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Três é o segredo

Summary:

Call, com a vida, se desiludiu com o conceito de amor. Mas, ao conhecer Tamara, ele teve que reconsiderar tudo que sabia sobre amor e almas gêmeas.

Ou

Como Call precisou quebrar a cara duas vezes para ser feliz na terceira.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:


Uma semana depois de completar 9 anos, Callum ficou animado com a nova marca que surgiu em seu pulso. Os pequenos contornos pretos que formavam 3 círculos tangentes uns aos outros eram uma das coisas mais preciosas que Call já tinha visto.

— Papai, minha marca. Olha só. Eu tenho uma marca.

— Isso é ótimo! Vem cá. Eu já te contei que a sua mãe era minha alma gêmea? — Alastair falou, sorrindo.

Call concordou com a cabeça, enquanto era puxado para se sentar ao lado de seu pai no sofá.

— A sua mãe era a mulher mais linda do mundo. Eu gostei muito dela logo de cara. Mas eu sempre pensava que a gente nunca ia dar certo, que uma pessoa incrível como aquela nunca iria ficar com alguém que fosse menos que a sua alma gêmea. Mas adivinha?

Call olhou para ele como se estivesse prestes a contar a solução para todos problemas do mundo, não como se estivesse prestes a repetir uma história já conhecida.

— No meio de uma aula de educação física, eu descobri. Sua mãe tinha a mesma marca que eu. No exato mesmo lugar. — Call aplaudiu, sorrindo. — Eu fiquei sem reação. Não sabia o que fazer com aquela informação nova. Demorou quase uns 2 dias para eu tomar coragem e contar pra ela. Mas valeu a pena, Call. Ela era o amor da minha vida. 

Naquela noite, Call sonhou com o seu final feliz. 

************************

À medida que crescia, Call passava a conhecer mais sobre almas gêmeas.

Desde uma abordagem acadêmica na escola com estatísticas e hipóteses sobre o porquê da existência das marcas até os rumores que corriam pelo bairro sobre possíveis casais predestinados.

Entretanto, junto com esses conhecimentos, vinham também verdades desconfortáveis. De uma hora para outra, Call ficou hiper alerta para a quantidade de pessoas mais velhas que nunca conheceram a sua alma gêmea, como o senhor que morava no apartamento do lado ou a moça boazinha do restaurante da esquina.

Ao longo dos anos, também conheceu almas gêmeas que não deram certo. Algumas brigavam feio e nunca mais se olhavam na cara. Outras apenas perdiam o contato lentamente. Por fim, tinha uns que davam certo, porém como amigos. 

Call queria um amigo. Ele não reclamaria de pertencer ao último grupo.

Por isso, o final feliz que seu pai sempre contava ganhava cada vez mais tons de cinza. E só piorava quando Callum parava para analisar a situação que o pai ficou depois do seu nascimento, depois da morte da sua mãe. Triste, sem a sua companheira. De eterno luto.

********************

Call olhou para a sua marca com desânimo. Ele a encarava como se ela soubesse um segredo que podia o salvar, mas que continuava o guardando por pura maldade.

A vida nunca tinha sido muito boa. A mãe morreu durante o parto, nunca conseguiu se encaixar em nenhum grupo na escola, Call sentia que tudo era um verdadeiro desastre. Por que a sua alma gêmea não seria assim também?

— Call, você é um bom menino. Confie em mim, algum dia, será muito feliz com sua alma gêmea — o pai de Callum afirmou, acariciando o ombro do filho que não tirava os olhos melancólicos do seu pulso.

— Do mesmo jeito que você é? — Call retrucou, ríspido.

**************

Com 16 anos, ainda não tinha encontrado a sua alma gêmea. Com certeza não por falta de buscas, afinal, mesmo que não admitisse em voz alta, sempre tentava olhar discretamente para a marca das outras pessoas, checando se ela correspondia com a sua. Call ainda guardava um pouquinho daquele garotinho com 7 anos que só queria um final feliz.

