Chapter Text
“Aqui, Margarete. Sua porção de takoyaki.”
“Wow! Está com um cheiro ótimo~.”
“Você parece bem feliz agora.”
“E-Eu só estou com fome, okay?! Isso é tudo! Agora pare de me olhar estranho e sente-se logo, Tomari.”
“Obrigada pelo assento. Mas, com licença, Margarete. Você se importaria de me responder algo?”
“Hm? Wo qui sheria?”
“Você já caminhou de mãos dadas com alguém?”
E de repente, a minha companheira de clube entrou em uma crise de tosse. Eu rapidamente lhe dei tapinhas nas costas para ajudá-la a expelir o que entalou na sua garganta. Felizmente, ela já havia engolido boa parte da massa de polvo, então o perigo maior passou.
“Você está bem?”
“Eu estava, até você me vir com essa pergunta esquisita!” - Margarete pegou o guardanapo que eu a ofereci e limpou os cantos da boca, para em seguida retirar os farelos de takoyaki que caíram em seu uniforme. Por sorte, seu cabelo exuberante estava a salvo de qualquer sujeira. - “De onde você tirou isso, caramba.”
“Chisato-senpai me entregou junto a bandeja.”
“Eu estou me referindo a pergunta, não aos guardanapos!”
“Oh, sim. Isso faz parte da minha extensa observação sobre as integrantes de Liella.”
Sim, exatamente isso. Agora mesmo estou analisando-as. Como é de costume do grupo, nos reunimos fora do clube para "descansar o corpo e a mente", e o local escolhido para hoje foi a praça de food-truck que Chisato-senpai trabalha de meio-período. Inicialmente, estávamos todas reunidas em um só ponto, mas pouco a pouco, cada uma foi se agrupando com seu círculo de amigas mais próximas. Kanon-senpai, por exemplo, estava escorada na bancada do trailer, conversando afetuosamente com Chisato-senpai. Desde que ingressei no clube, tenho notado essa sutileza que as duas têm uma com a outra. Ao mais tardar eu descobri que são amigas de infância. Já a mesa à esquerda, servindo como alto contraste, há Keke-senpai e Sumire-senpai lado a lado discutindo entusiasticamente - na melhor das hipóteses. Minha querida irmã já reclamou desse comportamento inúmeras vezes, dizendo coisas como “Elas sabem como um relacionamento duradouro funciona?!” ou “Como elas continuam insuportáveis mesmo depois de se acertarem?!”. Eu não entendi o que ela quis dizer com essas frases, mas não insisti em saber mais. Agora, sentada ao canto da praça, Ren-senpai movia freneticamente os dedos em seu video game portátil, exibindo um sorriso pouco esperado de uma séria e responsável Presidente do Conselho Estudantil. Mei-senpai me contou que nossa veterana desenvolveu um gosto peculiar por jogos e, desde então, tem feito dele uma atividade prioritária. E por fim, na outra ponta do banco, o quarteto do segundo ano revezava entre elas o takoyaki e a bebida - e periodicamente, os oferecia a Ren-senpai -, enquanto trocavam palavras e risadas em uma conversa dinâmica. Elas me remetem a um grupo barulhento, mas unido, mesmo com personalidades tão distintas. Toda essa configuração me fez lembrar de um comentário da Margarete: “Liella é uma mão cheia para lidar”. É muito cedo para eu afirmar o mesmo, mas não nego minha inclinação para essa opinião, pois no fim, eu estava tão distante do grupo principal quanto ela. Apesar de Kanon-senpai incentivar uma maior interação entre todas, minha colega de classe aproveitava cada oportunidade para ficar longe de “toda essa algazarra” - nas palavras dela. Ainda sim, ela não se incomodou com minha presença, o que foi ótimo, pois assim teria mais oportunidades de entender o lobo solitário do clube.
“Notei recentemente que certos membros do grupo são mais próximos entre si, e que por padrão, também possuem o hábito de darem as mãos."
Hoje não foi diferente. No caminho para cá, dois membros colocaram em prática esse costume, e as autoras em especial foram Kanon-senpai e Chisato-senpai.
“Então era isso.” - Margarete soltou um suspiro cansado. - “E então? Qual o problema?”
“Não há. No entanto, isso atiçou minha curiosidade em saber o porquê dessa prática tão recorrente.” - eu pego um espeto e finco-o em um takoyaki, assopro para dissipar seu calor e volto a atenção para a violeta ao meu lado. - “Quer?”
“Ainda estou me recuperando da última vez.” - Margarete se fechou, cruzando as pernas e os braços enquanto parecia observar as veteranas como eu fiz mais cedo. Por essa recusa, eu aproveitei e mordisquei a massa frita, saboreando-a com meu paladar crítico nesse minuto de silêncio. Picante. - “Se está interessada, então por que não pergunta a elas?"
"Foi o que eu fiz."
Respondi objetivamente e pus a outra metade na boca que, sem surpresas, estava igualmente deliciosa. Novamente com as mãos livres, deixei de lado a bandeja do lanche e me virei para pegar minha caderneta na mochila, abrindo-a na página do assunto. Com esse meu farfalhar, despertei o interesse de Margarete, uma vez que ela se inclinou sobre mim e leu em seguida em voz alta:
“ ‘Estudo de caso dos benefícios e razões do hábito de entrelaçamento de mãos: uma pesquisa sobre Liella.’ Que título pequeno.” - sua risada sarcástica vibrou meu braço. Eu folheei as numerosas páginas de anotações e isso arrancou uma reação de surpresa dela. - “Wow–. Isso não é coisa demais?”
"Eu investiguei a fundo para entender o fenômeno por completo, e para isso, escrevi o máximo de detalhes que pude.” - eu direcionei meu foco para minha colega. Partes de suas mechas volumosas caíam sobre o meu ombro. - “Gostaria de ler?”
“...Bem. Não tem nada de interessante para fazer aqui, de qualquer maneira.”
Sem qualquer cerimônia, Margarete pegou a caderneta de mim e voltou para a primeira folha. Ali, iniciou-se a leitura da minha vasta entrevista:
TAKE 1: KEKE-SENPAI e SUMIRE-SENPAI
“O que lhes motiva a ficarem de mãos dadas?”
S: Tomari? De onde você tirou isso?
↳ por algum motivo, Sumire-senpai arregalou os olhos e gaguejou quando lhe fiz a pergunta. Anteriormente, quando a chamei junto a Keke-senpai, ela parecia altamente disposta a tirar minhas dúvidas. Talvez eu devesse ter explicado minhas intenções desde o princípio?
-> Mudar a abordagem na próxima entrevista
"Me desculpe por ter soado repentina, no entanto, essa entrevista se destina ao meu estudo de caso sobre 'ficar de mãos dadas'. Gostaria de entender as razões por trás desse ato sucessivo. Então, se puderem colaborar com minha pesquisa pessoal, agradeceria profundamente."
Elas soltaram um suspiro. Agora estão sussurrando uma para outra:
K: Eu disse que você não precisava ficar tão nervosa.
S: Você agora pouco estava tremendo do meu lado!
"Eu consigo ouvir vocês."
Sumire-senpai se recompôs quando as alertei. Ela agora expõe uma fileira alinhada de dentes brancos.
S: Pois bem, Tomari.
↳ aqui, ela se ajeitou na cadeira e cruzou as pernas, parecendo uma profissional do Showbiz como ela sempre se diz ser.
S: Não é óbvio? Se eu não segurar essa menina, é capaz dela ir para o meio da rua.
K: Keke não é uma criança!
↳ por outro lado, Keke-senpai estava sentada diagonalmente e de pernas juntas, parecendo furiosa com essa comparação que lhe foi atribuída.
“Por esse caso, compreendo. Keke-senpai se agita bastante mesmo em locais que exigem um comportamento mais moderado. Contê-la para evitar infortúnios é o mais adequado.”
S: Não falei~?
K: Tomari?!
Sua insatisfação me obrigou a defendê-la em seguida:
“No entanto, essa lógica não se aplica em outros espaços. Eu já pude observar vocês de mãos dadas no camarim, na sala do clube e também quando Liella se reúne em algum lugar, como a cafeteria da Kanon-senpai ou até mesmo no Karaokê, onde normalmente estamos descontraídas e desapegadas umas das outras."
Por algum motivo, elas congelaram no lugar, me olhando boquiabertas com um rubor inegável no rosto. Eu realmente não entendo o porquê de tanta timidez. Eu estou me expressando de maneira inadequada?
Elas voltam a sussurrar uma para outra:
S: Viu, Keke! Eu te disse que era arriscado fazer isso em público!
K: Não me culpe quando é Sumire quem fica toda manhosa perto de mim!
S: Com licença?! Não sou eu que a cada oportunidade fica se esfregando no seu braço!
K: Eh? Eu achei que Sumire gostasse disso…
S: Bem, eu não desgosto, é só que…
K: Então eu vou parar!
