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A primavera apossou-se do Recanto das Nuvens.
É possível observar, mesmo a quilômetros de distância, a montanha majestosa que ergue-se contra o céu azul claro; sua cobertura de neve começando a ceder às temperaturas mais amenas — mas não o suficiente para levar a mínima cobertura de suor aos seus discípulos ou convidados. À medida que a neve derrete, um tapete de flores começa a emergir timidamente, espalhando-se pelo sopé da montanha; lavandas, hortênsias, alstroemérias e muitas outras belezas que tornava o cume mais etéreo e divino.
Lá em cima, a paisagem não é tão diferente; as flores, predominantemente em tons de branco, creme e rosa pálido, brotam delicadamente entre as últimas áreas de neve derretida. O Recanto das Nuvens, outrora austero e coberto de gelo, agora transforma-se em um espetáculo de vida e renovação; o ar impregnado com a fragrância fresca e doce da flora é um excelente cenário para uma caminhada tranquila e despreocupada.
Lan Xichen, movido a orgulho pela exuberância da sua casa, cede a esse pequeno prazer após uma longa e exaustiva reunião; é apenas o primeiro dia de uma conferência de uma semana e, mesmo assim, ele já se sente exaurido. Ele também convida uma companhia agradável, seu mais antigo aliado e a pessoa que, atualmente, pode ser considerado seu único amigo mais próximo – mesmo que ele recuse-se a admitir sem relutância, muito acostumado a lutar – com exceção da sua família.
Sandu Shengshou. Líder da Seita Jiang. Jiang Wanyin.
Por mais que alguns indivíduos não o classifiquem como uma companhia agradável, Xichen o faz. Há algo nas arestas, nas palavras coléricas e rudes que deixa o Lan confortável com o outro Líder da Seita. Talvez seja sua sinceridade descarada, o modo como Jiang Wanyin apenas fala o que pensa sem segundas intenções ocultas ou como o homem não tenta se moldar para agradar os outros, não mais. Lan Xichen acha isso admirável e não é algo repentino, mas que é nutrido há anos com admiração silenciosa e discreta, oriunda de observações furtivas.
Devido a essa admiração que Xichen se viu, em meio a reclusão, enviando uma carta para Jiang Wanyin; expondo alguns dos seus pensamentos mais íntimos da tragédia que afetou tanto sua vida quanto a do Líder mais jovem, assim como um longo e sincero pedido de desculpas. A resposta foi— bem, digamos que Lan Xichen não sabia que era humanamente possível mandar alguém se perder e 'tirar o pau da bunda' de maneira tão educada — isso ainda o faz rir hoje em dia.
A presença de Jiang Wanyin é como um sopro de ar quente no inverno, então Lan Xichen prontamente se viu monopolizando o tempo do Líder da Seita, convidando-o a caminhar consigo em meio ao esplendor do Recanto das Nuvens. O que os leva ao momento atual.
Lan Xichen suspira, melodramático. "Líder da Seita Jiang, confesso que me sinto um pouco chateado", ele diz, lançando ao outro sua melhor expressão taciturna. "Não acredito que exista uma mente tão versada em música fora de Gusu e eu só estou tendo conhecimento disso agora".
Jiang Wanyin, para seu crédito, não cai nas atuações exageradas de Xichen; ele revira os olhos, pouco impressionado e segue sua caminhada, imperturbável.
"É tão surpreendente assim?" Ele dispara, cáustico. Suas sobrancelhas apertam-se suavemente, como se estivesse descontente com seu próprio tom mordaz. "Quero dizer", ele pausa, certamente procurando as palavras certas. "Nasci e fui criado para ser um Líder da Seita; aprendi as seis artes antes mesmo de entender minha posição. Posso não ser particularmente talentoso como os prodígios de Gusu, mas eu sei apreciar música!"
Inevitavelmente, Lan Xichen sorri, triste. Jiang Wanyin é, para aqueles que se atrevem a romper sua bravata, bastante descomplicado de se ler. Pela maneira que seus ombros ficam tensos e suas costas retas, é evidente a maneira que seu cérebro trabalha neste momento, provavelmente lembrando-o das diversas situações onde ele foi duramente considerado inapto ou simplesmente comparado a outras pessoas – pior, com seu próprio irmão. Uma mente que é constante e perversamente atacada se munirá de suas próprias armas e partirá para o ataque primeiro; por isso, muitas vezes, Jiang Wanyin parece mais rude do que realmente gostaria de ser, como em situações como essa.
"Eu nunca poderia sequer duvidar das capacidades do Líder da Seita Jiang", Xichen diz, sincero. "Mas confesso que o conhecimento me faz admirá-lo um pouco mais, Jiang-Zongzhu." Jiang Wanyin lança-lhe um olhar incrédulo, mas prontamente vira o rosto quando nota o sorriso gentil, largo e genuíno do Lan — perdendo totalmente a forma que os olhos caramelos brilham, enfeitiçados. "Já cogitou usar algum instrumento?"
Um bufo profundo e rouco escapa da garganta de Jiang Wanyin, soando demasiado estrangulado, provavelmente devido à surpresa; o som é o mais próximo de uma risada irônica e divertida que Xichen já teve dele nos anos após a saída da sua reclusão. Olhos ametistas viram-se em sua direção, descrentes e incrédulos e, ainda assim, com um toque levemente sádico de diversão.
"Bem, se o meu desejo for deixar pessoas e criaturas surdas, sim. Talvez seja uma boa ideia", Wanyin não sorri, mas é próximo disso. "O que me diz, Lan-Zongzhu? Gostaria de ser a primeira vítima a testar o novo método infame de acabar com um cultivador do terrível Sandu Shengshou?"