Ele ainda alimentava as esperanças de que sua alma gêmea estivesse o esperando em algum lugar, mesmo que a maior parte de seu cérebro dissesse que talvez ela estivesse morta ou que, mesmo se a conhecesse, ela não iria querer ter nada com ele. Quem iria querer namorar um cara solitário como eu?, pensava. 

Esses últimos pensamentos faziam com ele quisesse esquecer a sua marca, esquecer por um minuto que algum dia teve uma alma gêmea. A dor que ele sentiria em descobrir que uma das suas hipóteses era real seria maior do que conseguiria suportar, então preferia apenas esquecer tudo aquilo.

******************

Entretanto tudo passou quando viu Tamara pela primeira vez. A menina era simplesmente perfeita. As trancinhas, o rosto, o nariz, a boca, tudo nela parecia ter sido esculpido por anjos.

Ela passou pelo corredor do colégio olhando para os lados como se buscasse alguma sinalização. Call sabia que aquela era uma oportunidade única, por isso, tomado em um ato de coragem, levantou do banco e se aproximou da menina:

— Ah, oi, tudo bem? Você está perdida? — perguntou.

— Um pouco, você sabe onde é a diretoria? 

— É do outro lado da escola — Call respondeu. — Eu te levo lá.

— Se não for te incomodar.

— Não é incômodo nenhum — se apressou para garantir — além disso  alguém tem que ajudar os novatos com o diretor. 

Ela olhou para ele claramente confusa. 

— Ele é um mala. Mas quem está no colégio há um tempo sabe lidar com isso, eu posso te ajudar — acrescentou, sem pensar.

Logo após de falar sobre o diretor se arrependeu, podia ter apenas se oferecido para levá-la, não precisava ter falado assim do diretor do nada. Agora a primeira impressão de Tamara sobre Call seria que ele é uma pessoa rude que fica falando mal dos outros por aí.

— Então está bem. Sou Tamara — ela respondeu com mais serenidade e amigabilidade do que Call esperava.

— Sou Call.

Em apenas uma troca de palavras, Call sentiu que estava tomando uma estrada sem volta, mas não se importou nem um pouco com isso.

******************

Tamara era forte em todos os aspectos possíveis, Call não demorou muito para perceber. Era um fato tão evidente que chegava a ser quase banal. A menina era determinada, inteligente, além de ser uma ótima companheira para suas brincadeiras e conversas.

Logo depois de se conhecerem, já tinham virado melhores amigos. Sentavam juntos durante os intervalos, jogando conversa fora, um (Tamara) ajudava o outro (Call) a fazer seja lá qual fosse o trabalho que tivesse esquecido de fazer. Tudo parecia fácil.

A conversa fluía como um rio perene. Dois meses depois de se conhecerem, ninguém, naquela escola, encontrava um Callum sem Tamara ou uma Tamara sem Callum. Eles foram grudados por uma química instantânea.

Desde que viu Tamara, desejava que ela fosse a pessoa predestinada a si. Porém, Call, diferente de Tamara, era um covarde. Ele escondia a sua marca da menina e aproveitava a desculpa das mangas longas para combater o frio do inverno para nunca olhar para o pulso de Tamara.

No fundo da sua mente, ele sabia que só estava adiando o inevitável. Alguma hora, o clima esquentaria e Tamara trocaria para roupas de mangas curtas tornando impossível não notar a sua marca. Mas o medo prevaleceu e ele votou por não espiar até o último segundo possível.

******************

Em uma tarde de quinta, o mundo de Call virou ao avesso.

— Como você pode dizer isso sobre a Agatha Christie? — Tamara perguntou, fingindo estar ofendida.

— Acho que mistério não é o meu lance.

— Ah, não podemos continuar uma amizade assim. Primeiro, meu namorado. Agora, você. Sério que ninguém gosta de mistério?

Uma palavra. Um mundo destruído. Naquela tarde, Call descobriu que Tamara namorava há 2 dias com um garoto que ela conheceu na fila da sua livraria favorita. Naquela noite, Call chorou em silêncio até conseguir dormir.

******************

Após a primeira menção, o namorado de Tamara passou a aparecer vez ou outra durante as conversas. Nunca de forma profunda. Apenas comentários superficiais como "meu namorado é obcecado com essa série" ou "meu namorado está me mandando mensagem".

