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Deméter suspirou, apoiando o rosto nas mãos enquanto encostava em seu trono.
Estava um lindo dia lá fora, com o Sol brilhando intensamente, o céu claro, os pássaros cantando lindas melodias. Estava perfeito, isto é, caso você estivesse aproveitando o calor do lado de fora, e não preso em uma enfadonha reunião do Conselho dos Olimpianos, como Deméter estava.
Não entendo mal, ela sabe que as reuniões são importantes, até certo ponto. Deméter pode suportar as conversas chatas e repetitivas dos outros deuses sobre seus trabalhos, mas o que ela não pode suportar é ficar mais um minuto nessa sala fechada tendo que escutar enquanto eles discutem futilidades outra vez. Se ao menos fossem futilidades novas, mas não, são as mesmas ladainhas inúteis de milênios atrás.
Como sempre, Zeus e Poseidon estão discutindo sobre qual desastre é o melhor: os aéreos, ou os marítimos; e de quem a mãe deles, a Titã Rhea, gosta mais. Suas irmãs, Hera e Héstia, claramente desistiram de tentar fazer com que elas se dessem bem e passaram a ignorá-los e conversar entre si sobre os novos casamentos do momento. Às vezes, Deméter não pode deixar de pensar que, de todos os seus irmãos, ela é a mais normal.
Visto que ainda não houve mudança nos mais velhos, ela volta seu olhar para seus sobrinhos.
Os gêmeos, Ártemis e Apolo, estão mais uma vez brigando sobre qual deles é o gêmeo mais velho, com Hermes se intrometendo em determinados momentos para atiçar a discussão quando parece que eles vão parar.
Hefesto está quieto em seu assento, sem prestar atenção em nada além da pequena sucata que tem em mãos, seu projeto do momento, enquanto sua esposa, Afrodite, flerta descaradamente com Ares, meio gravado no colo dele. É quase pornográfico , pensa Deméter observando-os.
Athena estava quieta em seu trono, com um livro em mãos, e uma pequena pilha no chão. E Dionísio, como em todas as reuniões, está muito ocupado lendo uma de suas revistas sobre vinhos.
A deusa suspirou outra vez, voltando seu olhar para os imensos campos de trigo que podiam enxergar de seu trono no Monte Olimpo, desejosa.
PING!
O barulho imediatamente chamou a atenção de todos os deuses, que voltaram seus olhares para Hermes, que pegava a encomenda recém recebida com curiosidade, afinal, os deuses não recebiam muitas cartas ainda mais de mortais comuns. Interessante.
Virando a carta em mãos, ele levanta os olhos ao ver o nome escrito.
– É pra você, tia Deméter - Ele entrega a carta a deusa e volta a se sentar.
Finalmente alguma coisa interessante! Ela pensa aceitando a carta de seu sobrinho. Quem será que mandara uma carta a ela? Ao virar a carta para ver seu nome escrito atrás, a empolgação a preenche. Ela reconheceria aquela letra em qualquer lugar! Com pressa, ela praticamente rasga o envelope e arranca a carta de dentro, abrindo e imediatamente olhando para o final da carta, para a assinatura.
– Oh, é da minha Perséfone! - Ela exclama com alegria
– Pois leia, irmã - Héstia sorri gentilmente.
– Em voz alta, de preferência.
Apesar da cotovelada que Apolo recebeu da irmã pelo comentário, nenhum outro deus o repreendeu, todos muito curiosos para saber o conteúdo.
Foi com prazer que Deméter começou a ler para todo o salão.
“Querida mãe,
Estou escrevendo a você para contar-lhe a novidade e também para pedir um favor. Você agora é vovó!
A boca da deusa se escancarou em choque enquanto a sala se enchia de gritos de parabenização e comemorações por um novo membro da família.
Deméter não podia acreditar. Avó! Oh, ela estava tão feliz, sua filha devia estar tão linda grávida. Como Deméter queria que sua Kore estivesse aqui com ela agora para que pudesse abraçá-la. Ela mal podia esperar para ter o neto em seus braços e apertá-lo e …
Um pensamento lentamente se infiltrou em seu cérebro e interrompeu sua felicidade. Essa criança, obviamente, é um filho de seu irmão mais velho, Hades, o que significa que talvez ela não vá ver seu neto tão cedo.
Seu rosto se fecha em uma carranca.
– Qual o problema irmã? Não deveria estar feliz com a notícia? - Poseidon perguntou preocupado.
– Claro que estou, mas acabou de me vir à cabeça que não poderei aproveitar meu neto como deveria.