As sobrancelhas de Jiang Wanyin dançam de modo divertido, um pedido claro e insinuante, antes que ele pisque em cumplicidade. Xichen precisa cobrir a boca com a mão para rir; a manga esvoaçante fazendo um excelente trabalho em esconder o rosa que pincela suas maçãs do rosto. Seu coração salta diante de tal atrevimento, algo que o outro Líder da Seita nunca permitiu ser ao seu lado — pelo menos agora eles parecem estar indo para algum lugar, finalmente.
Lan Xichen espera que seu rosto se acalme para, finalmente, seguir adiante com a conversa: "Fico feliz em saber que, caso um dia esteja cansado de ouvir certas coisas, saberei a quem recorrer." Ele sorri, um pouco dolorosamente com algumas lembranças não muito agradáveis, antes de empurrá-las de volta ao fundo. "Eu acredito que talento possa ser adquirido através da prática, Jiang-Zongzhu. Com a dedicação certa, até mesmo Sandu Shengshou poderia se tornar um prodígio musical. E não…", Xichen continuou, apressado e, ainda assim, cortês. "Não digo isso de forma indulgente, é apenas o que acredito ser verdade."
"Sim, bem. Claro que sim", Wanyin lançou a mão no ar; um movimento bastante incorreto para um Líder da Seita. A jóia violeta incrustada em sua braçadeira brilhou lindamente com o sol devido a ação e Xichen não reparou como o couro obsidiano fazia bem para os braços do Jiang, absolutamente não. "Me conte um único exemplo de dedicação que deu certo e eu penso em acreditar. Talvez."
"Su Minshan", Xichen responde, rápido e sagaz.
Jiang Wanyin tropeça. Degradantemente.
Lan Xichen olha com espanto para o homem; sua mão automaticamente pousa nas costas largas dele, ajudando-o a se equilibrar. Wanyin está minimamente curvado, o que torna difícil para que o Lan consiga ver seu rosto no momento. Ele acha que o deslize pode ter deixado o Líder mais novo envergonhado e se apressa em tranquilizá-lo, mas detém-se quando tremores leves apoderam-se do corpo do Jiang, aumentando gradativamente.
Jiang Wanyin lança a cabeça para trás e ri, alto, solto e jovialmente. Xichen poderia estar rindo junto a ele, se não estivesse estupidamente encantando no doce e maravilhoso som. Faz muitos anos que ele não escuta a risada sincera do homem ao seu lado e é, sem sombras de dúvidas, a melhor coisa que seus ouvidos bem treinados já ouviu na vida. Não sendo só isso, ainda tem a extasiante visão à sua frente; olhos fechados e apertados em meia lua, lábios esticados em um sorriso divertido, bochechas rosadas devido a crise súbita de riso e adoráveis rugas de felicidade sobrepondo as de desagrado.
Lindo, Xichen pensa, absurdamente lindo.
O coração do Lan pula poderosamente em sua caixa torácica e Xichen teme que o outro possa ouvir os batimentos desenfreados, frenéticos por sua causa.
É preciso muito autocontrole de Lan para que Xichen não agarre e tome Jiang Wanyin para si, reivindique-o agora mesmo como ele deseja há semanas, meses — inferno, há anos. Tudo que ele pode fazer agora é o que tem feito durante todo o tempo do seu anseio; observar e guardar para si a linda cena que acabou de presenciar, repeti-la futuramente enquanto se arrepende da sua estupidez passada que o levou para muito longe de Wanyin.
O riso cessa eventualmente e Lan Xichen não pode deixar de lamentar sua perda. "Se Zewu-Jun me dá um exemplo tão… peculiar", Wanyin sorri ironicamente, "não espere que eu acredite em suas palavras." Ele torna a caminhar, seus olhos voltados para as flores no caminho, ainda escassas devido ao degelo lento.
Xichen o segue. "Peço perdão, Jiang-Zongzhu. Erro meu."
Jiang Wanyin lança-lhe um olhar astucioso por cima dos ombros; as lindas íris ametistas brilhantes e iridescentes refletindo a luz solar de tal modo que pareciam mais lívidas e vivazes. O canto de seus lábios estão repuxados em um sorriso pequeno e, ainda assim, deslumbrante e de roubar o fôlego. Xichen jamais testemunhou o outro Líder tão relaxado e despreocupado como agora em sua presença, nem mesmo antes de todos os infortúnios que transformaram suas vidas houve tal momento.
Essa percepção certamente causa coisas em seu peito e Xichen precisa extrair do fundo de sua mente lamacenta os preceitos da sua família que diz para agir decentemente — o que é bem difícil de se fazer quando Jiang Wanyin resolve sorrir na sua frente. O pobre cérebro de Lan não está habituado para tal ataque charmoso, então ele acha que pode ser perdoado por, de repente, ter-se tornado uma parede de músculos um pouco inútil.
Ele deve ter se perdido em sua cabeça, pois Wanyin se volta em sua direção após alguns minutos; uma expressão confusa e preocupada no rosto. "Lan Xichen?" Ele chama, sua mão hesitando brevemente antes de pousar acima do cotovelo do Lan. "Eu o perdi por algum tempo. Está tudo bem? Prefere voltar?"
As orelhas de Xichen ficam incrivelmente quentes. É óbvio que Jiang Wanyin pensaria que algo estaria errado com o Lan, dado a forma estranha que ele está agindo no momento. No entanto, como Lan Xichen poderia explicar, sem perder a face, que não há nada de ruim acontecendo? Que ele apenas divagou sobre como o homem mais jovem é incrivelmente lindo e seu coração traiçoeiro não para de bater rapidamente?