Call nunca perguntava sobre o tal menino. Tamara também nunca parecia interessada em desenvolver mais sobre.

Call dormia toda noite imaginando se o namorado de Tamara era a alma gêmea dela.

******************

Dois meses depois, sentados em um canto do pátio, a resposta para a grande dúvida de Call veio:

— Ontem, meu namorado me fez uma surpresa. – Callum se virou para a garota, um pouco abismado. — Eu queria que você fosse o primeiro a saber. 

Ao ouvir o tom animado da voz de Tamara, Call sentiu o misto de felicidade pela menina e ansiedade pelas palavras destruidoras que viriam pela frente.

— O que ele fez?

— Um jantar — Tamara contou e deu uma pausa — Ele me mostrou a marca dele. As nossas marcas são iguais.

— Meus parabéns. Você está feliz? — perguntou como se a resposta não estivesse desenhada no rosto da melhor amiga.

— Bastante. Eu acho que existem muitas chances da nossa relação dar certo. Eu realmente amo ele. 

Essa foi a primeira vez que Callum ouviu Tamara falar sobre amor.

******************

Com a conversa de mais cedo martelando em sua cabeça, Call entrou em casa de cara fechada.

— Aconteceu alguma coisa? — Alastair perguntou.

— Nada.

— Filho, se quiser falar comigo, saiba que sempre estou aqui para ouvir. 

Call passou pelo corredor até o seu quarto, tentando ignorar

— Você escolheria alguém que não fosse sua alma gêmea?

— Eu sempre escolheria a sua mãe. Alma gêmea ou não.

Por mais que a resposta do pai fosse de alguma forma afirmativa, afinal ele disse que escolheria independente de ser alma gêmea ou não, Call não se sentiu convencido. Suspeitava de que Alastair só disse isso porque, no caso dele, a alma gêmea era de fato o amor da vida dele.

Ele não era um perdedor que estava destinado a não conhecer a própria alma gêmea, Call relembrou a si mesmo, indo para seu quarto em silêncio.

******************

Sexta-feira era sinônimo de comer sanduíche na lanchonete da esquina com a Tamara. Sendo assim, Call não teve para onde fugir, mesmo estando preso em seus pensamentos acerca das almas gêmeas e da resposta que seu pai tinha dado no dia anterior, ele apareceu na mesa de sempre e esperou pela amiga. 

Para aproveitar que tinha chegado antes, Call fez os pedidos para a garçonete. Não precisava checar com Tamara o que pedir para ela, já que os pedidos eram parte tão bem definida do ritual das sextas-feiras quanto ir à lanchonete.

Tamara apareceu alguns minutos depois, sorrindo sem motivo. Call não tinha certeza do que pensar sobre o bom humor da garota, decidiu apenas ficar feliz em ver a amiga animada e seguir com a conversa.

Em meio a conversas mundanas e ao ruído de fundo que eram as outras conversas simultâneas na lanchonete, o som da televisão tomou a atenção de Tamara e, por consequência, de Call.

— Hoje, dia dos namorados, trazemos uma lista de lugares para levar a sua alma gêmea — a repórter anunciou.

O estômago de Call revirou e sentiu o sanduíche voltar pela garganta. Quando virou para observar Tamara, encontrou dois olhos brilhantes assistindo a TV.

— Você acredita que a gente só pode ser feliz com a nossa alma gêmea? — Call perguntou.

Tamara o encarou de forma séria como se a pergunta fosse uma questão de vida ou morte.

— Não sei se você precisa da sua alma gêmea para ser feliz, mas acho que, com ela, ser feliz é um pouco mais fácil. Pelo menos, para mim, está sendo. Eu não me sinto totalmente feliz e completa, mas ele ajuda bastante — mais uma vez, Call quebrou. — Você não tem curiosidade em encontrar a sua?

— Não — mentiu.

— Mesmo assim, torço por ti — Tamara afirmou com um sorriso amarelo no rosto, voltando novamente o rosto em direção a TV. — Algum dia, a pessoa certa vai chegar e você vai apenas saber.

