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— Pensei que estaria de plantão hoje, Arthur — comentou Shinra Kusakabe, um homem de altura mediana, cabelos pretos e olhos carmesins, ao chegar em casa com várias sacolas recicláveis do supermercado local.
— Eu troquei com a Maki, ela pediu pra trocar. Falou que precisava sair de casa, caso contrário seria capaz de bater no irmão dela — disse Arthur Boyle, um loiro de olhos azuis, virando o corpo no sofá para olhar seu companheiro e ao perceber que ele estava com algumas sacolas foi ajudá-lo.
— De novo a mesma coisa? — questionou o moreno caminhando até a cozinha, onde deixou as compras em cima do balcão. — Sinceramente, o Takigi não muda mesmo. Ele precisa aceitar que a irmã dele não é uma florzinha delicada.
— Pois é. Ela ‘tava uma fera, só aceitei a troca e vim embora, senão ia apanhar também, já que qualquer palavra que a gente fala acha que estamos chamando-a de “gorila ciclope” — falou, retirando os mantimentos do saco e guardando no armário. — Com o tempo seco os incêndios estão mais propensos a acontecerem, nossa companhia ‘tá com falta de pessoal, porém o Capitão Ōbi disse que nos próximos dias receberemos mais membros e assim contaremos com mais auxílio em nosso setor. Teremos um pouco mais de tempo para descansar.
— Isso é uma boa notícia, o batalhão oito carece de pessoal — respondeu Shinra, que pegou duas canecas, enchendo-as com café, entregando uma para o loiro.
Os dois se sentaram nos banquinhos do balcão em um silêncio confortável, apreciando o delicioso café. Ambos viviam uma vida deveras cômoda. Nunca imaginaram que estariam ali, juntos como um casal. Isso porque ao se conhecerem na academia de bombeiros um não ia com a cara do outro, viviam em pé de discussão, era uma implicância enorme. Contudo, durante o treinamento em que o instrutor como forma de criar um laço de companheirismo entre os dois, designou-os em parceria com Ogun Montgomery, foram se conhecendo melhor e perceberam que tinham mais em comum do que imaginavam. Criaram um laço de amizade que aos poucos foi se desenvolvendo até tornar-se no que eles eram agora, um casal que se amavam perdidamente.
— Fiquei sabendo que sua mãe e o Sh ō voltam da casa da sua avó hoje — comentou Arthur, olhando para o moreno que naquele momento pegava as canecas que usaram para lavá-las.
A mãe e o irmão — Mari e Sh ō Kusakabe — de Shinra, foram passar as férias com os avós dele na cidade de Nikko, a 140 quilômetros de Tóquio. Sempre que o período das férias chegava, a família Kusakabe viajava para lá, onde aproveitavam as montanhas e fontes termais, além de poderem visitar os inúmeros templos lá presentes. O moreno já levara o loiro para passar uma semana no local, tanto para conhecer a cidade quanto os avós dele. Os dois ficaram em uma pousada, já que queriam um pouco mais de privacidade.
— Sim, mamãe me ligou ontem avisando. Também disse que o Sh ō não parava de falar que queria ver logo o “ aniki” e o “ nii-chan ” dele — falou o Kusakabe rindo, ao se aproximar do parceiro. — E seus pais, o que resolveram? — indagou tocando carinhosamente nos fios dourados do outro.
— Estavam querendo abrir um restaurante lá, disseram que amaram a atmosfera tropical e desejavam mostrar um pouco mais da cultura e culinária japonesa. Só que, ao que parece, eles se esqueceram que já tem um aqui e que a Haumea vai precisar de ajuda se for ficar na administração dele — concluiu com um suspiro cansado, aproximando-se mais do carinho do namorado.
— Então os encantos brasileiros fisgaram o senhor e a senhora Boyle?! Haha, eu já imaginava — comentou rindo. — Lembro que quando fomos uma vez, uma certa pessoa quase não queria mais voltar, até falou em trabalhar em um dos batalhões de lá.