"Estou bem", ele diz e limpa a garganta ligeiramente. "Me desculpe, eu me distraí por um breve momento pela… beleza."
Jiang Wanyin pisca, parecendo adoravelmente atordoado com a resposta inesperada e é desumano como até mesmo essa expressão é absurdamente linda.
Como um homem honrado que é, Wanyin não comenta sobre a estranheza repentina do outro Líder e apenas confirma brevemente com a cabeça, voltando sua atenção para a paisagem. "Eu posso entender", ele diz, deixando que a mão no braço do Lan caía. "O Recanto das Nuvens é incrivelmente lindo nessa época, quando as duas estações se encontram."
Orgulho preenche o peito de Xichen, contente por receber um elogio tão admirável do Senhor do Píer Lótus; um dos locais mais bonitos do Jianghu. E ele diz isso: "Tal elogio vindo de um filho legítimo de Yunmeng é, certamente, uma das maiores estimas que Gusu Lan pode receber."
Lan Xichen sorri honestamente para o outro quando este se vira para olhá-lo. E então, para o baque absoluto do seu coração; Jiang Wanyin enrubesceu e sorriu; um sorriso largo, puro e verdadeiro, tão resplandecente que poderia ter derretido toda a neve remanescente no solo se fosse direcionado a ele.
Lan Xichen é um homem condenado, no final das contas. E estupidamente fraco.
Antes que ele registre corretamente suas ações, sua mão já está no ar; a ponta dos dedos tocando ousadamente fios de ébano suaves e macios do cabelo alheio. Xichen congela imediatamente ao notar o que está fazendo, o próprio Jiang Wanyin enrijecido como um pedaço de pau.
"Zewu-jun", Wanyin respira, trêmulo. "O que você está fazendo?" Seu tom é, educadamente falando, comedido, mas é óbvio pela forma que sua testa franze que ele sente-se nervoso.
Xichen abre e fecha a boca, aturdido. Lan's não mentem, é uma das regras mais bem conhecidas e retratadas de sua Seita. E, ainda assim, Lan Xichen sente a mentira na ponta da língua, porque, pelos deuses, não há como ele confessar para a personificação viva de todo sua afeição e volúpia que ele se perdeu em sua beleza e começou a agir como um estúpido.
Os deuses devem querer agradá-lo após as calamidades passadas a qual ele foi atingido, ao que tudo indica.
Uma folha, tão miúda que quase se perde em um mar preto de madeixas, se agarra insistentemente a fita roxa que Jiang Wanyin normalmente usa — sério Xichen? Inveja de uma folha? —. O outro Líder da Seita não está usando seu Guan regular com designer de Lótus que possui muita semelhança a uma mini coroa; no lugar, um hairpin de ouro mantém as tranças laterais duplas firmemente presas ao coque; seu corpo elaboradamente ondulante, segurando no topo uma esfera de jade cerúleo com algumas floreadas gotas minúsculas em um tom esmeralda, destaca-se lindamente no penteado simples, porém elaborado, do Jiang.
O alfinete é vagamente familiar, mas Xichen empurra a dúvida para o canto; o olhar do Líder da Seita Jiang está quase próximo ao olhar de Sandu Shengshou, o que não é uma boa indicação. Ostentando seu melhor sorriso, o Lan tenta passar uma impressão mais calma, apesar de estar muito agitado internamente.
"Perdoe-me, Jiang-Zongzhu", ele arrulha alegremente, puxando a pequena folha do seu local de conforto. "Apenas poupando-o das travessuras da natureza."
Esqueça sobre a piedade dos deuses. Eles adoram assistir a desgraça acontecer na vida de Lan Xichen.
Xichen removeu a folha rebelde? Sim. Ele também puxou, sem querer, a fita roxa de Jiang Wanyin? É claro que sim.
Não acontece imediatamente, possivelmente devido aos óleos caros e cheirosos — você não pode culpar Xichen de ter dado uma leve fungada no cabelo de sua paixão em um momento oportuno, ok? — que Wanyin usa. Entretanto, o alfinete cai em um baque surdo no chão e, vagarosa e tortuosamente, as tranças soltam-se do coque e todo o cabelo despenca sobre os ombros largos de Jiang Wanyin. É um espetáculo a ser visto, sinceramente, e Xichen o aprecia antes que perca sua vida para Zidian.
Só que não acontece. Não há nenhuma faísca roxa iluminando as copas, nenhum vociferar mordaz ou ameaça. Há apenas o silêncio absoluto, quebrado apenas pelos ruídos de fundo das árvores que os cerca.
Lan Xichen abre os olhos, que sequer havia percebido ter fechado, e espia na direção de Wanyin. Seu coração pula, depois salta e então dispara como um louco.
Jiang Wanyin encara fixamente a mão de Xichen, onde a fita roxa anda repousa. As maçãs do seu rosto está sendo emoldurada pela franja longa e ondulada, assim como as tranças caídas; isso apenas salienta o rubro profundo de suas bochechas.
Lan Xichen viu, muito raramente, o outro Líder com um penteado diferente – geralmente sendo um rabo de cavalo alto e elegante – e, sim, ele notou a tênue onda nas pontas das madeixas do Jiang. Todavia, ele associou isso às tranças corriqueiras do povo de Yunmeng, não à mera possibilidade do cabelo de Jiang Wanyin ser ondulado. Agora, porém, o Lan não tem muita certeza se a culpa é das tranças ou do coque normalmente apertado.