******************

Ao sair da lanchonete, Call andou sem rumo. Ele estava com raiva. De nada em específico, mas tudo especificamente.

 Raiva das marcas, mesmo que elas fossem inevitáveis. Raiva do namorado de Tamara, mesmo que nunca o tivesse conhecido. Raiva de Tamara, mesmo que ela não tivesse culpa naquilo tudo. Mas, principalmente, Call estava com raiva de si, mesmo que fosse ele quem estava sofrendo.

Raiva por tudo aquilo que ele é. Raiva de toda a esperança que alimentou a vida inteira. Raiva.

E foi assim, movido por seus sentimentos,  que seus pés acabaram o levando para um lugar inesperado. A livraria da cidade tinha um estilo aconchegante e calmo. Colorida em tons pastéis. Talvez fosse por isso que Tamara gostasse tanto dali.

Entretanto Call não relaxou, permaneceu envolto em sua carranca. Ele odiava Deus e o mundo, não era o azul pastel das paredes que ia fazer ele se acalmar. Mas, quem sabe, alguém poderia ajudá-lo a odiar tudo um pouquinho menos.

Mal sabia Call que o loiro que não tirava os olhos dele seria a solução de alguns de seus problemas (e a criação de muitos outros). 

— Ah, oi, tudo bem? — O loiro se aproximou.

Call se pegou em uma situação bizarra. Ele olhava para aquele estranho durante longos segundos e não conseguia dizer uma mísera palavra. Aquele sentimento que percorria a sua barriga não chegava a ser desconhecido, já tinha sentido várias vezes antes. Porém era estranho tentar colocar um dedo no nome daquela emoção.

— Estou sim — respondeu, apressado, na esperança de que fosse terminar a conversa ali.

— É que você parece meio abalado.

— Problemas pessoais são sempre complicados.

— Eu sei como é. No outro dia, eu briguei feio com a minha namorada.

Call encarava o garoto, buscando alguma pista do porquê estava sendo tão amigável e compartilhando histórias sobre sua vida. Por um momento, contemplou encerrar o assunto ali, mas a curiosidade o venceu e ele questionou:

— Vocês fizeram as pazes?

— Ah, sim. Fizemos. Desde lá, muita água já passou. Vamos até sair mais tarde hoje.

O silêncio se manteve entre os dois. Call não sabia o que responder e o loiro parecia tão perdido quanto.

— Inclusive, sou Aaron.

— Callum, mas prefiro Call.

— Call, você entende algo sobre livros de mistérios? Eu não sou muito fã do gênero, mas é o preferido da minha namorada.

Callum não planejava conversar com ninguém quando entrou na livraria, mas acabou ajudando o garoto a escolher um livro. Se ele deu o número de telefone para o outro no fim do dia, ninguém podia culpá-lo.

******************

Algumas horas depois, já deitado em sua cama, Call recebeu uma mensagem de um número desconhecido.

“Oi, tudo bem?”

“quem eh?”

“É o Aaron da livraria."

“ah tudo bem e vc?”

“Ótimo!”

“como foi com a sua namorada?”

“Incrível! Inclusive, obrigado pela ajuda hoje. Ela amou o livro, disse que estava doida para comprar aquele.”

"dnd"

E acrescentou:

"foi legal ajudar"

"Também achei legal conversar com você hoje. Se estiver interessado, vai abrir um salão de jogos perto da livraria no domingo."

A partir daquele dia, os dois começaram a trocar mensagens e, dois dias depois, foram ao fliperama juntos. 

***************

Call não conversou com Tamara naquele fim de semana. A garota havia mandado uma ou duas mensagens, mas todas ficaram sem resposta.

Entretanto, ele não podia evitá-la para sempre. Por isso, segunda-feira, antes de ir à escola, decidiu reunir forças para encarar a situação de frente. Enviou uma mensagem para Aaron:

"eu estou dando um gelo na minha amiga faz dois dias, mas agora eu tenho que encontrar ela na escola. o que faço?"

"Depende, se ela for sua amiga mesmo, ela provavelmente vai entender. Então aconselho que você seja honesto com ela sobre o motivo de seu sumiço."

"ok" 

Fechou o chat.

