas que o deixavam mais alto, os olhos dos dois ficaram no mesmo nível, apesar do olhar do mais velho descer para a cicatriz do pescoço dele.
Era por isso que Jason tinha jurado nunca mais falar com Bruce. Além de não ter matado o palhaço, havia deixado Jason com o pescoço rasgado.

— Agora não é hora de se fazer de coitado, Bruce. - Jason disse, ríspido - Eu preciso colocar essa criança no mundo.

Bruce assentiu, clínico. Ele pegou no cinto um antiséptico em spray e higienizou das mãos aos cotovelos.

— Eu vou tirar sua calça e ver a dilatação.

Desequilibrado por um segundo sem ter as mãos de Bruce para apoiá-lo, Jason segurou nos ombros dele. Por mais constrangedor que fosse entre todas as pessoas ter seu antigo pai mentor para te ajudar no momento mais vulnerável.

— Quantos partos você já fez antes?
— O suficiente. - Bruce garantiu - Jason, eu já to vendo o bebê, você já dilatou tudo.

A dor começou de novo e Jason sentiu uma nova pressão. Ele soltou do ombro de Bruce e deu um passo pra trás.

— Bruce, eu preciso ir ao banheiro.
— Não. - Bruce se levantou e segurou os dois braços de Jason, com força - Jason se você está sentindo vontade de evacuar, o bebê está vindo, por favor me escute.

Jason assentiu, assustado.

— Eu não sei o que fazer, Bruce. - ele disse, as lágrimas já escorrendo no rosto
— Confie em mim, por favor. - Bruce sussurrou
— Não tá no tempo, Bruce. Está cedo demais.

Bruce sorriu levemente, antes de passar a mão para secar as lágrimas no rosto dele.

— Filhos vem na hora que eles precisam vir, Jason.
— Na hora que precisam vir. - o rapaz repetiu
— Isso. E a hora do seu bebê é agora, por favor.

Jason assentiu, se abaixando para o sofá. Ele apoiou o quadril para fora, deixando a gravidade aliviar a pressão, com Bruce preparado para pegar o bebê entre suas pernas, com as toalhas apoiadas no chão.

— Eu não sei como.
— Você sabe sim. - Bruce falou - Você treinou a respiração, eu ouvi você fazendo agora a pouco.

Jason se apavorou quando sentiu novamente a contração.

— Bruce!
— Empurre, Jason!

Jason curvou o corpo pra frente, fez força e seguiu a respiração ensaiada. Tudo que ele sentia era dor. Era quase como morrer novamente. E ele gritava como se fosse morrer.

— Já passou a cabeça! Vamos, Jason! Empurra!

Tudo que Jason sentiu foi a força que ele teve que fazer, uma luz branca atrás dos olhos de tanto apertá-los. Sentiu, também, a pressão quando o bebê saiu.
Se dar a luz foi quase como morrer, o silêncio que veio depois foi pior que a morte. Não quis abrir os olhos. Ele pôde ouvir Bruce segurando o bebê, usando a bombinha de sucção.

— Bruce?

Veio o choro, a coisa mais linda e mais delicada que Jason já tinha ouvido na vida. Jason abriu os olhos e Bruce já estava ao seu lado, com sua filha chorando.

— É uma menina, Jason. E ela é linda.
— Mesmo?

Bruce sorriu, também chorando.

— O ideal é contato pele a pele, mas…
— Me ajude aqui. - Jason pediu

Jason tirou a camisa de qualquer jeito, simplesmente tirando ela do caminho. Com uma das mãos livres, Bruce o ajudou a se deitar nas almofadas de um jeito mais confortável e, delicadamente, entregou a bebê para Jason, apoiando ela sobre o peito suado do rapaz.

Nada mais no mundo importava para Jason. Ele conseguia sentir a respiração e os batimentos dela da forma que segurava. A bebê era quente e parecia muito mais frágil do que ele tinha imaginado. Ela também era bem menor, mas isso tinha o tempo também para justificar. Nada importava, só a sua filha.

— Ela é linda. - Jason murmurou
— É sim.

Bruce se agachou ao lado dele. Jason tentou ao máximo ignorar as lágrimas no rosto do homem, a emoção que ele exibia no sorriso raro.

— Ela está bem, Bruce? - Jason perguntou, segurando a bebê com o maior cuidado possível
— Tão bem quanto pode estar, mas vocês dois precisam ir ver a Leslie. - ele olhou o relógio da sala de Jason - A ambulância deve chegar em três minutos. Eu saio em dois. Você quer alguma coisa?

Jason negou.

— Eu vou cobrir vocês, ok? - Bruce disse.

Bruce pegou um dos lençóis limpos e cobriu Jason e a bebê, de uma forma que trazia lembranças fortes demais.

— Eu.. - Jason pigarreou - Obrigado. Mas isso não significa que nada mudou.

Bruce o observou, de um jeito quase arrogante, como quem sabe de algo que Jason não sabe. Sem mais nada a fazer, ele voltou a vestir sua armadura e o Batman estava de volta.

— Vou seguir a ambulância à distância e vou colocar escutas. Dê sinal caso precise de alguma coisa.

Jason assentiu.
Depois que o Batman saiu pela janela, Jason reacomodou a sua filha e a beijou na testa, com uma pro.essa silenciosa de que ele nunca a machucaria como todos seus pais fizeram.

Notes:

O que será que Bruce sabe mais que Jason??

Hey! Obrigada por ler!
Por favor deixe um comentário se você curtiu, vou adorar ler!
Essa é a primeira história que eu preparei para a Batfamily Week de 2025, a primeira vez que participo desse tipo de desafio, então sejam gentis!

Eu pensei que para o nome da bebê eu poderia chamá-la de Catherine Jane Harper-Todd, mas eu não soube como inserir na história.