"Sinto muito", ele diz, sua voz estranhamente não detonando nenhum tipo de emoção. O que, talvez, era de se esperar já que seu cérebro entrou em curto circuito. "Não era minha intenção."
"Está tudo bem", Jiang Wanyin pigarreia, erguendo a mão. "Apenas… me entregue." Ele espera, espera e espera. Quando não há nenhum movimento da parte de Xichen, ele ergue a cabeça, confuso.
Lan Xichen é um homem fraco e talvez, apenas talvez, ele esteja com a boca aberta agora. Você poderia culpá-lo quando, à sua frente, olhos ametistas o espionam por baixo de um mar de cabelos, bochechas coradas e lábios brilhantes e igualmente vermelhos? Não, você não pode!
Jiang Wanyin sempre foi uma beleza a ser reconhecida, mesmo quando sua expressão transmite a mais pura irritação e escárnio na maior parte do tempo, ele ainda é lindo. Agora, no entanto, parece que ele atingiu um nível de beleza; um que Xichen não sabia que era humanamente possível se alcançar. Como esse homem está em quinto na lista de cultivo, é algo que o Lan nunca entenderá.
Os dedos de Lan Xichen coçam com uma vontade que há muito ele perdeu, imergida em memórias dolorosas que prendiam seus pulsos como amarras de ferro e asfixiam suas vontades criativas. Ele deseja pintá-lo; eternizar a beleza imensurável do homem à sua frente com a tinta mais cara, na melhor tela que o ouro possa obter. Seus ancestrais podem perdoá-lo por sua indulgência.
Lan Xichen respira profundamente. "Jiang Wanyin", ele começa, dando um passo à frente. "Deixe-me pintá-lo."
Para seu crédito, o outro Líder da Seita não o eletrocuta até a morte com Zidian imediatamente. Ele apenas olha, pisca, e olha com uma intensidade que faz o Lan desejar ser chicoteado — e não é porque ele acha sexy, confia.
"O que?" É tudo que ele diz, depois de tortuosos segundos em silêncio profundo.
"Uh", Lan Xichen diz, brilhantemente. Ele não esperava uma reação tão calma, o que o deixa ainda mais inquieto. "Eu— bem. Deixe-me pintá-lo. Ou melhor, permita-me pintar um quadro. Seu ."
A cabeça do Jiang pende para o lado e, se não estivesse tão apreensivo agora, Xichen talvez estivesse em meio a mais um ataque de devaneios sobre como é uma ação tão adorável. Os olhos ametistas encaram o chão brevemente, mas logo estão de volta no rosto do Lan.
"Por que?" Jiang Wanyin cruza os braços sobre o peito, olhando para o lado. "Eu não sou um modelo, Zewu-Jun. E tampouco classificado para ser um. Não seja ridículo."
É a vez de Lan Xichen de pender a cabeça, desordenado e estupefato porque, com todo respeito, que porra é essa?
Seus olhos varrem rapidamente a postura do outro homem e o insight desperta sua mente como um raio furioso. Acontece que Jiang Wanyin não está de braços cruzados realmente, não daquele modo que torna sua postura mais agressiva e aterrorizante; ele está abraçando a si mesmo.
"Porque você é lindo", Xichen diz, simples e direto. O olhar que Wanyin lhe dá, aturdido e cético, é a indicação perfeita de que sua escolha é certa. Talvez, percebeu o Lan tardiamente, conter seus pensamentos sinceros havia sido um erro terrível da sua parte. "Classificação?", ele pergunta, dando um passo corajoso à frente. "Quem disse que existe? E mesmo que sim, você se encaixaria em qualquer uma!"
Jiang Wanyin zomba. "O estimado Zewu-Jun me viu rapidamente de cabelo solto e agora me acha bonito?" O Líder da Seita mais jovem solta uma risada de escárnio. "Que conveniente. Devolva a fita, Líder da Seita Lan."
"Não", Xichen dá mais um passo à frente. "Não para a fita e não para o que você acha que é verdade. Jiang-Zongzhu, acredite nesse Líder da Seita quando ele lhe diz que não é de hoje que o acha lindo." Estando tão próximo, é possível ver o tremor frágil do queixo alheio. O Lan prossegue da forma mais gentil que pode, ciente de que se assustar demais o homem mais jovem, ele fugirá completamente. Xichen já chegou até aqui, então ele irá até o fim. "Cabelo solto, rabo de cavalo ou coque; você continua sendo o homem mais bonito para mim."
O outro Líder da Seita vira o rosto, o movimento fazendo com que seu cabelo deslize e esconda sua expressão. "É algum tipo de piada, Lan Xichen?" Wanyin pergunta, sua voz baixa soando tão dolorosamente traída. "Wei Wuxian o convenceu a isso? Confesso que eu esperava mais de você, Lan-Zongzhu."
"Pelos deuses, Wanyin, é claro que não !" Xichen finda a distância que sobra; sua mão, a que contém a sedosa fita roxa, impulsiona-se em um ato de desespero e pousa sobre a bochecha macia do Jiang. Ele pressionou a palma contra a tez, compelindo o outro homem a olhá-lo novamente. O que ele vê parte seu coração e dispersa a mágoa crescente em seu peito. Wanyin lança o olhar mais devastador que o Lan já viu em seu rosto, borda dos olhos vermelhos e cílios suspeitosamente úmidos. "Eu nunca faria algo desse tipo com ninguém, muito menos com você , Wanyin. Por favor, acredite em mim!"
Jiang Wanyin fecha os olhos, respirando profundamente. "Eu não entendo, Xichen."