Ao ouvir a leve alfinetada do moreno, Arthur se levantou, afastando-se do Kusakabe com os braços cruzados e fazendo beicinho.
— Que culpa eu tenho se aquele país e a cultura dele são maravilhosos? Aquela atmosfera era deveras acolhedora, me senti em casa lá, ué! — exclamou o loiro, que olhando as horas percebeu que já deveriam ter começado a aprontar o almoço.
A dupla, ao decidirem morar juntos, achou melhor fazer um curso de culinária, já que nenhum deles sabia cozinhar antes, assim, além de conseguirem fazer algo para eles mesmos, ajudariam o tenente Takehisa Hinawa quando precisassem ficar de plantão. Não eram chefes de cozinha, nem conseguiam fazer um verdadeiro banquete como o tenente, mas suas comidas eram saborosas, além de suas habilidades estarem em constante aprimoramento.
— Isso é verdade, haha — falou o moreno rindo, aproximando-se novamente do loiro e abraçando-o.
Com isso, os dois começaram a preparar os ingredientes para fazer o almoço.
S-&-A
Longe dali, em um automóvel, em uma das rodovias que ligava Nikko a Tóquio, estava Mari e Sh ō Kusakabe, o jovem prateado adorava passar um tempo na casa de sua avó, no entanto, preferia ainda mais estar com seu irmão mais velho, principalmente quando chegava o dia em que os integrantes do quartel poderiam levar alguma criança para conhecer o local em que trabalhavam. Seria nesses dias que Sh ō poderia visualizar o dia a dia de trabalho do seu aniki e constatar que ele era um verdadeiro super-herói, um que não usava capa, mas que, assim como os que via nos quadrinhos, salvava outras pessoas quando elas precisavam.
— Estamos chegando, mamãe? — questionou o pré-adolescente, pelo que parecia ser a décima quinta vez em menos de uma hora.
— Tenha calma, Sh ō , estamos mais perto do que longe — respondeu a mulher abrindo um sorriso de lado.
Mari amava o companheirismo que os filhos compartilhavam, mesmo com uma diferença de oito anos, eles sempre foram muito unidos, quando um chorava o outro ia lá e fazia de tudo pra animar o que estivesse triste, ainda que um deles fosse muito jovem para compreender. O dia em que Shinra precisou sair de casa para ir à Academia de Bombeiros foi o mais difícil para a criança, a reação que ela teve foi de partir o coração. O menino chorava todas as noites na primeira semana, até descobrir que poderia visitar o irmão nos finais de semana. O mesmo ocorreu quando o jovem adulto foi morar junto com seu namorado, o pequeno prateado tinha acessos de ciúmes sempre que os via juntos, fazia birra antes que Shinra resolvesse por fazer os dois passarem um dia sozinhos, sem a presença dele para causar a leve “discórdia” entre as duas pessoas que mais amava. Após esse dia, Arthur e Sh ō , cessaram com as brigas e se tornaram quase que irmãos, tanto é que o pré-adolescente começou a chamar o Boyle de nii-chan .
— Você já falou isso antes, mamãe — reclamou, voltando os orbes carmesins para ela, que virou levemente o corpo de frente para o caçula tocando-o, nos lábios se encontrava um sorriso que transmitia carinho e amor.
Contudo naquele momento em que Mari desviou a atenção da estrada, o barulho de uma buzina a fez voltar seus olhos para a pista, onde um automóvel de grande porte e que aparentava estar desgovernado vinha em direção ao carro em que estavam. Pensando rápido, a mulher manobrou o volante para o lado esquerdo — o acostamento —, só que, por mais veloz que tenha sido sua reação, o seu veículo encostou na lateral do outro e virou, capotando umas duas vezes. Para os passageiros a impressão que tiveram era que tudo estava passando em câmera lenta, só que foi questão de milésimos de segundos para o auto familiar estar em um estado bem deteriorado, a situação de mãe e filho era desconhecida e o veículo que aparentava estar sem controle, nada mais era do que um condutor alcoolizado que ao beber assumiu o risco de atentar contra a vida de outro ser humano.