S: Espere! Keke!
Keke-senpai se levantou abruptamente do assento e saiu pisando forte para fora da sala do clube, e Sumire-senpai logo foi atrás, me deixando sozinha com mais perguntas do que com respostas.
Encerro forçadamente o TAKE 1. Sem sucesso.
“Elas entraram em uma discussão que ficou impossível de continuar a entrevista.” - eu relembrei do evento em detalhes após ler o relatório junto a Margarete.
“É sério que elas acham que estão conseguindo se esconder com esse teatrinho?" - ela soltou uma risada cínica. - "Que patético."
"Não diga isso. É desrespeitoso da sua parte." - eu adverti minha colega, me sentindo um pouco brava pelo seu comentário ácido. - "Apesar de não entender a comoção com uma pergunta ingênua, não estamos em posição de julgá-las pelos seus motivos ocultos."
“Aham, claro.”
Eu não precisei ver para saber que ela estava revirando os olhos. Já era típico de Margarete agir dessa maneira. Invés disso, eu voltei a observar a dupla na mesa, que pela falta de movimentação labial, suponho que tenham cessado sua intriga. Na verdade, elas exibiam expressões suaves no rosto enquanto assistiam algo no celular, juntas. Eu acho que estou começando a entender a frustração da minha querida irmã quanto a elas.
“Elas são tão óbvias que nem precisam nos contar.” - eu escuto esse comentário curioso ao meu lado.
“Ao que você se refere?”
"Ora, ao real status do relacionamento delas."
“Então Margarete consegue entendê-las?” - enquanto eu a olhava admirada por seu alto poder de compreensão, ela me encarava com a testa franzida em descrença. - “Margarete?”
"...Eu estou começando a achar que elas não são as únicas densas dessa história."
" 'Densas?' "
"Quem são as próximas?"
Ignorando totalmente a minha pergunta, a dona de olhos turquezas voltou sua atenção para o caderno, onde agora era exibido a entrevista com todas as veteranas do segundo ano.
TAKE 2: SEGUNDANISTAS
“O que lhes motiva a darem as mãos?”
Diferente da primeira pesquisa, decidi explicar de imediato minhas intenções para não gerar desconforto nas entrevistadas. Isso não as impediram de ficarem surpresas com o tema, mas ao menos elas se prontificaram em contar suas razões motrizes.
-> A mudança para uma abordagem mais transparente surtiu um efeito positivo.
S: Não importa onde toco em Mei, eu sempre fico feliz em ver as reações fofas dela.
M: Por que você teve que fazer isso soar estranho?!
K: É verdade que Mei-chan fica alegrinha quando seguramos a mão dela. Quando é com as senpais, parece que ela vai derreter~.
M: Por que você está concordando?!
Dar as mãos pode desencadear o derrame quando feito com pessoas que admiramos. Isso parece altamente perigoso.
Minha querida irmã, que está ao meu lado, me olhou estranho quando me viu anotar esse último trecho. Talvez eu devesse desconsiderar.
Querida irmã: Ora, Mei~. Foi você quem sugeriu para andarmos "sempre conectadas".
"Oh. Então vocês ficam de mãos dadas em prol da Mei-senpai?"
S, K, Querida irmã: Sim.
M: Não!
Talvez não tenha sido uma boa ideia juntar as quatro para uma mesma entrevista. Essas anotações estão sendo inúteis.
Querida irmã: Desculpe, Tomari~. A gente apenas está brincando, mas é verdade que Mei trouxe a ideia para nós.
K: Isso, isso! Foi depois que ganhamos o LoveLive.
S: Depois que provamos que estamos a par das nossas senpais.
Todas as três direcionaram seus olhares a Mei-senpai, parecendo esperar uma confirmação dela. Mei-senpai acaba de soltar um suspiro alto.
M: Olhe, Tomari. A gente passou muito tempo tentando alcançar nossas senpais e já nos desmotivamos inúmeras vezes, mas quando eu e as meninas dávamos as mãos, a gente sabia que tava junto nessa.
Mei-senpai parecia muito séria em seu discurso. Seu olhar afiado ajudava na mensagem.
M: E agora que todas nós estamos em sincronia, eu não queria esquecer o que nos confortou no início.
Querida irmã: Isso foi bem honesto da sua parte, Mei~.
M: Vocês me forçaram a isso!
K: Mei-chan é tão maneira quando fala assim!
S: Eu também gosto da cool Mei.
Apesar de um discurso sério, ele tirou sorrisos de todas as companheiras, sem perder a credibilidade do que foi dito. É uma energia que só os envolvidos entenderiam. Ainda sim, eu deveria perguntar para minha irmã a história em detalhes. Talvez assim o impacto daquelas palavras ressoe em mim.
M: Vocês são um pé no saco às vezes. Não têm mais nada a contribuírem?
S: Na verdade, eu gostaria de dizer algo.
"Por favor, continue. Mais informações serão úteis para a minha pesquisa."
S: Antes, eu acreditava que enquanto eu tivesse Mei ao meu lado, eu não precisaria de mais ninguém. Mas desde que conheci Kinako-chan e Natsumi-chan, eu…
Ela deu uma longa pausa entre uma frase e outra. Ela está olhando para baixo e seu rosto está ficando vermelho…?
S: ...também tenho gostado de passar meu tempo com elas…
Tanto Kinako-senpai e minha irmã pularam em Shiki-senpai para um abraço coletivo. Mei-senpai também foi empurrada para esse meio. Elas começaram uma comoção impossível de decifrar.
Dado as reações, essa foi uma declaração e tanto para a monótona Shiki-senpai, cujo nunca escondeu sua introversão.
-> Voltar para essas duas últimas respostas quando eu obter mais detalhes do meu estudo de caso.
Encerro o TAKE 2. Sucesso médio.
"Entrevistar quatro pessoas de uma vez se mostrou um desafio para mim, mas os resultados são promissores." - eu não pude deixar de me orgulhar da minha decisão sagaz, e aparentemente, minha colega ficou igualmente surpresa. - "Você não concorda, Margarete?"
"É sério que você tem uma caneta rosa só para escrever coisas da sua irmã?" - e ela foi direto no ponto chave.
"Eu sabia que você iria notar." - tive a impressão que ela murmurou algo, mas segui adiante com minha explicação. - "Quando se trata de uma pesquisa extensa, é importante destacar o principal para que tenha eficiência na hora de revisar o estudo."
"Você tem certeza que leu o que escreveu?" - Margarete batucava irritada no caderno como se quisesse mostrar algo que eu não sabia. - "As outras senpais contribuíram muito mais aqui."
"Eu compreendo a relevância do comentário delas, por isso pedi para minha irmã um detalhamento." - em nenhum momento deixei de retribuir o olhar afiado sobre mim. Aparentemente, eu estava enganada sobre a compreensão absoluta de Margarete sobre o que há de mais importante. - "Se não fosse isso, minha taxa de aproveitamento estaria abaixo de quarenta por cento."
"Ah, é? E que detalhamento importantíssimo é esse que você descobriu?" - seu tom de deboche não passou batido pelos meus ouvidos.
“Veja. Aprendi que houve um período onde ela e as senpais do segundo ano fizeram um treino extensivo na cidade natal da Kinako-senpai, e ela vivenciou muitas coisas únicas. Como por exemplo, seguir um cronograma de exercícios, respeitar dietas específicas, acordar junto com os cabritos e ir dormir após um banho ao ar livre.” - eu listava cada ponto da minha conversa com minha irmã. Anotações foram dispensadas naquela hora, pois não há uma palavra que ela diga que eu consiga esquecer. - “Ela até disse que Hokkaido tem as melhores batatas doces do Japão e que um dia me levaria lá para experimentar. Minha irmã é realmente muito gentil.”
“Isso não contribui de nada para sua pesquisa!” - Margarete parecia indignada com minhas prioridades. - “Sério. Você é um caso perdido quando se trata da Natsumi-senpai."
"Eu levo a sério cada informação difundida pela minha querida irmã. Ela é minha inspiração de vida."
"Por favor, procure uma real boa influência para você."
"Ela é mais que um bom exemplo para mim, Margarete.” - vários momentos de infância inundaram minha cabeça. Memórias que carrego com carinho. - “Ouso dizer que ela está para mim tal qual Kanon-senpai está para você."
"Isso não vem ao caso!" - Margarete desafinou aqui. Foi fofo, mas ela pigarreou para retomar com sua voz poderosa e inabalável. - “De qualquer forma, é inegável a compatibilidade entre as senpais hoje em dia."
Ela endireitou a coluna e cruzou as pernas, olhando para o horizonte no que suspeito ser para observar as nossas veteranas do segundo ano.
"No início, eu as achava um bando de fracotes que em pouco tempo, levaria Liella a ruína."
"Isso não é um pouco maldoso de se dizer?"