Xichen sorri, mesmo que o outro não possa ver. Ele passa o polegar pela pálpebra fechada, removendo as delicadas gotículas salgadas que se prendem teimosamente aos fios curtos. Com a mão livre, o Lan segura a mão do Jiang e a ergue lentamente. Wanyin abre os olhos no exato momento em que o homem mais velho beija os nós dos seus dedos, terno e reverentemente.
"Não é complicado, Jiang-Zongzhu", Xichen olha para ele, sujeitando todos os sentimentos reprimidos em suas íris. Ele põe e pressiona a mão do Jiang contra seu peito, sentindo a calidez da palma mesmo através de todas as camadas de roupa. "Eu sou um artista, Jiang Wanyin. Reconheço e aprecio a arte. Eu crio arte." O Lan acaricia suavemente as maçãs do rosto alheio com delicadeza, encantando pela maciez. "E você, Sandu Shengshou… você é arte ."
O Líder da Seita Jiang, com sua postura altiva e inabalável, o observa atentamente; seus olhos faiscando com uma intensidade capaz de eletrizar até o mais frágil dos homens. É um teste, mas também um desafio. Para a sorte de ambos, Lan Xichen não é um homem fraco ou impotente. Ele é determinado e conhece seus desejos, aqueles que sempre almejou — mesmo que tenha tardado a se permitir saciá-los.
"Deixe-me pintá-lo, Jiang Wanyin", reitera. "Por favor."
"Isso é realmente sobre pintura, Zewu-Jun?" Jiang Wanyin indaga, a voz baixa e áspera.
"Sim e não", Xichen sorri e segue o movimento da garganta do outro com olhos subitamente famintos quando ele engole audivelmente. "Sim, caso seja tudo que está disposto a me permitir ter."
Wanyin sussurra: "E o não?"
"O não…", Xichen cicia e se aproxima até que ambos peitorais estejam grudados. A mão do Jiang permanece presa entre os dois. "Não, caso seja permitido fazer o que desejo."
"Eu preciso saber do que se trata, Zewu-Jun", Jiang Wanyin cantarola, a mão livre serpenteando morosamente pelo braço do Lan. "Dê-me uma amostra e talvez eu aprove."
Xichen sorri, seu coração retumba louca e profusamente em seu peito contra a palma que o pressiona firmemente. Ele se inclina até que suas respirações sejam meras extensões uma da outra; falhas e ardente contra seus rostos a meros centímetros. O toque de seus lábios é fugaz; um roçar açucarado, uma prévia e uma demonstração.
Jiang Wanyin suspira. "Insuficiente", ele emite. Sua mão, que atualmente repousa sobre o ombro largo de Xichen, eleva-se até a nuca do Lan; seus dedos pressionam a carne e o puxa para mais perto. "Preciso de mais do que isso para ser convencido, Lan-Zongzhu."
"Perdoe-me", Lan Xichen diz. "Esqueci que Jiang-Zongzhu é um homem meticuloso."
Com ternura, ele desliza o polegar sobre o lábio inferior de Wanyin, instigando-o à abertura de sua boca, o que ele faz sem qualquer resistência.
E então, Lan Xichen o beija.
O beijo é fleumático a princípio; uma dança calma e mélica de lábios curiosos, conhecendo-se sem afobação. E, ainda assim, trouxe a Xichen a sensação de ter a alma incinerada de novo, de novo, e de novo. Seu coração, em um retumbante furioso de adrenalina, estava deixando-o tonto com sua corrida implacável e com as mãos trêmulas e molhadas — no entanto, não o suficiente para aplacar o Lan. Pelo contrário, dobra seus esforços em mostrar, calma e carinhosamente, a felicidade, adoração e a afeição que vibra furiosamente dentro dele com o tão almejado beijo. Que sempre vibrou.
Lan Xichen infiltra os dedos nos fios escuros do cabelo do outro Líder da Seita; madeixas e seda acariciando sua palma conforme ele desliza os dedos facilmente entre os tufos, deliciando-se com a sensação macia, antes de aprofundá-los contra o couro cabeludo e induzir a cabeça de Wanyin na direção oposta. A ação causa um som baixo e estrangulado de algum deles — talvez de ambos, não há certeza absoluta alguma agora — e então seus lábios estão se esmagando de forma mais desesperada e faminta, e ambas as línguas se encontram no meio do caminho.
A boca do Jiang é divin a. Nenhuma das suas inúmeras — foram incontáveis, acredite — fantasias chega aos pés da realidade. Carnudos e macios, quentes e com densidade agradável; há um gosto singular de morango, tornando-o, à letra, delicioso. Xichen passa a ponta da língua contra o lábio inferior, ronronando de satisfação com a textura, o gosto e—
"Wanyin", ele respira e depois engasga terrivelmente ao se afastar minimamente do rosto alheio. "O que é isso?"
Jiang Wanyin abre os olhos lentamente, lançando-o um olhar de sereia através dos longos cílios; pupilas dilatadas e notoriamente famintas. "Finalmente notou, Zewu-Jun?", ele diz, passando a ponta rosada da língua sobre os lábios. "Apenas um truque; deixa os lábios úmidos e tem um gosto muito bom, não acha?"
Lan Xichen fecha os olhos e estremece quando unhas bem aparadas raspam a lateral do seu pescoço. "Sim", ele ofega. "Tem gosto de morango. Mas por quê?"
Quando o silêncio é tudo que recebe como resposta, ele abre os olhos. As bochechas de Jiang Wanyin inflamam em um vermelho profundo e seus olhos estão presos na garganta do Lan, desfocados e desatentos — não realmente vendo, apenas olhando.