S-&-A
— Shinra, o capitão Ōbi ligou pra ti? — indagou Arthur ao entrar no quarto, observando o moreno sair do banheiro com uma toalha na cintura e outra no pescoço, sinal de que este acabara de tomar um banho.
— Hum? — perguntou com um franzir de cenho, caminhando até o criado-mudo onde estava seu smartphone e verificando se não tinha nenhuma chamada perdida. — Sim, ele me ligou umas oito vezes e uma bem próxima da outra. Isso é estranho — comentou pensativo, enxugando seus fios escuros.
— Pois é, ele me ligou umas três vezes, só que eu ‘tava lavando as louças e ‘cê sabe que quando eu ‘tô fazendo algo, tenho que escutar minhas músicas — respondeu o loiro, sentando-se na beirada da cama. — ‘Cê vai retornar a ligação?
— Vou, o capitão não é do tipo que liga sem motivo. Algo deve ter acontecido — disse, tocando na tela no botão de chamada.
Enquanto ouvia o celular começar a chamada, o Kusakabe foi botar as toalhas no cesto de roupa suja, logo depois se sentou ao lado de Arthur.
— Shinra? — A voz aflita de Akitaru Ōbi foi ouvida pelo viva-voz do aparelho e causou ainda mais estranhamento ao casal.
— Oi, capitão. Vi aqui que você me ligou. Aconteceu algo? Precisam de mais bombeiros? — questionou o moreno com o cenho franzido.
Ao ter a confirmação de que era Shinra falando, Ōbi inspirou fundo e expirou, passando as mãos pelos fios pretos curtos, não sabia como daria aquela notícia, reconhecia o quanto o Kusakabe amava sua família e tinha uma verdadeira adoração a ela. Shinra, ao ouvir aquela inspiração, sentiu sua preocupação triplicar, principalmente quando aliada àquela demora de Ōbi em falar o motivo da ligação.
— Então, não tem uma forma bonita de dizer isso e não seria justo protelar e enrolar. É o seguinte, hoje atendemos a um chamado na rodovia que liga Tóquio a Nikko, houve um acidente. Ao que parece, um motorista alcoolizado perdeu o controle do veículo e o carro que vinha em direção à Tóquio, para não bater, fez uma manobra que acabou por passar de raspão no outro e capotou algumas vezes. Enfim, o carro que capotou foi o da sua mãe.
Aquelas palavras tiraram o chão de Shinra, que ao ouvir “Nikko” na fala de seu capitão sentiu o coração perder uma batida e logo em seguida acelerar. O celular, antes na mão do moreno, caiu ao chão devido ao choque de ouvir aquela notícia. Arthur, que até então estava sentado ao lado do namorado, ao ver o estado do outro e o aparelho no chão, pegou-o e o levou ao ouvido, escutando a voz do Akitaru começando a se desesperar.
— Capitão, o que houve? Você pode repetir — pediu o loiro.
Ōbi falou o que contou a Shinra e avisou que a família Kusakabe foi levada para o Hospital do Batalhão 6, por fazerem parte da família de um membro do corpo de bombeiros. Em posse de todos os detalhes, Arthur estimulou o parceiro a se arrumar para juntos irem ao hospital. Como o estado do amado estava bem afetado, ele mesmo foi conduzindo o automóvel e de vez em quando olhava para o moreno observando-o.
S-&-A
— Bom, infelizmente a sua mãe não resistiu aos ferimentos e veio a falecer assim que deu entrada no hospital, por outro lado, seu irmão está neste momento em cirurgia e as chances de sobrevivência são de até 60 % — fala uma das médicas que ficou responsável pelo caso Kusakabe — A Doutora Kayoko Huang, capitã do Sexto Batalhão e cirurgiã chefe, é a responsável pela cirurgia de seu irmão.