"Mas é a verdade, não é? Você deve ter pesquisado pelas primeiras apresentações delas como nove." - ela tinha um ponto incontestável. Mesmo pelo meu pouco conhecimento técnico na época em que assisti os shows, pude perceber a discrepância entre os membros. - "Mas depois de ler essa entrevista, acho que consegui entender o porquê isso não aconteceu."
Dessa vez, fui eu quem desviou meu foco para o quarteto. Nesse momento, todas estavam emaranhadas na minha irmã que está com a haste de selfie erguida sobre elas. Pelas poses estáticas, uma foto estava sendo tirada. Com essa, somavam-se cinco só essa semana.
"Se sua força é insuficiente, une-se com outras." - agora com meu olhar de volta para minha companheira, pude ver uma expressão indecifrável no seu rosto. - "Ou é o que alguns dizem por aí."
"E você concorda?"
"Não é de todo mal." - curto e nada esclarecedor, sua frase terminou em aberto. Margarete desfez as pernas para cruzá-las de outro modo, e em seguida, seu olhar voltou-se para as anotações. - "Agora nós temos Ren-senpai e… ninguém? Você entrevistou apenas ela?"
Eu encarei minha colega alguns segundos em silêncio. Sua resposta ambígua e a mudança súbita de tópico me deixou intrigada. Você é um mistério. Um suspiro mais alto do que eu gostaria saiu pelos meus lábios.
"Isso mesmo. De todas as veteranas de Liella, Ren-senpai é a única que não tem uma parceira específica. Já a vi de mãos dadas com Chisato-senpai ou Kanon-senpai, e outra vez com Mei-senpai ou Keke-senpai, mas eram contextos totalmente distintos." - eu recompus minha linha de raciocínio para o foco real dessa conversa. - “Eu acreditei que esse diferencial me daria uma nova perspectiva, mas…”
"Mas as coisas saíram do esperado. De novo." - sem hesitar, Margarete concluiu o frustrante. Eu abaixei a cabeça e cravei meus olhos no chão, acompanhando a patrulha de formiguinhas levando embora os farelos de Takoyaki. - "...Mas tenho certeza que nada será desperdiçado."
E suas palavras foram sagazes para capturar minha atenção.
"Ora, por que você acha que estou lendo isso tudo, em?" - um sorriso firme enfeitou seu rosto.
"Porque você disse que não havia mais nada de interessante para fazer."
"T-tá. Começou por esse motivo, mas já que estou aqui, eu posso contribuir também, não é?" - ela empinou seu queixo. - "Minha opinião é muito valiosa, se você ainda não notou."
"Sim…"
"Não me venha com um 'sim…' mau-humorado!" - e como esperado, ela se irritou por isso. Mas seu sorriso característico logo voltou para cena. - "Vamos lá. Não deve ser tão complicado que duas gênias como nós não possamos entender."
A confiança de Margarete é de fato uma qualidade admirável. Talvez com um pouco mais de fé, ela possa me dar uma resposta que ainda não achei.
TAKE 3: REN-SENPAI
“Como você se sente quando seguram sua mão?”
R: Eu me sinto honrada! Poder ter esse contato físico com indivíduos tão fascinantes que são Liella me fez perceber o quão sortuda sou por tê-las como companheiras.
Diferente das outras entrevistadas, Ren-senpai estava altamente animada para colaborar com minha pesquisa. Na verdade, seu ânimo ampliou após ouvir a pergunta principal, e dado seu bom histórico de comprometimento e competência, tenho altas expectativas quanto ao resultado final.
“De fato. Mesmo com minha entrada recente ao grupo, notei uma boa relação entre todas. No entanto, Ren-senpai, me corrija se eu estiver equivocada, mas você ainda não se sente completamente à vontade com elas?"
R: Isso não é verdade! Eu confio amplamente nelas!
“Isso é estranho, pois durante minha observação, vi que todas as vezes que Ren-senpai andou de mãos dadas, sempre foi por iniciativa das outras, nunca sua."
Ren-senpai ficou boquiaberta e um silêncio preencheu a sala. Ela abaixou a cabeça. Eu a deixei desconfortável?
R: Por muito tempo, eu desconheci o que era ter amigos. Toda companhia calorosa que recebi foi da Saya-san, a minha governanta, do Chibi, o meu cão, e da minha querida mas falecida mãe. Eu serei eternamente grata por todo o acolhimento deles.
Ren-senpai mantinha a cabeça baixa. O tema não era fácil de abordar, afinal. Mais tarde, irei agradecê-la por ainda sim se abrir para mim.
R: Eu passei meus anos escolares sozinha e fazendo apenas obrigações, e não tive dúvidas que no ensino médio essa rotina seria idêntica, mas então, Liella surgiu e revelou a verdade por trás das minhas crenças. Mesmo tendo errado muito, elas ainda me aceitaram como uma delas.
Ela levantou o rosto e um sorriso gratificante foi me exposto.
R: Todos os membros de Liella são pessoas queridas e muito gentis! Se não fosse por elas, talvez eu ainda estaria voltando para casa sem ansiar por um amanhã radiante. Por isso eu repito: eu me sinto grata por segurar as mãos das garotas que me salvaram da solidão.
"Isso é um crescimento e tanto. Obrigada por compartilhar uma parte da sua intimidade, Ren-senpai."
R: Não precisa se curvar! Eu realmente fico feliz por estar contribuindo.
O motivo por permitir o contato físico com as amigas possui um vínculo emocional relevante para si. Mas isso só complica a minha dúvida da sua falta de iniciativa. Se ela se sente tão bem, isso não seria mais um motivo para ela tomar a frente?
Um esfregar ansioso de sapatos despertou minha atenção.
R: Talvez você tenha razão sobre minha timidez. Por mais que Liella seja aberta a essas questões, eu ainda me sinto nervosa com todo o contato físico, sem saber qual seria o momento ideal para eu agir.
De fato. Eu pude traçar um padrão entre quem se dá as mãos, mas o quando e o onde são variados. Talvez eu possa coletar mais detalhes desse aspecto.
R: Mas eu venho adquirindo coragem com Seira-sama!
“Seira-sama?”
Um nome nunca mencionado antes foi dito com entusiasmo por Ren-senpai.
R: Sim! Toda a sua nobreza e delicadeza transparece uma barreira de distância entre ela e os outros, então como eu, vindo de uma realidade social completamente distinta, poderia sequer me aproximar dela?!
Ren-senpai levantou de súbito da cadeira. Ela começou a rodear meu assento enquanto narrava tudo isso. Por que ela está falando assim?
R: Mas por um milagre divino, eu fui escolhida para ser uma das suas empregadas principais. No entanto, tal qual existe a benção, há a maldição para corromper nossas ações.
Ela parou de frente a mim, mas se mantinha de costas.
R: Você sabe qual é o maior pecado que leva os humanos à ruína?
"Eu diria a Preguiça, pois nela você–"
R: A ganância, Tomari-san! Me deram o direito de ver Seira-sama todos os dias, e depois a honra de servir os seus caprichos, e em seguida o prestígio de ouvir os seus pedidos. Tudo isso ultrapassa o sonho lúdico do mais louco e ainda sim, caí nas garras do princípio: O quão mais o homem tem, mais ele quer.
Eu não sei se a dramaticidade dela me assusta, me deixa confusa, me leva a curiosidade ou me faz repensar na sua posição como Presidente do Conselho Estudantil. Além disso, todas essas anotações me serão úteis?
R: E quando a ousadia tomou posse do meu corpo, eu segurei as suas mãos. As mesmas que pegam xícaras caras, que são protegidas por luvas de veludo, que dão ordem ao povo, agora estavam ali, entrelaçadas com as minhas.
Um lenço que ela tirou do além enxugava suas lágrimas invisíveis.
R: É uma experiência enriquecedora. Um exercício diário que me enche de coragem para fazer o mesmo na vida real.
Esse último comentário alertou os meus sentidos.
"Ren-senpai, perdoe-me pela minha ignorância, mas de onde você adquiriu essa vivência?"
R: Oh! Essa é a história de um jogo que tem me entretido na última semana. É de realidade virtual, então a imersão é amplamente envolvente.
"Um jogo."
R: Sim! Se você estiver livre, eu lhe mostro este e inúmeros outros que tenho em casa!
"Pensarei a fundo sobre seu convite. Obrigada pelo seu tempo."
Encerro o TAKE 3. Sucesso indefinido.
"Foi um encerramento abrupto, mas eu não me sentia em condições de continuar a entrevista, e… Margarete?"
Ela não parecia me ouvir. Na verdade, várias vezes durante a sua leitura silenciosa, ela estreitou os olhos e aproximou seu rosto nas anotações, se concentrando ao máximo na escrita. Ela está com alguma dificuldade?
“Você tem algum grau de astigmatismo?”
“Não tenho!” - e como sempre, ela se virou brava para mim. - “Qual é dessas palavras complicadas?! Você está querendo transformar isso em um artigo para a banca científica?”