"Wanyin?" Xichen chama, apertando suavemente a cintura do mais novo.
Jiang Wanyin respira profundamente. "É um truque usado para… chamar a atenção", ele sussurra e desvia os olhos timidamente. "De alguém."
O Lan pisca, pisca e pisca, sua mente confusa e incrédula. Não há como o Líder da Seita Jiang ter feito algo tão audacioso por ele … certo? Seu dedo está pressionando os lábios do outro homem antes mesmo que sua mente possa raciocinar devidamente, sentindo mais da consistência viscosa que permanece teimosamente ali. Sua boca também está carregada com a textura.
"Quem?" Xichen pergunta e a esperança torna seu timbre quase esganiçado. "Wanyin, quem é a pessoa que você pretendia chamar a atenção?"
Jiang Wanyin lança-lhe um olhar bastante injuriado, fazendo as suas orelhas queimarem de vergonha, mas não há arrependimento real pois, logo em seguida, as lindas maçãs do rosto do homem mais jovem ficam ainda mais rubras. É adorável de se ver e faz Xichen querer beijá-lo outra vez — o que ele faz, só porque ele pode.
"Não é complicado, Lan-Zongzhu", ele diz, reproduzindo a mesma fala que o Lan anteriormente. Sua mão cobre a de Xichen, guiando-a até o próprio peito; sob o coração pulsante. "Mas não é tão eficaz já que a Primeira Jade, um artista , demorou tanto para perceber", Wanyin suspira com falso aborrecimento. Antes que Lan Xichen possa compreender com exatidão as implicações em sua fala, ele prossegue: "De qualquer modo, se soubesse antes que era necessário apenas soltar o cabelo para arruinar sua conduta Lan, teria feito há meses."
Lan Xichen estremece, choraminga e afunda o rosto no ombro largo do outro homem no tempo de um único batimento cardíaco. Jiang Wanyin ri suavemente, o som ressoando por todo o corpo do Lan devido a proximidade de ambos. Eles se abraçam desajeitada e fortemente, não ousando quebrar o breve momento tranquilo.
"Perdi tanto tempo", ele lamenta. Xichen relembra todas as ocasiões onde almejou afundar nos braços do outro, assim como está fazendo agora, e beijá-lo com todas as suas forças. Ou apenas embalar o Jiang em seus braços e fazê-lo lembrar que ele também é um ser humano que merece ser cuidado e amado, adorado e venerado. Sua reclusão teria sido muito menos atormentada se tivesse apenas a certeza absoluta que Wanyin estaria ao seu lado.
Seus pensamentos são dispersos pelo toque firme de dedos ásperos contra sua nuca. Xichen ergue a cabeça, bem a tempo para vivenciar o momento em que Jiang Wanyin segura uma mecha de seus cabelos com a mão livre e a leva até os lábios, beijando-a enquanto o olha diretamente; íris ametistas brilhando com anseio, paixão e reverência. O coração do Lan se expande terrivelmente e depois afunda subitamente, é quase doloroso e ainda assim, é bom.
Lan Xichen acabava, encurralando o outro Líder da Seita contra um grande tronco de árvore e reivindica sua boca em outro beijo profundo, engolindo e saboreando o gemido de resposta que escapa. Wanyin, por sua vez, envolve os braços ante os ombros largos do mais velho; puxando-o conforme corresponde o ósculo nutrido de desespero, desejo e fome.
Eles se beijam até que suas bocas estejam doendo devido ao esforço, suas respirações ofegantes e lábios inchados. Um deles, talvez tenha sido Wanyin, pisa em uma raiz alta e molhada, ocasionando nos dois escorregando de forma patética e ridícula.
Xichen, apesar da surpresa, age rapidamente e os gira de modo com que suas costas seja a que atinge o chão em um baque audível, com o Jiang em cima de si. Um silvo de dor escapa de seus lábios, mas é abafado pelo suspiro mais alto que vem de Wanyin.
"Porra", ele ergue o rosto, "você está bem?"
"Sim", Xichen respira fundo. Ele é um cultivador, uma queda como essa não é nada para ele. "Não imaginei que seria por um tombo que você estaria em cima de mim."
"Lan Xichen!" Jiang Wanyin não guincha, mas é quase isso. "Sem vergonha." O Líder da Seita mais jovem tenta se levantar, mas os braços do Lan permanecem em sua cintura como ferro pesado, impossibilitando sua fuga. "Solte-me, seu idiota. Agora!"
"Yìshù", Lan Xichen cantarola e sorri quando o homem em seus braços congela, aproveitando a oportunidade para depositar um selar rápido em sua testa. "Sh, está muito confortável assim!"
O outro homem pisca, cora e franze a testa, saindo do torpor. "Ridículo, quem está confortável?", ele rosna, tentando erguê-se mais uma vez, o que ainda é inútil. "Maldita força de braço Lan."
Lan Xichen ri, exultante. Repentinamente, ele aperta mais os braços em volta da cintura alheia e move-se para o lado, trocando as posições dos dois. Jiang Wanyin sibila perigosamente, mas suas possíveis ameaças são engolidas pela boca implacável e gananciosa do Lan — por ventura ele cede, é claro, deixando-se ser beijado e beijando Lan Xichen com o mesmo nível de necessidade e ambição.
O Lan morde e lambe o inferior do outro, deleitando-se com o sabor doce que persiste em ficar ali; seu ego infla com a informação que é uma exibição para chamar a sua atenção. Xichen se afasta minimamente, o que resulta em uma lamúria do Jiang e uma perseguição de sua boca — acarreta em uma expressão sisuda adorável, que leva o Lan a beijar suas bochechas como um homem louco.