Ao terminar de falar, a médica pediu licença e se retirou da sala de espera, onde Arthur e Shinra estavam desde que chegaram àquele hospital. O moreno já havia voltado a si, a preocupação está a mil, porém preferia estar mais calmo para assim conseguir assimilar qualquer notícia que tivesse. Escutar sobre a morte de sua mãe foi um baque, um que não conseguiria superar sozinho e era por isso que, agora mais do que nunca, Arthur seria seu pilar, aquele que iria auxiliá-lo a superar ou pelo menos suportar tamanha perda. Outra coisa a que se apegou foi a notícia de que seu adorado irmãozinho tinha grandes chances de sobrevivência. Seria complicado falar sobre a morte da mãe para o jovem Kusakabe, no entanto iria garantir que o irmão tivesse todo apoio e carinho que um dia já sonhou, o mesmo que Mari poderia dar a ele.
S-&-A
A recuperação da criança foi a pauta principal do casal Boyle-Kusakabe, o velório da mãe dos irmãos foi íntimo, somente a família e amigos próximos. Os avós de Shinra decidiram passar um tempo com ele e o namorado, enquanto eles se revezavam nas visitas a Sh ō no hospital. A questão da guarda do pequeno foi mencionada, com os avós comentando que desejariam ficar com ela, contudo nada foi decidido, pelo menos não até a recuperação do pré-adolescente.
— Shinra — chamou Arthur, deitado ao lado do moreno na cama —, ‘cê tá acordado?
— Sim, meu Cavaleiro Rei — murmurou.
— Faz tempo que não me chama assim — disse o Boyle, rindo baixinho. — Eu ainda gosto.
— Verdade, acho que desde que começamos a namorar — comentou, passando as mãos pelos fios loiros do outro. — Mas o que você queria falar, Arthur?
— Sobre o Sh ō — falou Arthur, sentando-se na cama. — Eu sei que você está pensando em ficar com a guarda dele.
Com as palavras do loiro, Shinra também se sentou, passou a mão nas madeixas negras e respirou fundo.
— Você, me conhecendo como ninguém mais conhece, sempre esteve ao meu lado, seja nos momentos bons ou ruins, e, bom, eu não queria decidir isso sozinho, até porque isso também te envolve, você e o Sh ō são minha família. É uma decisão complicada pra você, eu sei, mas o Sh ō só tem a mim agora. Meus avós já pensaram em ficar com ele, no entanto, o ideal seria que ele ficasse aqui onde conhece todo mundo, têm seus colegas, conhece a escola e tudo mais e…
Arthur interrompe o moreno com um pequeno selar de lábios. Desde o começo do namoro, e agora morando juntos, o Boyle sabia que a família era importante para o Kusakabe, foi com a ajuda dele que começou a valorizar mais ainda os momentos familiares, aquela união gostosa, pois só os teve com seus próprios pais até que completou dez anos. Depois disso, o casal Boyle embarcou em viagem por cima de viagem, deixando o pequeno Arthur com os avós até os 17 anos, quando infelizmente o velhinhos vieram a falecer devido a idade avançada e o restaurante da família nas mãos capazes da mãe de Haumea — a atual “gerente” dele.
— Sabe, Shinra, o Sh ō é como um irmãozinho que eu nunca tive. Eu amo aquele garoto. Sei que no começo não nos demos bem, mas foi porque ambos somos ciumentos e queríamos sua atenção somente pra gente. E é por isso que eu vou te ajudar a cuidar dele, vamos ser a figura na qual ele vai se inspirar e fazer tudo que for possível para tornar ele a pessoa que sua mãe queria que fosse. Juntos vamos ser os “pais” dele. Nós vamos ficar com a guarda dele.
Fim!