“Eu apenas escrevo o que me dizem. E não, não tenho intenções de publicar meus resultados, a não ser que eu enxergue uma oportunidade disso alavancar o sucesso de Liella e–"
“Impossível.” - ela me interrompeu. Rude. Com um suspiro capaz de provocar vento, Margarete expeliu sua indignação: - “Por que eu estou rodeada de esquisitas?”
Eu me abstenho de comentários e resgato a bandeja de takoyakis esquecida ao meu lado. Com sorte, eles ainda estão quentinhos. Eu me permito saborear novamente aquela massa de polvo, mas dessa vez, observando a excêntrica Ren-senpai. Ela continua bem entretida com seu portátil, dado o sorriso sinistro em seu rosto. Isso me intriga. Meu conhecimento de jogos estaria limitado apenas aos educativos se eu não tivesse assistido as gameplay da minha querida irmã. Eu consigo entender o ponto de diversão deles, mas Ren-senpai os leva a uma seriedade além da média. Eu me pergunto o que a deixa tão fisgada. E a tempo de concluir esse pensamento, Margarete espetou um takoyaki sem qualquer prenúncio desse movimento.
“Ei, Tomari.” - ela girava o palito entre os dedos, vidrada no bolinho rodando para lá e para cá. - “Você chegou a aceitar aquele convite da Ren-senpai?”
“Não pude, pois minha agenda dessa semana já estava pronta, mas também não pretendo visitá-la tão cedo.”
“Pois deveria.” - essa declaração me fez virar completamente a cabeça em sua direção.
“Por que?”
“Se alguém disciplinado como Ren-senpai faz uma cara como aquela enquanto joga, projeta um discurso à la Shakespeare de uma história meia-boca e diz que esse hobby a ajuda a ser mais assertiva com suas colegas, talvez lá você possa descobrir uma coisa ou duas na qual procura.”
E ela abocanhou a massa crocante, enquanto me deixava digerindo essa densa opinião. Se eu estivesse escrevendo essa conversa, eu teria grifado essa parte. Eu senti meus lábios se curvarem.
“Isso foi bem perspicaz vindo de você, Margarete.” - e de algum modo, ela conseguiu transparecer seu descontentamento mesmo com as bochechas estufadas de takoyaki. Ela nunca falha em demonstrar sua irritação. - “Acho que agora podemos analisar a próxima entrevista.”
Sem esperar a sua confirmação, eu viro a página por ela e deixo a mostra a mais recente pesquisa que fiz:
TAKE 4: KANON-SENPAI e CHISATO-SENPAI
“O que lhes motiva a darem as mãos?”
K: O porque…
C: …seguramos as mãos?
Seguindo o mesmo padrão, dei um rápido parecer do intuito de chamá-las para uma conversa. Elas demonstraram uma reação curiosa com meu questionamento, diferente da apavorada, envergonhada ou entusiasmada que recebi nas entrevistas anteriores. Foi um alívio depois de tudo.
“Isso mesmo. Vocês, em especial, parecem gostar de fazer isso, então gostaria de saber o que lhes agradam tanto.”
K: Talvez… o quão as mãos da Chichan são quentinhas?
C: Eu gosto de como a mão da Kanon-chan é maior que a minha. Elas se encaixam tão bem~.
K: Não é?! As mãos pequenas da Chichan são fofas!
C: E as suas são bem macias!
K: Eh? Mas meus dedos são cheios de calos por causa do violão.
C: Eu gosto disso também. É como se eu pudesse sentir os resultados do seu esforço!
As duas trocavam risadas e sorrisos que não pareciam ter fim. Ao menos elas parecem à vontade para compartilhar sobre esse hábito.
“Então vocês se baseiam inteiramente no aspecto físico?”
K: Acho que não? Eu ao menos não penso nisso quando quero dar as mãos com Chichan.
“Então há outros motivos?”
K: Eu acredito que sim, mas–
“Quais? Talvez ‘conter a agitação’ de Chisato-senpai, ou obter ‘reações fofas’ dela, ou é efeito de uma ‘ganância insaciável’?“
K: Do que você está falando–
C: Eu não sabia que você pensava tudo isso, Kanon-chan…
K: Chichan?!
“Por favor, me conte os detalhes.”
K: E-Espere, Tomari-chan! Eu nunca precisei pensar nos motivos, eu só faço isso porque me parece certo!
A resposta desesperada de Kanon-senpai me fez perceber o quão incisiva eu estava sendo. Eu pedi perdão pelo meu comportamento.
K: Não, não, eu que peço desculpas por não contribuir muito. Mas eu e Chichan damos as mãos há tanto tempo que em algum momento isso só se tornou natural.
C: Me desculpe pela brincadeira, mas é tão divertido provocar Kanon-chan que não pude perder a chance.
K: Chichan!
C: Foi mal, foi mal~. Mas sabe, Tomari-chan, para ser justa, vou ser direta com você: a mão da Kanon-chan me salvou.
Essa afirmação reacendeu em mim a esperança de uma resposta esclarecedora.
C: É vergonhoso dizer isso, mas quando eu era pequenininha, eu era muito chorona. Eu não sabia me defender, então outras crianças zombavam de mim. Foi então que Kanon-chan apareceu para me proteger.
As duas se viraram uma para outra e trocaram olhares silenciosos.
C: A mão dela naquela época continua a mesma de hoje: maior que a minha, macia como um bichinho de pelúcia, e quentinha. Muito quentinha. Ela me ajudou a levantar e me segurou até que eu ganhasse confiança para caminhar sozinha.
K: E mesmo depois disso, eu ainda não quis soltá-la.
C: Porque queríamos andar lado a lado.
E mais risadas sutis reverberaram pela sala. Elas realmente têm uma ótima sintonia. Isso me faz querer sorrir também.
“Obrigada pelo tempo de vocês. As suas contribuições certamente me ajudarão na minha melhor compreensão sobre o assunto.”
C: Uma última coisa, Tomari-chan. Eu sei que pode parecer confuso para você agora, mas eu tenho certeza que você vai entender quando chegar a hora.
Eu quis perguntar o porquê dessa afirmação misteriosa, mas o sorriso de Chisato-senpai me revelou que ela não diria mais nada.
Encerro o TAKE 4. Sucesso satisfatório.
Eu estava no aguardo dos comentários da Margarete, mas ela permaneceu calada com os olhos fixos na página. Eu cogitei a possibilidade dela ainda estar lendo, no entanto, havia algo diferente no seu silêncio. Foi então que ela começou a aplicar uma força desnecessária no caderno, ao ponto de amassar a beirada da folha.
“Margarete?” - eu estava prestes a encostar na sua mão, mas no momento que meu dedo se encontrou com sua pele, ela recuou em uma velocidade que surpreendeu ambas de nós. Consequentemente, eu me afastei. Que reação foi essa? - “Aconteceu alguma coisa?”
“Não foi nada.” - ela desviou o olhar arregalado para o lado.
“Mas você estava tremendo.”
“Impressão sua.” - foi tudo o que ela declarou.
“Negativo. Seus dedos deixaram marcas nas bordas.” - eu apontei o fato e vi seus músculos do braço travarem com isso. - “Alguma coisa te incomodou?”
“É, é. Foi essa… essa melação das duas!” - sua resposta debochada não soou nada convincente. - “Elas só disseram coisas… banais! Não sei como você não achou esse caso uma perda de tempo.”
"Pelo contrário: foi a entrevista mais esclarecedora.” - eu precisei pausar o interrogatório para defender minhas veteranas. - "Com ela, já pude traçar pontos em comuns com as outras e separar as individualidades de cada uma."
"E você por acaso chegou em alguma conclusão?" - e foi a sua vez de me encurralar.
"...receio dizer que não."
Eu me inclinei para mais perto dela para poder ter melhor contato com o caderno em seu colo, o que acabou lhe rendendo um sobressalto. Eu me virei buscando entender sua reação, mas ela novamente desviou o olhar. Eu até pensei em questioná-la, mas seria inútil levando em conta seu histórico fugitivo. Então ignorando-a dessa vez, eu fui até a última página da caderneta, revelando as várias setas, riscos e rascunhos preenchendo-na, mas mais do que tudo, os pontos de interrogação dominando a folha. Era confuso se comparado com minhas anotações normais, mas era um perfeito retrato da minha mente quanto ao assunto.
“Isso é só um monte de rabisco sem sentido.”
“Eu ainda estou no processo de analisar dados.” - eu franzi a testa para o seu descaso. - “Eu só preciso juntar mais evidências e tudo estará concluído.”
“Ou seja: elas perderam o seu tempo.” - antes que eu pudesse contestá-la, um chamado ao longe interrompeu nossa intriga:
"Tomari-chan! Margarete-chan! Não fiquem para trás!"