"Você é delicioso, Wanyin", Xichen arrulha, deslizando os lábios até o queixo anguloso. "E tão, tão lindo!"
A princípio, Jiang Wanyin apenas o olha com exasperação. No entanto, a contração no canto de seus lábios leva a melhor sobre ele; um sorriso deslumbrante e largo surge. Xichen se afasta um pouco, apenas o suficiente para contemplar todo o perfil do maravilhoso homem abaixo de si. A claridade do dia destaca maravilhosamente a pele bronzeada do Jiang; a seda roxa e cara que abraça suas curvas com plenitude estão um pouco amarrotadas e levemente abertas na região do peito, deixando uma quantidade pecaminosa de pele exposta; os cabelos espalhados pelo solo como um cobertor obsidiano.
O sorriso de Jiang Wanyin torna-se tímido quando ele percebe o que Lan Xichen está fazendo, um tom rosa suave polvilhando as maçãs do seu rosto. Ele abre e ergue os braços em um apelo convidativo inconfundível. Xichen vai, é claro; ele se enfia entre os braços fortes do outro, tomando sua boca em mais um beijo extasiante e ardente, impondo, de modo inconsciente, força na cintura do Jiang além do que uma pessoa normal poderia suportar — mas Jiang Wanyin é um dos cinco maiores cultivadores do Jianghu, o Líder da Seita mais jovem a reerguer uma seita das cinzas; é Sandu Shengshou, um herói de guerra; ele é Jiang Cheng, o homem mais forte que Xichen conhece. Tudo que lhe sucederá é uma impressão perfeita da mão do Lan, como uma tatuagem em sua derme.
Jiang Wanyin ofega contra os lábios alheio, sua mão brincando e puxando os cabelos de Xichen; a ação tão próxima a fita da testa que a seda coça contra a testa do Lan. Ao fundo, alguém pigarreia severamente. Ambos, ainda emaranhados e no chão, erguem a cabeça para o ser indesejado com expressões gêmeas de desagrado — expressões essas que tornam-se de horror ao notar quem é o intruso.
Lan Qiren observa, com clara exasperação, os dois enquanto acaricia a barba.
Desta vez, quando Jiang Wanyin empurra Xichen, ele simplesmente é lançado para o lado — depois , o Lan faz um lembrete mental de verificar melhor essa força secreta do Jiang. Os dois se ajoelham como dois juniores, pegos em meio a travessuras proibidas. É quase cômico como dois Líderes de grandes Clãs abaixam a cabeça em obediência, mãos cruzadas recatadamente no colo. Suas aparências, todavia, não se assemelham em nada com as de suas posições.
Wanyin tem os cabelos soltos e rebeldes, embaraçado além da salvação dos seus dedos, pétalas e folhas presas aos fios. As vestes estão sujas nas bordas e nas costas, terra, neve e água deixando-as úmidas também. As vestes brancas de Xichen estão injustamente mais limpas do que as do Jiang, no entanto, com apenas as costas contendo amassados e resíduos de terra. Até mesmo seus cabelos estão mais recatados, apenas com alguns emaranhados e sua fita está levemente torta, mas nada absurdo.
"Grão Mestre Lan", Jiang Wanyin respira fundo, mas não ergue o rosto; suas bochechas carmim escondidas parcialmente pela franja. "Isso— nós apenas…"
"Eu sei o que é isso , Jiang-Zongzhu", Seu tom é contundente, mas Xichen consegue perceber a falta de calor real por trás disso. Jiang Wanyin, por sua vez, não parece perceber esse fato. "Como líderes de prestigiosas seitas, eu esperava mais de ambos. E Xichen, como meu sobrinho e um Lan, você deveria saber melhor."
"Perdoe-me, Shufu", ele diz, condescendentemente, e espia o outro Líder da Seita pelo canto dos olhos. Jiang Wanyin parece menor de alguma forma; seus ombros retraindo-se, sua expressão ainda mais obscurecida pelos seus cabelos agora que sua cabeça está quase baixa o suficiente para tocar o chão.
"Conduza suas desculpas a Jiang-Zongzhu, Xichen." Lan Qiren desvia o olhar para o lado, suas mãos entrelaçadas nas costas. Ele parece contemplativo, alheio ao tormento e confusão que causa em ambos os homens ajoelhados. "É inapropriado fazer tais atos libertinos sem o cortejo adequado; pensei tê-lo ensinado melhor."
Lan Xichen sente-se caótico, exposto a céu aberto para ter suas engrenagens fritadas a ponto de nunca mais serem reparadas. Pelo olhar no rosto de Wanyin, ele se sente do mesmo modo.
"Além do mais", Qiren prossegue. "Como pôde demorar tanto? Até mesmo Wangji correu atrás do… inadequado Wei Wuxian." O Grão Mestre se move, pronto para dar-lhes as costas. "Quase deixou um bom homem escapar. Fingirei que não vi a cena inapropriada, mas aguardo uma carta de solicitação de namoro oficial até o final do dia na minha mesa."
E com isso, ele parte de modo gracioso e leve, cabeça e ombros erguidos.
