Work Text:
- Yara.
- Ei.
Chew entrou carregando um galão com óleo e um lampião. A luz o emoldurou entre prateleiras cheias de rolos de tecido e ferramentas.
Eles estavam num quarto improvisado no segundo andar da loja dele. Era um depósito que foi arrumado às pressas quando Yara chegou, há alguns dias.
O bairro se recolhia ao som de portas batendo, das trocas de turno dos guardas e dos grupos que caminhavam à taverna.
- …’Anoitecer, - foi o que ela entendeu do murmúrio de Chew enquanto ele transferia óleo para os lampiões do cômodo. Novas fontes de luz surgiram, tornando os tecidos coloridos e Yara visíveis.
- Consegui andar mais. – Disse Yara, ainda cheia de bandagens e curativos, recostada na cama. Resistia ao repouso.
- Boa. Mas não estamos com pressa. Não se apresse.
Ela se remexeu nos lençóis de linho. Sorriu. Dentes, cabelos, lençóis, bandagens. Todos brancos. Os pontos com mais cor eram as marcas roxas, vermelhas e amarelas de contusões e cortes escapando por debaixo das vestes. E a pele cor de argila, mas que ainda tinha um aspecto pálido, sem brilho. E alguns objetos coloridos na cama que Chew não identificou.
- Eu sei. Mas eu preciso fazer isso, - Yara disse enquanto ele se aproximava.
- Você limpou essas coisas? - ele pegou um ferro de passar e novelos de lã que estavam na cama. A linha deles era grossa, verde e dourada. - Ah! Eu não lembrava que tinha isso aqui ainda. O suéter desta linha já foi comido pelas traças.
Yara riu e logo em seguida se interrompeu, tossindo. O pulmão dela ainda chiava. Se os lobisomens não a mataram, o pó do depósito a mataria.
- Estou buscando um pouco de estrutura. Algo para fazer todos os dias. E também quis fuçar na sua loja de qualquer jeito, independente disso. Mas exagerei, mexi demais.
Ela tossiu de novo.
Chew pensou no que os montes de cadernos, metais e panos dele significavam para alguém de fora que os visse pela primeira vez. Ergueu o lampião para um guarda-roupas aberto cheio de sobras de couro e o fechou. Para ele eram apenas as coisas . Sem mágica, sem curiosidade.
- Ainda acho cedo, mas amanhã podemos andar pelo quarteirão. Entregar umas coisas dos clientes. Aí você treina andar mais e lembra de como é um mundo sem esse pó.
- Feito!
Chew sorriu ao entusiasmo imediato dela. Piscou para ela e voltou ao miolo do cômodo, para mexer nas estantes.
- Chew? – ouviu Yara chamar, enquanto ele retirava uma caixa de tesouras de cima de uma prateleira. Modelos antigos, que ele comprara de viajantes e em alguns cursos.
Ele parou de se mexer, com a caixa cheia de lâminas pendendo perigosamente pouco acima da cabeça. - Sim?
- Há quanto tempo você trabalha aqui?
- Hum. Desde criança eu modifico roupas, eu achava legal. Uma hora eu estava arrumando mais roupas do que estragando, aí começaram a me pagar e me arranjaram um mestre. Trabalhei como valete por um tempo. Não deu certo. Uma hora decidi que queria a grana de Borborema do norte, mas aí fiquei por aqui mesmo, e eles que venham até mim. - gesticulou na direção das janelas, por onde se via a muralha de Borborema do norte. O bairro dos nobres.
- E este moinho? Sempre foi sua loja?
- Já foi só um moinho. Estava quebrado e acabado, um preço baratíssimo. Trabalhei uns anos para comprar o moinho e reformar umas coisas. Meus pais ajudaram com parte do dinheiro. Saiu mais barato do que outra casa da cidade, mas foram anos muito longos, Yara.