"E falando do diabo…"
Quem acenava para nós era a nossa coach e presidente do clube de School Idols, exibindo um sorriso tão branco quanto seu cabelo. Agora que ela trouxe minha atenção de volta para a praça, pude notar todas as veteranas já de pé, com mochila nas costas e a um passo de voltar para as ruas de Tokyo. O céu já não era tão mais claro e os primeiros postes começaram a se acender. Quando que o tempo passou tão rápido?
“Vamos?”
E seguido do exemplo das outras, Margarete também se levantou. Eu ainda estava aflita com sua atitude anterior, mas não havia como eu rejeitar seu chamado. Concordando relutantemente com a cabeça, peguei minha bolsa e segui junto a ela para fora do local. Por mais que todas tenhamos nos reunido aqui para descansar, Chisato-senpai estava trabalhando esse tempo todo, e como ainda precisa cumprir o expediente, ela ficou para trás - mas não sozinha. Kanon-senpai escolheu permanecer como companhia, continuando aquela conversa leve e descontraída que vinham levando essa tarde.
"Quantas horas elas devem passar juntas?" - eu pensei em voz alta após me despedir com um aceno e um ‘obrigada’. Margarete apenas gesticulou, sem nem olhar para trás.
"Mais do que você poderia cronometrar. São amigas de infância afinal." - ela pontuou de um jeito óbvio, mas em seguida, trouxe uma reflexão: - "Mas aquelas ali parecem gastar o tempo da mesma forma."
Apesar de estarmos a metros de distância das nossas veteranas, nós íamos no nosso próprio ritmo, observando o ânimo infinito de suas interações. Era possível supor uma conversa incessante entre elas, notar umas se esbarrando nas outras, “ouvir” uma troca de risadas mudas e também ter certeza que minha querida irmã e Sumire-senpai tiveram um pequeno desentendimento ali. Apesar de cada membro ter o seu círculo preferencial de amigos, todas se dão igualmente bem. E então, voltei minha atenção para Margarete, que caminhava tão silenciosa quanto eu, mas que tinha seu foco na caderneta ainda em suas mãos. Sua expressão se mantinha impassível.
"Então você ainda não entendeu, não é…" - ela mais sussurrou para si do que perguntou para mim. Ainda sim, decidi respondê-la.
"Infelizmente. Minha curiosidade se provou mais complicada de se sanar do que eu previa. No entanto, como eu havia dito, eu preciso só de mais uma evidência para concluir meu trabalho."
Dizendo um educado "com licença" - o que não a impediu de se assustar de novo -, retiro o caderno da sua mão e pego a caneta que sempre deixo presa no meu colarinho.
"Já que terminamos de ler todo o meu progresso, podemos retornar para o princípio que nos levou a esse assunto."
Eu folheio para uma nova página que contém um cabeçalho previamente escrito e o digo em voz alta:
TAKE 5: MARGARETE
"Como foram suas experiências em ficar de mãos dadas com alguém?"
M: …Você está falando sério?
Ela parece estupefata, como se fosse a primeira vez ouvindo essa pergunta. Ao menos, ela não corria o risco de se engasgar como na última ocasião.
"Sim. Apesar de não vê-la tendo esse contato físico com os membros de Liella, sua vivência por fora ainda será de excelente ajuda para o meu estudo."
Mesmo se tratando das minhas próprias falas, eu transcrevia em uma velocidade e precisão impressionantes. Depois de fazer isso uma semana inteira, minha escrita se tornou naturalmente mais ágil.
Margarete suspirou depois de longos segundos em silêncio. Parece que ela finalmente dirá algo.
M: Não tenho●
Mas não foi o tipo de resposta que eu estava contando. Eu me viro para ela, querendo confirmar visualmente sua afirmação.
"...não tem?"
"É, eu não tenho." - ela só repetiu a primeira resposta e deu de ombros.
"Com ninguém? Nem com seus pais ou outros parentes?"
"Você não vai querer um relatório de infância sobre como minha irmã me levava ao parque de mãos dadas, vai?" - Margarete arqueou uma sobrancelha, mas logo a desmanchou com um revirar de olhos, e juro a ter ouvido murmurar: - "Até isso mal tive."
Eu olhei para a folha porcamente preenchida, com um ponto no meio dela formado pela tinta da caneta que esqueci pressionada no papel. Eu precisava anotar alguma coisa, então desafiei meu punho a se mexer.
"E na sua escola anterior a Yuigaoka? Você já voltou para casa de mãos dadas com alguma colega?"
M: Eu sequer gravei o nome de alguém daquele lugar.
"E na Áustria? Certamente você formou contatos amigáveis no seu país natal."
M: Eu nasci me dedicando unicamente e exclusivamente à música. Eu não tinha tempo de me preocupar com brincadeiras infantis.
Suas palavras eram ácidas, facilmente entendidas como arrogantes ao vir de uma garota que cresceu em uma família séria e poderosa, mas de alguma forma, essa interpretação não me parecia correta - e eu queria saber o porquê.
"Isso continua sendo verdade?"
M: Nunca deixou de ser nem por um segundo.
"Se esse é o caso, por que você comparece a encontros frívolos como o de hoje?"
"Hã?!" - seu rosto contorcido voltou-se para mim.
"Não há nada nesses passeios de Liella que agregue na sua jornada musical. Estar aqui é uma perda de tempo." - meus olhos se estreitaram em sua direção, focados em não perder um único detalhe. - "Ou eu estou enganada?"
"Você…!"
Margarete parou seu andar e eu parei junto. Ela olhava através dos meus olhos como se buscasse confirmação na seriedade do meu questionamento. O que é desnecessário, pois eu sempre falo sério.
Ela mordeu os lábios antes de responder amargamente:
M: Você sabe como elas são! Eu tenho certeza que encheriam o raio do saco se eu recusasse a ir!
"Então se elas não fizessem isso, aí você recusaria?"
Ela abriu e fechou a boca diversas vezes, mas nenhuma palavra saiu, restando só o som do seu ranger de dentes.
Ela já não olhava mais para mim, mas eu vi seus olhos tremerem.
"Ou também seria um problema se elas parassem de te chamar?"
A cada questão que eu levantava, mais ela cerrava os punhos, e mais o seu silêncio se fazia insuportável em meio ao crescente barulho do mundo externo. Eu abaixei os braços e olhei ao meu redor. Nós estávamos paradas no meio da calçada. O período vespertino contava seus últimos minutos e os adultos deixavam seu trabalho. A cada segundo que se passava, mas a rua se enchia e mais pedestres desviavam-se de nós como se fossemos só mais um obstáculo no meio do trajeto. Eu virei minha cabeça para a direção que nossas veteranas caminhavam. A multidão de ternos pretos dominavam a calçada, mas a mesma monocromia que tapava minha visão foi a responsável por destacar as cabeleiras icônicas das garotas. Elas estavam mais longe do que inicialmente e não davam sinais de diminuírem essa distância. No meio de tanta gente, restavam apenas nós duas. Sem querer, meu aperto amassou a beirada da folha da minha caderneta. Eu preciso tentar mais uma vez.
"Margarete–"
"Já chega!" - e um vento do sul espalharam seus densos cabelos para o ar. Os poucos raios de sol restantes iluminaram suas mechas violetas e ateou fogo nos olhos turqueza, uma visão que me provocou arrepios que nem mesmo o vento frio foi capaz de fazer. Sua voz vibrou o meu peito. - "Eu já disse que não ando com ninguém, não dou as mãos pra ninguém e nenhuma das minhas prioridades envolvem fazer qualquer uma dessas coisas!"
Ela disse tudo em um fôlego só, o que quase arrancou o meu junto.
"Então por que você está sendo tão insistente?!"
"Porque eu ainda não entendo!"
E pela primeira vez naquele dia, eu levantei a minha voz. Um tom que surpreendeu a mim mesma, mas que também foi capaz de arregalar os olhos de Margarete. Até mesmo quem passou por perto direcionou desaprovação para nós. Envergonhada pelo meu mal comportamento, eu abaixei a cabeça e ergui meu caderno, o causador dessa discussão súbita. Minhas anotações pararam de fazer sentido a muito tempo: mancha de tinta, linhas tortas, letras garranchudas e questões fora de tópico, compunham a última entrevista de um assunto que ainda mal compreendo. Era só uma curiosidade, um detalhe que me intrigava, mas que me faria entender melhor o relacionamento dos membros de Liella. Um tema que me atraía à medida que eu me aprofundava, mas que no fim, só me frustrou. Eu passo o polegar pelo título, as únicas palavras bem caligrafadas naquele amontoado de conceitos intangíveis. Eu não queria que isso fosse desperdiçado.
"Eu pensei que se Margarete conseguisse valorizar andar de mãos dadas com seus colegas mesmo você sendo alguém que prefere ficar isolada, talvez eu também fosse capaz de compreender tais conceitos." - eu ainda mantinha os olhos baixos, e por isso, pude ver os dedos dela se abrindo. Em contraste, eu apertei ainda mais os meus em torno do caderno. - "Mas se você realmente não tiver nada para contar, então eu não sei onde irei achar uma resposta…"
É frustrante. Isso me incomodava mais do que eu gostaria, mas não posso evitar o sentimento. Eu olho mais uma vez as anotações incompletas e as palavras de Chisato-senpai retornaram para minha cabeça como uma tentativa de conforto. Sim, quando chegar o momento certo. Eu respiro fundo e fecho a caderneta com a caneta com um baque.