A verdade era que, por mais que o conselho fosse razoável, Call conhecia a si mesmo o suficiente para saber que se tentasse se explicar acabaria falando algo que não deveria.

Por isso, decidiu ignorar a mensagem do amigo e agir naturalmente. Chegou, se aproximou de Tamara e puxou o primeiro assunto que conseguiu, que, no caso, foi sobre como o Jasper da 2B estava com uma marca de sola de sapato na sua calça que indicava que ele tinha sido chutado na bunda.

Porém a maior surpresa do dia foi Tamara não falar nada, apenas seguir o fluxo da conversa proposta por Callum. Naquele dia, ninguém tocou no assunto do clima estranho na lanchonete ou nas respostas não recebidas do fim de semana.

***************

Call e Aaron começaram a sair dia sim e dia também. Em pouco tempo, eles já compartilhavam segredos e inseguranças junto com as conversas despreocupadas e brincadeiras.

Call sabia que a história estava se repetindo e novamente estava se apaixonando por alguém que já tinha uma alma gêmea e que nunca daria atenção para ele, mas não podia evitar. Se separar deles completamente seria ainda mais doloroso que ser apenas amigo próximo.

— Não é nada tão ruim, só é um assunto sério — Aaron falou.

Call observava o outro falar com alguém no telefone pelo canto de olho, enquanto fingia continuar jogando o videogame na sua frente.

— Sim, tem que ser pessoalmente. — Aaron lançou um olhar para Call. – Eu também te amo. Até depois. Tchau!

— O que houve?

— Minha namorada ficou preocupada com a minha mensagem.

Call riu.

— Você deveria parar de mandar esses enigmas que você chama de mensagem.

— Sei disso.

— Mas não vai parar, né?

— Acho que não.

— Algum dia, você vai matar alguém do coração.

Aaron deu de ombros e se sentou próximo de Call para poder jogar também. Call silenciosamente agradeceu pelo calor gerado pela presença do outro tão perto.

***************

Depois daquele dia, Callum ficou um tempo sozinho. Não exatamente por opção, mas por ter sido ignorado pelas duas únicas pessoas que ele conseguia conversar. 

Tanto Tamara, quanto Aaron não deram sinal de vida.

***************

Essa situação foi se estendendo durante quase 1 semana até receber uma mensagem de Aaron.

“Preciso de contar uma coisa, me encontre no Mc às 13h.”

Respondeu um simples “okay” e passou o resto da manhã se contorcendo de curiosidade no quarto. Call refletia sobre todo tipo de conversa que o amigo queria ter.

Será que ele sabe da minha quedinha por ele? Aaron sempre foi esperto e não era algo tão difícil assim de perceber. Se alguém visse os dois saindo por aí, poderia apostar que eram namorados ou, no mínimo, ficantes.

Será que ele me odeia e quer me dizer pessoalmente? Descartou rapidamente essa hipótese, afinal Aaron, por mais que fosse a criatura mais sincera que o garoto já tinha conhecido, era também uma pessoa muito bondosa. Nunca protagonizaria tamanha maldade. 

Será que ele está doente?   Será que ele vai pedir a namorada em casamento? Nesse momento, percebeu que talvez estivesse exagerando demais, não era do feitio do Aaron casar inesperadamente assim, muito menos com apenas 16 anos.

Quando já era quase a hora marcada, desistiu de tentar adivinhar o que o amigo queria falar e apenas se arrumou. Independentemente do que fosse, iria encarar.

O caminho até o Mcdonald's da rua de baixo foi torturante, mesmo que fosse bem próximo da casa de Callum. Quando chegou, procurou por Aaron. Mas não o encontrou.

Ao invés disso, em uma mesa um pouco mais afastada, estava Tamara. A garota acenou e fez um sinal como se pedisse para que Call fosse até ela.

— Tamara? O que faz aqui? 

— Ah, bem... — Antes da garota responder, Aaron se aproximou dos dois.

— Call — Aaron cumprimentou e se sentou ao lado de Tamara.

— Espera, vocês dois se conhecem?

— É sobre isso que a gente precisa conversar. — Tamara respondeu.