Jiang Wanyin engasga ruidosamente, o corpo pendendo para o lado quando a tensão se dissipa. "Bem. O que—", ele tenta, em um sussurro atordoado. "Que porra aconteceu, Lan Xichen? Seu tio me deu… a bênção dele? Lan Qiren? "
"Yìshù", diz Xichen, igualmente estarrecido. " Eu quem recebeu a bênção do meu tio para cortejar voc ê." Ele ri, baixo e divertido à medida que puxa o Jiang para um abraço apertado. O Lan arrasta a ponta do nariz pela bochecha do mais novo, saboreando a junção de cheiro de lótus e petricor. "Wanyin, Shufu sempre o adorou como aluno; você era o favorito dele na época. Ele vibrará de felicidade se chamá-lo de Yuèfù algum dia", Xichen sorri. "Na medida que as regras permitem, claro."
"Você seria a esposa?" Wanyin pergunta, distraidamente acariciando as madeixas do Lan. "Espere, isso não é importante. Eu achei—"
"Sandu Shengshou", Xichen o interrompe, plantando um beijo casto em seu queixo. "Jiang-Zongzhu", ele continua, selando a ponta do nariz bonitinho. "Jiang Wanyin", mais beijos, em ambas bochechas. "Jiang Cheng", por fim, nos lábios carnudos e macios. Rápido, mas igualmente doce e cheio de carinho. "Não acha que eu seria um Jiang-Furen excelente?" Xichen sorri brilhantemente, apaixonado pelo rubor característico nas maçãs do homem carrancudo em seus braços. Há um vinco suave entre as sobrancelhas retas, porém, que o Lan pressiona suavemente o polegar. "Você é digno de felicidade e de coisas boas, Yìshù", ele diz, um pouco mais sério agora. "Você, Jiang Cheng, é o ser mais digno dessas coisas e eu sou apenas sortudo por ser a pessoa que lhe fará ver isso."
Jiang Wanyin pisca furiosamente, afastando as gotículas de água que chegam à beira de seus olhos.
"Wanyin", Xichen cantarola, evidentemente consciente de que sanou todas as dúvidas internas do outro Líder da Seita, ao menos por enquanto.
Jiang Wanyin respira fundo. "Sim, Huan-ge?", ele ataca e Lan Xichen sente profundamente na sua alma. O mais velho pressiona uma sequência de selinhos afeiçoados por todos os locais disponíveis à altura de seus lábios quase que imediatamente, inundando o mais novo com beijos até que os dois estejam mais uma vez caindo sob o chão úmido. "Espere, Xichen— Lan Huan!"
"Yìshù, vamos pular para o casamento!" Xichen diz, pressionando todo seu peso corporal sob o outro homem, aterrando-o no solo e não lhe dando a misericórdia da fuga. "Nos conhecemos há quase três décadas e eu sei que o amei em todas elas, por que perder mais tempo?"
Wanyin olha para o rosto de Xichen e, se ele procura o mínimo indício de incerteza, ele encontra apenas sincera obstinação. "Sou um homem, Xichen", ele murmura. "Não posso lhe dar herdeiros."
Lan Xichen sorri, inclinando-se para depositar um beijo casto e célere nos lábios do Jiang. "Eu sei, e eu já tenho um herdeiro em formação. Lan Jingyi."
"Que os deuses ajudem Gusu Lan", Wanyin escarnece com um sorriso cáustico. A brincadeira retira um pouco da tensão que paira entre ambos, mas não totalmente. "Não posso me casar com sua Seita."
"Como eu disse, acho que eu faria um papel excelente como Jiang-Furen", Xichen ergue uma sobrancelha em diversão óbvia, mas logo volta a seriedade. "Eu nem ousaria pedir que deixasse o Píer Lotus, Yìshù. Na verdade…", ele faz uma pausa, desviando os olhos. "Estou induzindo alguns assuntos menos complexos a Jingyi para salientar sua posição e conhecimento, pois pretendo passar o manto para ele em cinco anos ou, com sorte, menos. Pretendo me aposentar da liderança e gostaria de, em seguida, seguir para a casa do meu marido."
Jiang Wanyin fecha os olhos, perdendo a expressão nervosa que se apodera do rosto de Xichen. Ele espera pacientemente, mesmo que seu coração gagueje a cada arrastar torturante de segundos que se transformam em minutos. "Wanyin?", ele chama, incerto.
"Mn", o Jiang cantarola suavemente, abrindo os olhos com lentidão calculada. E sorri, então, lindo e afetuoso; ele prende uma mecha do Lan atrás da orelha com reverência e veneração, acariciando o lóbulo rosado com a ponta dos dedos. "Huan-ge", Wanyin chama suavemente. "Você acha que Yuèfù gostaria de um casamento no verão?"
Lan Xichen sentiu, antes de absorver a inferência na fala do outro, um puxão suave na fita em sua testa; o tecido cedeu com nula resistência, caindo diretamente na mão do Jiang. Wanyin sorriu ainda mais, levando a seda aos lábios e beijando-a, à medida que olhava fixamente para os olhos castanhos do Lan.
"Sim", Xichen forçou a resposta através da garganta seca, um contraste gritante com seus olhos úmidos. "O Píer Lótus no verão é lindo", ele sorriu, ignorando as lágrimas persistentes que resvalam em suas bochechas.
Lan Xichen avança sem restrições, tomando com mãos e lábios o que, agora, é seu .
Eles permanecem abraçados no chão pelo que parecem horas, seus trabalhos e obrigações do dia esquecidos em uma pilha fútil de afazeres não menos importantes, mas irrelevantes em consideração de tal momento.
Agora, eles são apenas Lan Huan e Jiang Cheng; dois sobreviventes do passado desolador que tirou muito de ambos, menos a vontade de seguir em frente e a disposição de tentar e tentar, até alcançar a satisfação da plenitude — talvez eles nunca encontrem a real felicidade, não completamente e tampouco no mundo mesquinho em que vivem, mas é suficiente ter um ao outro.