"To-ma-ri!" - uma voz abafada pelos outros sons me chamou na distância. Eu não precisava olhar para saber que se tratava da minha querida irmã me procurando. Ela voltou. Isso foi o suficiente para recuperar os meus sentidos. Já era tarde, mas com um pouco de pressa, eu ainda poderia seguir com a minha programação à risca. Com isso determinado, eu estava levantando minha mão para revelar minha localização, mas antes que eu tivesse a chance, um calor desconhecido abaixou meu braço.
"Se você não pode encontrar uma resposta…!" - Margarete, que subitamente me obrigou a ficar a altura dos seus olhos, exasperou antes de bagunçar mais uma vez os meus planos: - "Então crie uma, caramba!"
Sem me dar escolhas, a garota me puxou para dentro de um beco, me arrastando para além dele e da visão de qualquer um. Nem mesmo nós podíamos enxergar tanto: o sol já se punha e a pouca iluminação que ele poderia nos oferecer parou na entrada. Não havia nada senão paredes altas delimitando o nosso espaço, uma via precária que não foi projetada para seres humanos transitarem. Ainda sim, Margarete me guiava com destreza nesse labirinto que ela mesma nos enfiou. Eu não sabia quais eram suas intenções e eu não podia pará-la, não quando um calor latejante me prendia a ela. Era uma sensação estranha, não exatamente desconfortável, apenas inédita para mim, em um misto de efeitos que formigam a minha pele. O fato de não poder vê-lo só me fez ter o tato mais aguçado, permitindo uma imagem se formar quase por completo em minha mente. Mas esse processo não precisou terminar, pois logo essa realidade veio à tona com o clarão que surgiu acima de mim. Inicialmente, a luz do poste foi tão cegante quanto a escuridão do beco, mas assim que me adaptei à mudança, a imaginação se materializou diante dos olhos.
“Mãos…”
Sim. Não meu braço, não meu pulso, mas minha mão. Ela estava envolvida pelos dedos delgados e esguios de Margarete, que me segurava com firmeza para que nada fosse capaz de desprendê-los. Eu vinha observando esse contato há mais de semanas em Liella, mas ter uma visão em primeira pessoa - e principalmente, poder ter o contato - era um cenário completamente diferente. Antes que eu me desse conta, a frieza natural da minha mão já tinha sido derretida pelo calor daquela palma alheia, e se eu não me cuidasse, ele também invadiria o restante do meu corpo.
"Espere." - eu a puxei no sentido contrário ao seu movimento, mas isso só a fez pisar mais forte para frente. Sua atitude teimosa me obrigou a chamá-la com mais força: - "Margarete!"
"O que foi?" - ela finalmente parou, mas seu tom de voz também não foi um dos mais receptivos.
"O que você está fazendo?"
"E você ainda pergunta 'o que'?!" - ela estava prestes a virar sua cabeça para trás, mas rapidamente desistiu da ideia. - "É exatamente o que você pediu."
" 'O que eu pedi'? " - e como resposta imediata, Margarete apertou mais a minha mão. - "Não era isso que eu tinha em mente quando solicitei sua entrevista."
"Mas é disso que ela se trata, não é?" - ela soava emburrada o tempo todo e a retomada da nossa caminhada bruta reforçou isso. - "Então vamos logo antes que a gente perca mais tempo."
"Eu concordo sobre não desperdiçar nosso tempo, mas eu também não acho que esse seja o método mais efetivo de usá-lo."
"Mas que droga, garota!" - e finalmente, ela me deu as caras para confirmar minha suspeita: ela não estava nada contente. - "Como você espera entender sobre o negócio se você nunca o fizer por si?!"
"Eu não faço porque não tenho meus próprio motivos." - seu olhar turqueza era intenso demais para eu suportar. - "É por isso que comecei essa pesquisa afinal.”
Um breve cessar de voz pousou no ar. Eu olhava para qualquer outro canto que não fosse ela, pois uma angústia incomum palpitou em meu peito quando vi sua reação.
"...Você não sente nada?” - Margarete intensificou o aperto. Parecia que seus dedos iriam cravar em mim.
“Eu sinto, mas…”
É estranho. Uma sensação que eu não sabia nomeá-la. Era quente, mas não calorosa. Um toque desconhecido que não me acalmava. O suor na minha palma já havia atingido meu consciente. Nada era parecido com as descrições das veteranas, e por algum motivo, eu não conseguia dizer isso a ela em voz alta.
"Esqueça." - e todas essas sensações se esvaíram quando ela me soltou. - "Isso foi uma péssima ideia desde o início."
Margarete se sentou no banco de madeira que havia ao lado e cobriu o rosto com as duas mãos, enquanto eu olhava a minha se esfriando mais rápido do que eu gostaria. Um silêncio caiu sobre nós assim como o início da noite preencheu o céu, e com a quietude do ambiente, o clima se tornou pesado. Diferente da movimentada Harajuku, essa nova rua era mais serena, com poucos pedestres, mas cheia de arbustos e gramados na beira da calçada. Um cenário que destoava do mundo de concreto que caminhávamos minutos atrás. Ainda é inacreditável que um corta-caminho não-convencional separava essas duas realidades. Eu olho novamente para minha colega, imóvel, tão muda quanto o nosso redor. Sua quietude distante me relembrou uma antiga impressão que criei sobre ela. Eu sentei ao seu lado, um pouco afastada, pois ainda não sabia como abordá-la. Por sorte, seu suspiro rotineiro anunciou sua iniciativa.
“Eu não estava mentindo ao dizer que não tinha nenhuma experiência nesse assunto.” - ela retirou suas mãos do rosto e os repousou no colo, revelando uma expressão cansada dessa vez. - “Então o que me restou foi arriscar essa besteira.”
Sua voz estava em um tom mais baixo que o normal, apesar das palavras ainda soarem ácidas como o padrão. No entanto, a cabeça abaixada e o olhar fixo no colo revelavam uma posição retraída que eu nunca tinha presenciado nela. Isso retomou aquela angústia no peito.
"Peço desculpas pelo incômodo que lhe trouxe." - eu me curvei sutilmente em sua direção. - "Não era minha intenção te causar esse estresse."
"Não é pra tanto." - ela me espiou pelo canto do olho antes de voltar sua atenção para os seus dedos inquietos. - "Não é como se você tivesse me obrigado ou qualquer coisa, até porque eu–”
Ela se calou novamente. Seu rosto passou a exibir múltiplas facetas, uma mais diferente que a outra, numa confusão de emoções até se decidir por uma. Era complicado determinar pelo meu ângulo de visão, mas ao menos pude testemunhar a iluminação laranja do poste colorir suas bochechas de vermelho.
“Não ouse zombar de mim, okay?! Se não eu…!”
“Não há razões para eu fazer isso no entanto…?”
Eu inclinei minha cabeça para o lado, não entendendo o porquê dessa ameaça sem valor. Margarete me encarou por alguns segundos, como se estivesse analisando algo no meu rosto, em retorno, eu também a observei o suficiente para presenciar a saída da sua testa franzida para uma expressão mais neutra. Então, ela se voltou para baixo e disse quase em um sussurro:
"...Eu queria tentar ser mais próxima de alguém."
Meus olhos se arregalaram. Essa declaração foi tão inesperada que eu quase a pedi para ela confirmá-la. Por um primeiro momento, eu quis abrir meu bloco de notas e continuar a entrevista a partir dali, mas em uma segunda análise, isso soou tão errado que o larguei de lado e movi meu corpo para o outro, e assim, diminuí a distância entre mim e Margarete. Eu não preciso mais dele.
"Eu pensei que isso não fizesse parte das suas prioridades."
"E não faz." - Margarete ergueu o queixo para o alto e estendeu a mão para o céu estrelado. - "Meu foco é a música. Ela sempre foi e sempre será minha paixão. Nada vai tirar isso de mim.”
Mesmo com pouca luz, eu pude enxergar o brilho em seus olhos. Era como se as estrelas estivessem se refletindo naquele azul turqueza.
“Mas por algum motivo, mesmo que eu tenha me esforçado todo santo dia…!” - sua mão se fechou em um punho, tremendo de tanto apertar os dedos contra a palma. - “Eu nem mesmo consegui alcançar o colégio dos meus sonhos.”