Ele bateu o dorso dos dedos na prateleira, no ritmo de alguma música de ninar que escapou da memória de Yara. Olhava para o teto e paredes.
- Não construí quase nada disso. Contratei um engenheiro e pedreiros do bairro, eu vinha pra morar nos cômodos que já estavam prontos e comer alguma coisa antes de voltar ao trabalho. Às vezes eu dormia fora porque não aguentava mais ouvir o moinho e as marteladas. Irônico.
Yara pensou nos dias que havia passado ali. Chew ou estava em absoluto silêncio nas áreas comuns da casa e na parte de alfaiataria, ou estava fazendo barulho no moinho e na ferraria.
O resto da casa era decorado com camadas e barreiras de cortinas e tapeçarias que abafavam o som. Imagens de plantas, nuvens, padrões geométricos e animais. O rugir do moinho soprando a forja e movendo as máquinas virava uma coisa suave que você sentia nos ossos, vibrando a casa inteira.
Uma vista da forja de Chew, que desenhei para acompanhar a história deles.
- Quando desligo as máquinas e encerro o dia, parece um peso que vai embora. Mas aí há dias que não consigo dormir mais sem o ruído. - Ele batucou na prateleira de novo. A casa continuou rugindo.
Chew se aproximou, colocou a caixa de tesouras numa mesa e estendeu o braço cheio de finas cicatrizes e falhas nos pelos. Começou a remexer na caixa.
- Onde está seu mestre? Algo aconteceu?
- Foi para Borborema do norte. Todo ano ele fala que vai se aposentar, e aí alguém pede um trabalho absurdo para ele.
- Suas armaduras não são trabalho de iniciante. Como é que você começou a fazer essas coisas? E aquelas armas lá em baixo?
- Foi o Zeke, da ferraria. Da outra ferraria. Ele quis ver o que eu sabia fazer e se divertiu com meus vícios de técnica. Falou que parece que eu bordo metal e até hoje não sei se foi elogio. Resolveu me dar umas aulas, aí trocamos uns favores e clientes. Hoje faço umas peças de metal decentes e entro em cena quando a demanda dele é alta e ele quer dividir umas coisas. Mas sou melhor com armaduras e objetos domésticos do que com armas. É outra especialização, outra área.
- E ele aprendeu a costurar?
-Sim, são ofícios que se casam bem. E aí é que está. Eu e ele juntos, mais os nossos aprendizes, conseguimos reparar quase todo o equipamento e roupas de soldados, nobres e suas famílias. Acabamos virando parceiros e nossos negócios cresceram.
- Suas peças são muito belas.
Ele se desconcertou e coçou a cabeça, enquanto remexia na caixa.
- Gentileza sua. E Chip me ajuda também, é aquele aprendiz que - uma lâmina cortou o dorso da mão dele.
O corte virou uma linha vermelha fina, depois grossa, e dali as gotas de sangue caíam na caixa e nas sombras do chão, onde a luz das lâmpadas não alcançava.
Chew soltou uma exclamação de aborrecimento e levou o corte à boca. Então voltou a mexer na caixa com a mão livre, como se já estivesse acostumado com aquilo.
Aí parou e olhou Yara.
Lembrou da médica falando sobre a febre de sangue de Yara ter passado. Da possibilidade remota dela ter algum surto nas primeiras noites.
Era bom que ela dormisse em um cômodo sempre iluminado, e que não visse sangue nem carne crua por um tempo. Evitar sustos, gritos.
O sangue dele ainda era um gatilho para ela o atacar? Mesmo depois desse tempo todo?
Ele retornou ao que estava fazendo, devagar. Abriu a boca para dizer que era melhor ele ir pegar umas coisas no outro quarto.
- Ah, não! Dê-me sua mão!
- Não é nada, ei, não , - Chew reagiu, vendo-a se erguer da cama - fique aí! – Yara já o levava pelo quarto, empurrando-o pela cintura. Fez com que ele se sentasse na cama improvisada dela, empurrou os novelos verdes para o lado e começou a usar os materiais que estavam separados e esterilizados para tratar de seus próprios ferimentos.