Callum sentou à mesa. 

— Quer um sorvete? — Aaron mostrou o sundae de chocolate, o favorito de Call, parado na mesa.

— Esse é seu, depois eu compro.

— Você sabe que eu não gosto de chocolate, eu comprei para você — Aaron afirmou.

Call não sabia se ficava feliz pelo ato do amigo ou preocupado com o que vem a seguir. Ganhar um sorvete do nada parecia ser um mal sinal.

Um momento de silêncio se estendeu enquanto os três trocavam olhares ansiosos. Ninguém sabia como começar aquela conversa desconfortável.

Pela primeira vez, Call percebeu, estava vendo Tamara sem mangas cumpridas. A garota tinha várias pulseiras nos braços que descansavam apoiados na mesa com a mão direita entrelaçada com a de Aaron. 

Foi aí que Callum entendeu.

Os dois namoravam. Óbvio que namoravam. Tudo batia. Um namorado sensível e romântico. Uma namorada inteligente, honesta e apaixonada por livros de mistério. Um amor quase perfeito. Call ficou surpreso consigo mesmo ao notar que o sentimento prevalente dessa descoberta foi felicidade pelos dois. 

Eles formam um belo casal. Como eu não percebi? Eu devo ser um péssimo amigo. 

— Call, a gente te chamou aqui, porque — Aaron começou a conversa — queremos testar uma hipótese. 

Call fez uma careta confusa. Hipótese?

— Olha, nós percebemos que você tem uma quedinha pela gente — Aaron continuou.

Call fez uma expressão nervosa.

— Não precisava ser nenhum gênio para isso — Tamara adicionou.

— É, era bem óbvio. Você não é muito bom em esconder isso, Call.

— Eu já entendi onde vocês querem chegar e eu sinto muito. Não queria atrapalhar o relacionamento de vocês ou ser um babaca com os dois. 

— Deixa a gente terminar de falar. Depois, você fala — Tamara interveio.

— Eu gosto de você, Call, e não é no sentido “somos melhores amigos". Eu acabei ficando meio abobado com isso, porque os meus sentimentos pela Tamara não tinham mudado, ou melhor, até tinham mudado, mas para serem mais fortes. Por isso, acabei ficando meio sem rumo quando percebi que eu também estava gostando de você. Primeiro, eu senti que estava traindo a Tamara. Depois, aceitei que meus sentimentos eram incontroláveis e eu não podia fazer nada. Aí pensei em me afastar de você, só que isso doeu tanto quanto a ideia de terminar com a Tamara.

— Então, como o Aaron é do tipo honesto, veio conversar comigo sobre estar gostando de outra pessoa. 

— E o mais incrível de tudo foi que ela não quis me matar.

— É, porque eu estava no mesmo caso que ele, gostando de outra pessoa.

— No fim, nós conversamos e nos entendemos. Só que eu fiquei com medo de continuar falando com você, porque, por mais que Tamara soubesse que eu gostava de mais alguém, o que já aliviava um pouco a minha consciência, ela não tinha me dado um passe para sair com esse outro alguém.

— Que bom que você sabia até por que eu nem sabia que você era afim do Callum. Eu achava que era uma pessoa qualquer. Então, eu ficaria com bastante raiva se você tentasse algo.

— Eu nunca faria nada assim sem te consultar, amor — Aaron falou, enquanto passava um de seus braços pelos ombros da menina.

— Bom mesmo. Agora, de volta ao assunto antes que o Call exploda de nervosismo.

— Resumindo um pouco a história. Eu não podia continuar falando livremente com você, porque não tinha certeza do meu autocontrole — Aaron falou.

— Exatamente esse o ponto. Vocês dois são descontrolados — Tamara brincou.

— Vamos combinar que nós três não temos autocontrole — Aaron disse.

— Não me inclua nisso — Tamara reclamou.

Aaron olhou de canto de olho para a namorada.

— Enfim, a gente acabou tendo outra conversa e descobriu que nós dois éramos afim da mesma pessoa, o que acabou tornando tudo um pouco mais fácil — Tamara disse.

— Até agora eu não consigo acreditar que a gente se apaixonou pela mesma pessoa — Aaron falou.