Então, ela o abaixou novamente para o colo e seu olhar de segundos atrás se esvaiu junto com a voz. E em mim, aquele aperto no peito voltou. Eu não sei o que é isso, mas eu não gosto. Eu coloquei meu punho sobre onde doía e não sabia mais diferenciar o vibrar dele e o do meu coração. Por alguma razão, minha linha de visão parou na mão de Margarete - fechada, trêmula e solitária -. De repente, uma possibilidade correu pela minha mente, mas eu a rejeitei assim que tomei ciência dela. Parecia inapropriado para o momento e eu não me vejo no direito de fazê-lo depois de tudo. Em contrapartida, Ren-senpai também surgiu no meu imaginário. Era isso que ela queria dizer com falta de coragem? O som do ranger de dentes de Margarete me trouxe para a realidade.
“Mas há pessoas como Shibuya Kanon que recebem a honra de um convite de estudar lá.” - por um segundo, eu me esqueci do assunto, mas sua frase rancorosa me localizou no contexto.
“Oh. Eu me lembro de ter ouvido sobre isso.” - antes de tudo, eu respirei fundo para recuperar o restante da minha consciência, e assim feito, uma vaga memória da minha querida irmã preocupada surgiu na minha mente. - “Mas no fim, ela permaneceu no Japão.”
“É, é. Algumas coisas aconteceram no processo.” - Margarete revirou os olhos e fez pouco caso com esse detalhe que pensei ser importante. - “Mas o fato não muda: se ela foi escolhida, mas eu não, então alguma coisa em especial ela tinha. Alguma coisa que eu não tinha.”
E mais uma vez, seu olhar se encontrou com o meu. Eles vibravam em uma frequência capaz de se espalhar para o alvo, e na ocasião, eu quem estava na mira. Por instinto, eu desviei para outro canto antes que o resto do meu corpo se arrepiasse. Por algum motivo, encará-la está se provando uma tarefa difícil nessa conversa.
“Sabe, Tomari. Você não é a única que fica observando Liella.” - pelo canto da minha visão, eu pude vê-la chutando uma pedra para longe. - “Na verdade, eu as conheço há mais tempo do que você e eu posso confirmar: elas são um grude desde o início.”
“Eu não sabia que você se interessou nelas ainda tão cedo.”
“Eu não ligava para elas. Meu foco era a Kanon assim que eu a ouvi cantar.” - Margarete me corrigiu sem maneirar nas palavras. - “Ela realmente se mostrou uma cantora excepcional no palco, mas de resto, era uma garota medíocre como qualquer outra do grupo."
E mais um suspiro alto foi solto no ar antes dela encontrar uma nova pedra para chutar. Eu fiquei impressionada pelo pequeno elogio direcionado a nossa veterana, apesar do restante ser depreciativo como de costume.
"Eu me perguntei por muito tempo como um bando de meninas que só brincavam pra lá e pra cá poderiam ser as favoritas do LoveLive." - uma risada curta e seca saiu junto as palavras. - "Eu só pude concluir que se tratava de uma competição de baixo nível."
"E ainda sim, elas ganharam de você." - e instantemente, eu percebi o peso das minha afirmação. - "Me desculpe, não era para soar assim–"
"Você não está errada." - então, suas pernas se aquietaram. Ela apertou os lábios antes de continuar: - "Eu perdi. Eu não entendia o porquê. Eu dei o meu melhor e ele foi implacável. Eu não iria aceitar esse vexame."
Mais uma vez, suas mãos se fecharam e mais uma vez, eu senti a teimosa hesitação de segurá-las. Mesmo que sua realidade hoje seja diferente, toda essa história ainda é muito recente para ela. Contá-las têm trago uma série de reações que normalmente não vejo nela, e por consequência, eu tenho notado o mesmo fenômeno em mim. Eu respiro fundo novamente e atento meus ouvidos para o seu desabafo.
"Eu as observei por tanto tempo e eu só via garotas com técnicas musicais medianas. Elas só pensavam em rir, jogar conversa fora e fazer esses passeios bobos.” - a amargura em sua voz não deixava mentir o rancor que ainda guardava dessa época. - “Mas quando eu entendi o porquê da única garota com talento resistiu a proposta de estudar fora, eu percebi a diferença abismal entre nós."
Margarete virou-se para mim e só com o seu olhar, eu pude entender alguém pela primeira vez sem que ele precisasse verbalizar - no entanto, a informação não era nada agradável. Então no instante que um minúsculo sorriso apareceu no seu rosto, um que transmitia o oposto do que deveria significar, minhas inseguranças se esvaíram do meu corpo. Eu senti uma urgência de agir, fazer algo que pudesse tirar essa expressão que de nada combinava com ela, me livrar da tal razão pela qual meu peito se apertava. E quando dei por mim, minha mão já havia ido de encontro com a sua. A sua primeira reação foi um sobressalto. Isso teria nos desatado se eu não a tivesse segurando na mesma intensidade que ela usou para me trazer até aqui. Ainda era um contato incompleto. Sua mão fechada em um punho dificultava o apelo físico, e por um momento, temi ter tomado a atitude incorreta. Eu arrisquei olhar para cima, e encontrei seus olhos alarmados acompanhados de lábios semi abertos. Eu não sabia se ela pretendia fazer ou dizer algo, mas sua falta de repulsa foi um sinal verde para avançar. À medida que eu insistia em envolver seu punho com os meus dedos, mais ele se abria e me permitia sentir sua mão por inteira. Então, quando o processo se completou, ficamos assim por um tempo, nos acostumando com o novo toque e permitindo a reentrada daquela sensação quente que agora não me era mais desconhecida. Nosso momento de silêncio estava bom, mas Margarete parecia querer falar, então como incentivo, lhe dei um sutil empurrão de ombro. Pela sua rápida olhada, ela pareceu entender o recado. Ela respirou fundo e continuou:
“Eu estive me virando sozinha esse tempo todo. Construí meu próprio sonho e investi nele. Aceitei fazer coisas insensatas só para conseguir o que eu queria e até mesmo vim parar nessa terra estrangeira.” - à medida que ela falava, mais eu tentava transmitir meus sentimentos pelo meu aperto. - "Se eu cheguei tão longe com meus próprios pés, não seria agora que eu aceitaria apoio de alguém, mas–”
Sua voz lhe traiu no fim da frase.
“Não precisa ter medo.” - eu tentei tranquilizá-la.
“Eu não tô com medo!” - mas isso só trouxe à tona sua irritação padrão. Ou uma timidez disfarçada, de acordo com suas bochechas coradas. Independente do que fosse, eu desejei do fundo do meu coração que meu calor pudesse confortá-la, do mesmo jeito que as segundanistas se acolhiam. E pelo seu aperto mútuo, parece ter dado certo. - “Eu só pensei que talvez, e só talvez, eu poderia conquistar o meu sonho se eu tivesse algo parecido com o que elas têm.”
“Fico feliz por você ter optado por essa ideia.” - eu senti meu lábios se curvarem com essa conclusão. Graças a esse desabafo, pude ver um novo lado da minha companheira, que por algum motivo, me encarava carrancuda. - “Algum problema?”
“Você também parece ter seguido o mesmo caminho, hm.” - ela ergueu nossas mãos na altura dos olhos. - “O que deu em você, senhorita ‘eu não tinha isso em mente’?”
“Oh.” - Sim. Margarete não foi a única a decidir algo importante nessa conversa. Eu parei para organizar a minha onda de sentimentos anteriores para traduzi-los em termos lógicos: - "Meu coração reagiu fora de ritmo toda vez que você se demonstrou cabisbaixa, e essa conexão me alarmou. Então foi através disso que meu cérebro acreditou que nosso problema seria solucionado se déssemos a mão. Agora que concluo, posso dizer que isso é graças às evidências que coletei."
Eu batuquei meus dedos livres na caderneta repousada no banco. No fim, minhas anotações não foram desperdiçadas. Um sentimento de orgulho e satisfação relaxou o meu corpo, o que rendeu um novo olhar estranho da Margarete sobre mim.
"...Você não poderia ter se confessado com palavras mais bonitas?”
"Eu achei que tivesse usado os meus melhores vocábulos…?” - pela sua reclamação, eu me enganei ao pensar que tinha feito um bom trabalho de tradução. Talvez eu precise retomar os meus estudos do idioma.
"Sua esquisita."
E essa foi sua conclusão antes dela deitar a cabeça no meu ombro. A proximidade me foi repentina, mas eu rapidamente a aceitei de bom grado, isso e seus cabelos fazendo cócegas na minha bochecha. Na verdade, eu me senti atraída o suficiente para inclinar meu rosto neles. Cheira a lavanda. Inconscientemente, eu havia fechado os olhos para me concentrar naquela fragrância e aproveitar o carinho que as costas da minha mão recebia. Uma paz necessária preencheu o meu peito. E ao abrir as pálpebras, o mesmo cenário sereno estava a frente. As folhagens dos arbustos balançavam com o vento, o estrídulo de alguns insetos noturnos ressoava ao fundo e a escassez de seres humanos na rua a tornava deserta. Isso normalmente me alertaria para possíveis perigos, mas nesta ocasião, eu agradeci internamente por ninguém estar passando por aqui. Eu não quero que alguém veja essa intimidade. Meu coração palpitou com uma nova hipótese de descoberta. Será que é assim que Keke-senpai e Sumire-senpai se sentem?