– E por que não? - Zeus não entendia como exatamente ela chegara aquela conclusão, afinal Perséfone passava seis meses aqui com eles. Athena olhou para o pai com uma cara de quem não conseguia acreditar que tinha perguntado algo tão óbvio.
– Pois é um filho de Hades, irmão, e caso tenha esquecido, baniu ele à ilha e agora a pobre criança está presa lá, pois duvido que o Rei mortal o deixará sair sendo filho de um “vilão” - Ela ironizou.
Deméter, assim como Poseidon, tinha sido uma das que se pronunciara contra a prisão de Hades. Mas, diferentemente do irmão, foi principalmente por causa de sua filha, que passaria a ficar muito longe dela.
Zeus fez uma careta com o lembrete, mas nada disse, principalmente vendo os olhares de repreensão que Poseidon e Héstia lhe mandavam.
– Oh, pobrezinho - Afrodite se pronunciou.
– Ou pobrezinha - Foi o comentário de Ártemis.
– Não se preocupe, tia, tenho certeza de que tudo vai dar certo - Apolo sorriu serenamente para a deusa mais velha.
Deméter respirou fundo para se acalmar e não bater em Zeus e continuou lendo.
Eu sou mãe de um lindo garotinho de três anos.
Afrodite lançou um olhar presunçoso para Ártemis, o qual esta ignorou.
Deméter arrulhou internamente, três aninhos! Mas, espera aí..
– Três anos? Achei que ela estava grávida.
– Ela pode ter adotado - Foi a contribuição de Athena.
– Talvez - Foi a resposta incerta da recém nomeada vovó.
– Isso é um problema, irmã? Acha que amará menos o garoto se for adotado? - Héstia perguntou calmamente.
– O que? Mas é claro que não! Como pode me perguntar isso?
Agora, ele não nasceu de meu ventre, mas isso não muda o amor que sinto por ele. E antes que comece com o drama mamãe, não, o senhor meu marido não me traiu,
Deméter imediatamente fechou a cara.
– Então ele é um filho de Hades. Mas não de minha filha.
– Paz irmã, tenho certeza de que há uma boa explicação, afinal, minha sobrinha mesmo disse que ele não a traiu - Acalmou Poseidon, trocando um olhar com Zeus. Athena fez uma cara azeda por pensar igual à Poseidon.
Hera tinha o rosto franzido, sem saber o que pensar. Por um lado, Perséfone disse que Hades não a traiu, mas por outro, esse menino é um bastardo, uma criança fora do casamento, e isso vai contra os domínios de Hera.
Héstia e Ártemis pareciam satisfeitas ao saber que a deusa não culpava a criança pelo seu nascimento, não só isso, mas também que o amava. Realmente, Perséfone era preciosa demais.
Zeus não sabia o que pensar. Por um lado, esse garoto é seu sobrinho. Por outro, é seu neto também. Mas por outro, é filho de Hades, Hades que roubou seu filho Hércules e por isso foi enviado à ilha.
Ares e Hefesto não podiam se importar menos. Apolo, Afrodite e Hermes só estavam interessados na fofoca.
e sim foi abusado por uma mortal ridícula durante um momento de fraqueza.
Poseidon e Héstia pareciam preocupados com o irmão.
Não, não me importa que ele não seja biologicamente meu, qualquer filho de Hades e meu filho também.
Deméter fez uma cara azeda, mas então suspirou, resignada. Ao que parece, ela vai ter que engolir este fato se quiser estar na vida desta criança. Ao invés disso, a deusa decidiu que vai se concentrar no menino, que não tem culpa alguma. Ela é uma vovó agora! Melhor já ir começando a pensar em todas as maneiras que ela vai mimar ele com ele estando na ilha.
Ah mamãe, se você pudesse vê-lo, ele é um garoto adorável, tenho certeza de que o amaria na hora.
– Eu já o amo, querida.
Ninguém se atreveu a dizer a ela que estava conversando com uma carta.
O nome dele é Nathaniel, um nome muito bonito, assim como ele. Seus olhos são os mais azuis que eu já vi, e seu cabelo é um tom de ruivo que brilha como fogo, outro sinal de que ele é inevitavelmente meu.
– Que nome mais lindo, Nathaniel, e ele parece ser um garoto bonito, com certeza vai quebrar corações quando crescer - Afrodite parecia cada vez mais investida.
Poseidon focou na última frase lida, “outro sinal de que ele é inevitavelmente meu” parecia que era obra dos destinos, afinal. Esta criança foi feita para ser deles. Por algum motivo, o deus dos mares se sentia estranhamente protetor da criança.
Deméter tinha um olhar sonhador no rosto, imaginando como deveria ser o rostinho de seu neto.