— Por isso, a gente queria fazer uma proposta e testar uma hipótese — Tamara complementou.

Call ficou quieto, mas acenou pedindo para continuar.

— A proposta seria você tentar ter um relacionamento com nós dois — Tamara disse.

— E a hipótese? — Call perguntou, ainda meio inebriado com a onde de informações que eles despejaram em cima de si.

— A gente quer ver o seu braço — Tamara respondeu.

Call ameaçou mostrar o braço.

— Não, antes dê a sua resposta — Aaron interveio.

— Eu não sei o que falar.

— Sim? — Aaron sugeriu.

— Claro que eu aceito, mas só foi um pouco rápido para eu processar, entende? Em um dia, eu estou sofrendo por duas pessoas e, no outro, estou em uma mesa com os dois falando que eles também gostam de mim. 

— Ah, você pode pensar, se quiser – Aaron garantiu.

— Não, eu quero ficar com vocês independente dos termos.

Tamara foi a primeira a reagir, atravessou para o outro lado da mesa e abraçou Call. Aaron acabou se juntando aos dois algum tempo.

— Droga, vocês têm que parar de ser tão fofos — Tamara disse um pouco antes de fazer aquilo que tanto queria, beijar Callum Hunt.

O beijo foi sem jeito, principalmente pela inexperiência de Call e pelo fato dos três ainda estarem em uma lanchonete. Entretanto, a euforia do momento foi grande suficiente para nublar a mente dos três para qualquer pensamento que não fosse o quanto aquilo era tudo que mais desejavam.

Depois de Tamara, foi a vez de Aaron selar os lábios com Call. O beijo entre eles foi mais curto, pois a senhora na mesa ao lado parecia não saber esconder o próprio descontentamento com a cena.

Mesmo assim, mesmo com a inexperiência e com a senhora rabugenta, aqueles beijos significavam algo bem maior: uma promessa de outros. 

— Querem ir para o parque? — Aaron questionou, olhando para os outros clientes da lanchonete de canto de olho.

— Vamos lá! — Tamara se animou, puxando Call junto.

Naquela tarde, o trio não conseguiu tirar o sorriso do rosto por nenhum momento. Entre beijos, abraços, brincadeiras e conversas triviais,  eles passaram aquele dia.

E mesmo passando horas e horas com os dois, Call não olhou para os pulsos descobertos. Ele não precisava. Ele estava feliz assim. As tatuagens importavam menos do que os dois serezinhos que estavam bem ali com ele. 

***************

Ao anoitecer, tiveram que se despedir. A data para o próximo encontro já estava marcada. Daqui a 2 dias. Tão perto, mas tão longe. Call não conseguia conter a própria animação, que foi facilmente percebida pelo pai, que precisou apenas erguer uma sobrancelha para receber uma resposta:

— Eu sinto muito pelo o que eu falei antes, eu entendo você agora.

— Entende? — Alastair perguntou, intrigado.

— Eu encontrei as pessoas mais importantes da minha vida — Call afirmou, sorrindo.

— Suas almas gêmeas?

— Eu não tenho ideia se eles são ou não as minhas almas gêmeas, mas essa parte não importa.

Notes:

Espero que você tenha gostado.

Essa é a minha primeira fanfic devidamente publicada, então realmente não é nada espetacular.

Eu escrevi esta fanfic há MUITO TEMPO, uns 2/3 anos. Infelizmente, na época (não que eu tenha melhorado muito), eu tinha um storytelling e prosa que deixavam bastante a desejar e esta fic acabou saindo meio bléh. Sinto que os personagens estão completamente fora das personalidades originais (não que eu me lembre o suficiente do canon de Magisterium para opinar / EU PRECISO RELER MAGISTERIUM)

De toda forma, não queria deixar esses rascunhos parados aqui, então decidi publicar mesmo assim. Espero que tenha servido como diversão para alguém, nem que seja para rir de como alguém tem coragem de publicar um troço desses.

Caso você tenha alguma crítica, sugestão ou elogio, sinta-se livre para comentar. Também pode ir gritar comigo no Twitter (@akalezin)