"E pensar que estaríamos assim.” - Margarete me despertou para a realidade com seu divagar. - “Se a gente tivesse terminado o dia com aquele desentendimento, talvez eu apareceria de cara fechada amanhã.”
“Você certamente vai aparecer.”
“Com licença?!” - ela levantou a cabeça e me olhou aborrecida, mas pelo posterior corar das suas bochechas, ela aparentemente tomou ciência da sua reação. Ela decidiu se esconder no meu ombro novamente. - “É tão desagadável assim?”
“Eu não me incomodo. Eu acho que faz parte de Margarete manter no rosto sua seriedade.“ - eu expressei minha opinião, mas em seguida, relevei detalhes que poderiam ser importantes para ela: - “No entanto, já notei que alguns membros de Liella se espantam com sua aura. O mesmo se equivalem para nossos colegas de turma.”
“Eck.” - um som enojado arranhou sua garganta. - “Essa minha caminhada vai ser longa, hm.”
“Espero servir de ajuda em todo o percurso.” - eu reforcei meu apoio pelo aperto de mão, que rapidamente ela o converteu em um entrelaçamento de dedos. O riso dela que prosseguiu vibrou minha pele.
“Como se eu fosse permitir você escapar de mim depois de hoje.” - suas palavras sussurradas bem à beira do meu pescoço soou de algum jeito diferente para mim. Mesmo com a baixa temperatura da noite, o calor ainda se fez presente no meu corpo.
“Isso não é certo, Margarete.” - por um segundo, eu hesitei em recusar, mas felizmente a lógica tomou a frente. - “Seria um problema organizar meu cronograma para te incluir em todas as minhas tarefas, além de que isso entraria em conflito com o tempo de qualidade que passo com minha querida irmã, então–”
“É jeito de falar, Cabeça” - além de me dar um sermão verbal, Margarete soltou minha mão para beliscá-la com a ponta das unhas. Ardeu. Depois dessa injusta punição, ela se desgrudou totalmente de mim. - “Sério. Você está precisando de umas boas aulas de comunicação.”
“E você um supletivo de bom comportamento.”
Eu murmurei com minha boca virada para longe da sua vista, enquanto eu tentava aliviar com massagem onde doía. Ela foi desnecessária. Eu estava remoendo o ocorrido na minha mente, mas a gargalhada repentina de Margarete me alertou.
“O que foi?” - eu a encarei com sobrancelhas franzidas, achando ainda mais desrespeitosa sua atitude.
“Não, é só que-” - ela mal começou a frase e uma outra risada a interrompeu. Isso perdurou por alguns instantes até ela ser realmente capaz de falar. - “É a primeira vez que te vejo com uma cara emburrada e dando mal resposta.”
“Negativo. Isso foi uma recomendação mais rigorosa derivada das minhas observações ao seu respeito.” - eu a corrigi tecnicamente, mas ela me ignorou por completo e continuou:
“Oh! O que será de Natsumi-senpai quando descobrir que estou fazendo sua irmãzinha agir inadequadamente?” - toda sua frase foi dita com uma voz dramática típica de narração teatral, o que só piorou minha percepção sobre ela.
“Margarete!”
Eu estava prestes a puxá-la pelo ombro, quando ela pulou para fora do banco e ficou inalcançável - mas não na perspectiva dela. Com um giro ágil, ela se voltou de frente para mim e agarrou minha mão no ar, finalizando seu ato beijando-a exatamente onde havia deixado aquela marca dolorida. Eu engoli em seco. Quaisquer palavras que eu pretendia dizer foram arrancadas do meu domínio por aqueles olhos turquezas que refletiam os meus. Nós estávamos imóveis, sem mexer uma única fibra, apenas esperando a próxima reação. Eu pude sentir uma gota de suor escorrendo pelo meu pescoço. Eu não aguento essa pressão.
"Por favor…" - com uma mão sendo segurado por Margarete e a outra em cima do meu caderno, não tive escolha senão levá-lo para meu rosto e me esconder atrás da capa dura. - “...Não me encare tanto assim.”
E um novo silêncio inquietante se estabeleceu. Eu não tinha coragem de encará-la agora, não com aquele seu olhar comprometedor; e quando achei que estava com tempo para recuperar parte da minha racionalidade, seus dedos voltaram a se entrelaçar com os meus. Contrário aos instintos de sobrevivência, minha reação não foi outra senão correspondê-los. E para completar o pacote de surpresas, um outro par de dedos intrusos abaixaram minha caderneta na altura dos meus olhos. Com isso, minha visão foi preenchida por sua expressão inocente, sem aquele sinal de provocação, ou maldade, ou ambiguidade, apenas um sorriso caloroso carregado de sentimentos e sendo iluminado pela luz do luar.
“Obrigada por tudo, Tomari.”
E isso foi o suficiente para o meu coração perdoá-la. Ela não deixava margem para dúvidas sobre seus dizeres: eles eram puros e literais em sua essência. A suavidade do seu rosto eliminou a frustração infantil que eu senti momentos atrás. Na verdade, aquele calor agradável retomou para o meu peito, e somado com seu toque, meu corpo relaxou. Não tem como eu ficar brava assim.
“S-só não exagere na próxima vez.” - eu tentei forçar uma falsa raiva nessa advertência, mas minha gagueira anormal só trouxe a retomada do seu rosto travesso.
“Sim, senhorita.” - e com um puxão súbito, ela me tirou do banco. - “Agora vamos indo se você não quiser que eu continue te levando para o mal caminho.”
E com essa declaração contraditória, Margarete reajustou nossas mãos para retomarmos nossa caminhada rumo às casas. Por mais que eu já estivesse sentindo os efeitos da tranquilidade através desse contato, uma preocupação passada emergiu em mim. Eu preciso saná-la antes que estrague nossos últimos momentos do dia nesse novo universo que descobrimos.
"Margarete. Sobre o que você disse mais cedo." - eu comecei simples e ela sibilou um curto 'hm' para eu continuar. - "Você não vai mesmo contar para minha irmã, vai?"
"Você está preocupada com isso?!" - sua reação não escondeu sua surpresa, e depois de muito tempo desde a última vez, ela suspirou. - "Eu não vou. Nem daquilo e nem disto."
Ela levantou nossas mãos entrelaçadas por um momento.
"Se eu quisesse que ela soubesse de algo, eu não teria te arrastado por aquele beco." - eu me senti conflitante em esconder algo da minha querida irmã, mas aquele gosto da privacidade falou mais alto.
"Por mais que sua atitude tenha atrapalhado o meu cronograma, eu sou grata por você ter feito isso." - eu a ofereci um pequeno sorriso. - "Você realmente me ajudou na minha pesquisa."
"Eu te disse, não foi?" - mas ela olhou para outro canto. - "Você não entenderia a menos que tentasse por si. Bem. Foi só um tiro no escuro também."
"Agora que você diz, parece óbvio." - ainda sim, um ponto não havia fechado. - "Mesmo que meu estudo tenha se provado válido com todas as entrevistadas, eu não consigo me imaginar ter sentido tudo isso se eu tivesse tentado com alguém antes."
"Porque não se trata de dar as mãos, Tomari." - o movimentar diferente de Margarete me fez olhar para ela, e quando me virei, ela havia se inclinado para mais perto de mim para dizer com sua convicção singular: - "É sobre com quem você faz isso, idiota."
De alguma forma, sua frase não havia me surpreendido, talvez algo em mim já soubesse disso, mas não sabia como expressar. Felizmente, eu tinha alguém bem astuto para falar por mim. Com isso, Margarete continuou me guiando pelas ruas desconhecidas, mas belas, nessa noite de descobertas. O ar se mantinha puro e frio pela queda natural de temperatura, mas a troca de calor entre nós não deixou isso nos afetar. Até mesmo sua orelha estava queimando em vermelho. A visão me arrancou uma risada, mas eu a contive para não provocar minha companheira. Eu acelerei meus passos para alcançar aos dela, mas ela desacelerou o seus para se moldar aos meus. Com nossas mãos balançando pela inércia, nós finalmente entramos em sincronia para caminharmos lado a lado.
"Mas ei, Tomari." - um tom bem tímido foi usado pela garota mais confiante que conheço. - "Eu não me incomodo da gente fazer isso mais vezes.”
“Hm…" - e mais um dos incontáveis sorrisos que darei no futuro surgiu no meu rosto. - "Agree."
E foi por essas e por outras que o verdadeiro significado das palavras de Chisato-senpai ressoaram no meu coração. Eu descobriria na hora certa, não é? O meu eu de horas atrás nunca acreditaria que a resposta viria quando ele menos planejava.
Encerrado TAKE 5. Sucesso completo.