Era um corte fundo.
Chew imaginou que tipo de coisas aquela mulher treinava na Guilda, e como ela agia numa briga. Pupilas normais, respiração sem alterações, só o chiado. Bochechas sem cor. Toque leve. Sem tremedeira, sem os sinais da febre. Ele, porém, se sentia acelerado. Nunca havia lutado contra ninguém, só apanhado.
Yara limpou e enrolou os cortes em gazes limpas enquanto ele pensava. Ela não percebeu que os pelos do braço dele se arrepiavam em cristas de tensão.
- Tem sangue na sua boca e queixo - ela examinou o rosto de Chew. - O que acha de tentar atender um cliente desse jeito, sem explicar nada?
Ofereceu a ele uma tampa de lata polida e um pano limpo que ele demorou para pegar. Na lata, Chew se viu todo gotejado de sangue.
Lembrou de se ver daquele jeito há algumas semanas.
Foi quando encontrou Yara em Guaíra. Ele e alguns mercadores a carregaram até Borborema, melando-se em lama e no sangue da desacordada.
O grupo chegou na cidade e a população se recusava a cuidar da mulher, pois ela foi atacada por lobisomens e poderia ser uma daquelas vítimas que se transforma em bicho. Sugeriram matá-la com sonífero. Que era melhor que pauladas ou o lago. Mais humano.
Yara voltou a falar enquanto ele visitava a memória dos vizinhos horrorizados. A médica trazendo o delegado e o ajudando a sedar Yara apenas para o sono, e não para a morte.
Voltou a atenção à Yara do presente, e ela havia se afastado dele.
- Desculpa. - ela dizia, - Não pensei na febre de sangue e saí mexendo na sua mão. Devo ter te assustado.
- Eu também esqueci, - ele mentiu.
- Mas já terminei. Isso deve segurar as coisas até a clínica dar uma olhada.
O ataque a fez perder peso e tufos de cabelo. Chew deixara um estojo de tesouras, pentes e coisas para cuidado pessoal ao lado da enferma, e notara que ela começou a usar tudo assim que recuperou a consciência.
Uns dias depois ela pediu um lenço para enfeitar o cabelo. Estava escrevendo cartas para provar sua identidade ao banco e contatando a Guilda dos aventureiros para confirmar que estava viva e sacar algum dinheiro.
Ele se comoveu e fez ajustes em algumas túnicas e camisas dele para ela usar. Disse que eram só umas coisas antigas da loja, e que ela poderia ficar com tudo, se quisesse.
Quando Yara começou a andar mais e conversar com o aprendiz Chip e os clientes, ela parecia um fantasminha andando pela loja. Abraçada por roupas muito grandes, passo leve. Ela disse que sabia manipular magia, e vez ou outra ele a espiara estalando fagulhas azuis nos dedos. A sombra dela pipocava na parede, ainda mais forte, maior, rápida. Aí ela voltava aos seus afazeres, parecendo impaciente.
Às vezes ele estava na forja, e aí levantava a cabeça e Yara estava passando pelo batente dos arcos com alguma comida na mão, ou olhando a ferraria.
Num dia desses, Chew ofereceu um braço para ela se apoiar enquanto voltava ao quarto, e ela disse para ele não se preocupar, pois ela alugaria um quarto ali em Borborema logo. Para parar de dar trabalho a eles e se organizar para retornar à guilda. Agradeceu por tudo. Ele se sentiu agridoce, apagado. Apertou o braço dela com um pouco mais de força antes de a deixar no quarto.
A Yara do presente o encarava, prestes a falar alguma coisa que o ronronar da casa emudeceu. Desistiu de falar, sorriu para o homem sujo de sangue. Lhe desejou boa noite e agradeceu de novo pela paciência, pelos cuidados, por tudo.