Infelizmente, a vagabunda que lhe deu a luz (a contraparte humana da Úrsula, caso esteja se perguntando),
Poseidon engasgou e se inclinou para a frente, tão surpreso quanto chocado com a notícia. Isso certamente explicava o porquê dele estar se sentindo tão protetor do menino. Ele era vovô! Ele mal pode esperar para voltar para casa e correr contar para sua amada Anfitrite que eles são avós!
– Como assim “a contraparte humana da Úrsula”? - Hermes não era o único deus confuso nessa parte.
– Bem, é óbvio não é? - Perguntou Athena, arrogantemente. Ao ver os olhares ainda confusos, revirou os olhos e se pôs a explicar - De alguma maneira, quando foi jogada na ilha, Úrsula acabou se separando de seu alter-ego, Vanessa, aquele que ela criou para seduzir o Príncipe Eric.
– Isso significa que você também é vovô agora, tio! - Apolo disse alegremente à Poseidon, o qual inflou de orgulho.
não passava de uma cadela abusiva, além de extorquir meu marido para conseguir tudo de bom que se pode conseguir na Ilha e nos impedir de ver a criança, ela o maltratava às escondidas e o pobre menino tem várias cicatrizes para provar isso.
A cada palavra lida, o orgulho de Poseidon diminuía até acabar completamente e só restar o choque, a vergonha, a indignação e, por fim, a raiva. Como ela ousa machucar seu neto? Se Poseidon visse essa mocreia na frente dele, alter-ego de sua filha ou não, ela sentiria toda a fúria do mar descendo sobre ela!
Conforme Deméter lia, a ira ia se apossando de seu corpo, ao ponto de que ao terminar essa frase, estava tremendo de ódio. Aquela cadela maldita! Como ousa aquela desgraçada machucar seu neto, uma criança! Ele tem apenas três anos! Quando a carta terminasse, não ia ter Rei mortal que a impediria de invadir a ilha e acabar com essa mulher. Um olhar para seu irmão a deixou saber que ele estaria com ela nessa. Ótimo. Eles iam destruir essa filha da puta.
A indignação cresceu pela sala, as vozes se elevando raivosamente. As crianças são sagradas! Você não machuca uma criança. Escusado dizer que Vanessa não tinha o favor de ninguém na sala.
Mas não se preocupe, depois que eu descobri o que ela vinha fazendo, ela desapareceu de repente da Ilha, você acredita?
A satisfação cresceu na deusa, claramente visível em seu rosto.
– Essa é a minha garota! - Deméter sorriu orgulhosamente, ouvindo os outros deuses parabenizando sua filha.
Apesar de estar feliz, não podia deixar de sentir uma pontinha de decepção pelo fato de não poder ter batido pelo menos um pouco na mulher.
– Tomara que tenha sofrido bastante - Ares estava, enfim, investido na história. Finalmente estava ficando interessante e, conhecendo sua meia-irmã, ele mal podia esperar para mandar uma carta para ela exigindo todos os detalhes suculentos.
Talvez algum dia as coisas melhorem e você possa chegar a conhecer seu neto, uma criança inocente, encarcerada em uma prisão horrível, cujo único crime foi nascer no lugar errado.
Deméter e Poseidon franziram o lábio com o lembrete. Eles se entreolharam e acenaram um para o outro. Eles encontrariam um jeito de estar na vida de seu neto.
Mais uma vez, Zeus foi lembrado de que era sua culpa que seu neto estava preso na ilha. Ele, no entanto, se recusou a parecer envergonhado ou arrependido, afinal, Hades tinha merecido, e o que eram alguns anos para um deus?
Os deuses, principalmente aqueles que votaram para jogar Hades na ilha, se remexeram com vergonha e evitaram olhar nos olhos uns dos outros.
Estas foram as novidades. Quanto ao favor, gostaria que fizesse algo por mim. Preciso que atualize os nomes na lista que Auradon mantém dos filhos dos vilões, e coloque o meu nome junto com o de Hades como pais do pequeno Nathaniel. Eu pedi para oficialmente adotá-lo como meu e ele aceitou! Oh, como ele ficou feliz, não parava de rir e me abraçar e me chamar de mãe! Como eu o amo..
O coração de Deméter se encheu de carinho, mas que amor! É claro que ela faria o que a filha pediu, e com prazer ela o reivindicaria como eles.
Se puder fazer isto por mim, mamãe, eu agradeço. Espero que não seja um incômodo.
Aguardo ansiosamente sua resposta.
Com amor, sua filha
Kore”
Depois que todos se acalmaram, Deméter lentamente se estava usando, ajeitou sua roupa e se dirigiu para fora do Olimpo, com a carta firme em mãos. Afinal, ela tinha uma tarefa a fazer.
