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Trevo

Summary:

Porque Atsushi era seu ar, seu alento e seu talismã. Naquela manhã preguiçosa de domingo, tudo de que precisava estava bem ali nos seus braços.

Notes:

Oi, pessoal! Esta fic é meu presente de aniversário para IceAngelSimon (e não faço ideia de como consegui atrasar a postagem com a fic JÁ PRONTA, SOS. Bom, pelo menos não estou postando em maio, cofcof, acho que evoluí x.x).

A canção escolhida foi “Trevo” (Anavitória part. Tiago Iorc), que é simplesmente tão EnAtsu que eu precisava demais usá-la aqui! Mesmo não sendo mais (ou não sendo exatamente) meu OTP, tenho um carinho enorme por esse ship, que foi meu primeiro em Boueibu. Existe toda uma vibe de naturalidade de um com o outro que é muito gostosa — como um casal mais velho, mesmo XD

De qualquer forma, espero que gostem!

Ambientação temporal: após o OVA (formatura do colégio). Vejo o pessoal adotando com frequência a ideia de En, Atsushi, Ibushi e Kinshiro morando juntos nos tempos de faculdade e acabei adotando pra esta fic aqui (e adotei no meu coração também, rs).

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Chovia preguiçosamente, o que combinava perfeitamente com uma manhã de domingo.

Nos dias mais introspectivos, En gostava do tempo chuvoso. Era como se o tempo entrasse em ressonância com seu humor e facilitava o fluxo das suas epifanias.

Ali, na casa em que agora vivia em uma região tranquila e elegante nos arredores de Tóquio, En se permitia deixar o tempo escorrer. Deitado em uma rede de descanso (que ele próprio fizera questão de trazer de Binan) na agradável varanda, deixava a mente vagar. Seus olhos azuis se perdiam nas gotas que caíam do céu em direção à terra, às folhas do jardim.

Era assim que costumava passar a vida, pensando bem. Seguindo o fluxo — fluindo com a gravidade, ou a correnteza, ou o declive, vivendo da forma mais inerte possível. Talvez uma forma de poupar energia ou de não perder tempo demais com coisas chatas e cansativas.

Claro, nem sempre aquilo era possível. 

Se fosse sincero consigo mesmo, não se imaginava ali um ano atrás. Na verdade, não gastava muito tempo pensando no que faria após o colégio — havia sido, desde sempre, aquela criança estranha que nunca tinha uma resposta para os adultos que insistiam em lhe perguntar o que queria ser quando crescesse. Estava sempre pensando em coisas mais fascinantes e curiosas que os rumos da própria vida. Talvez fizesse algum curso mais tranquilo na faculdade local de Binan, talvez vivesse de arte, ou conselhos, ou qualquer coisa que não o fizesse pesar muito nas finanças de seus pais. O que aparecesse.

Mas ele apareceu.

 


 

— Já decidiu o que vai fazer depois daqui, En-chan?

Os olhos chocolate não haviam abandonado as páginas do livro de Química, mas En sabia que Atsushi tinha os ouvidos atentos a uma eventual resposta.

— Banho em Kurotama?

— Eu não quis dizer “depois do clube”! — Atsushi riu baixinho e enfim tornou o olhar ao outro — Quis dizer depois do colégio. Da formatura.

— Ah, isso — Claro que era aquilo — Sei lá. Um ano sabático, talvez. Ver se tem algum curso que me interesse na Binan U. Algo que não dê muito trabalho. Não penso muito nisso.

Já haviam tido aquela conversa algumas vezes durante os anos de amizade, mas naquele dia o olhar de Atsushi estava diferente. Não era frustração, ou impaciência, ou resignação. Se conseguia ler bem — e havia aprendido a ler Atsushi muito bem — havia uma estranha angústia naqueles olhos normalmente tão doces.

— Por que não estou surpreso? — Outra risadinha, um pouco mais nervosa. Atsushi tentava disfarçar o visível desconforto — Hum. Eu me inscrevi na Todai hoje. Não sei se vou passar, mas…

— Então você vai pra Tóquio. Decidiu, então.

A voz foi casual, En jogando a cabeça displicentemente para trás e fitando o teto da sala do clube. No entanto, ele se percebeu contaminar por aquele desconforto à medida que uma ideia ainda pouco clara começava a tomar força e correr seu corpo como veneno.

— Uhum — A voz de Atsushi era baixa — Kin-chan e Ibu-chan também têm planos de estudarem lá, já estão vendo até uma casa. A favorita deles tem quatro quartos bem amplos — Uma pausa — Eles me chamaram pra dividir a casa com eles. Já é um problema a menos, né? Não se preocupar com onde ficar, digo.

— Uhum.

Aos poucos, à medida que Atsushi falava sobre Tóquio, En foi identificando melhor aquela ideia que o intoxicava e o fazia se sentir mais e mais sufocado com aquele assunto e aquele clima tenso. 

Estava perdendo o ar .

— … En-chan.

En estranhou o tom meio estrangulado da voz de Atsushi e tornou a fitá-lo, confuso. Atsushi arregalou os olhos por um momento como se o chamado tivesse sido involuntário. Ao cabo de alguns segundos de contemplação mútua, porém, engoliu em seco e soltou:

— Vem comigo. Por favor.

— Você diz… ir a Tóquio também?

— Já temos a casa, você não vai ter muito problema — Atsushi sorriu nervosamente — Até Kin-chan disse que eu poderia convidar você. E, bem… passar na Todai não vai ser problema nenhum pra você, eu sei disso. Você… tem um potencial enorme, En-chan, devia investir mais nisso.

— Dá muito trabalho — En resmungou mais por hábito do que propriamente como recusa. Seu coração estava acelerado com o olhar franco que Atsushi lhe lançava. Era muitíssimo raro ouvir Atsushi enunciar demandas, e tentava disfarçar com argumentos o que aqueles olhos diziam claramente a En.

No fim, Atsushi sorriu mais suavemente. Ele conhecia En o suficiente pra saber que aquilo não tinha sido uma negativa, afinal.

— Eu sempre vou ficar muito feliz se você estiver comigo, seja onde for.

De repente, respirar estava tornando a ficar mais fácil.

 


 

Era Atsushi que o fazia sair da inércia contemplativa, como a brisa enruga a superfície vítrea de um lago ou o vento tempestuoso torna o oceano revolto. Era Atsushi que o fazia levantar da cama na hora certa, o que o fazia levar as regras da escola (relativamente) a sério. Só Atsushi o conseguia fazer embarcar inteiramente naquela loucura de super-herói e o motivava a pensar, pela primeira vez na vida, em um futuro que ele tivesse de buscar ativamente, um futuro que ele pudesse construir com as próprias mãos.

Atsushi o fizera se mudar para centenas de quilômetros de distância e, En sabia, seria capaz de fazê-lo mudar de planeta se quisesse. E, fosse o que fosse, sabia que tudo daria certo porque Atsushi, além de ar, era também seu mais precioso talismã — um legítimo trevo-de-quatro-folhas que havia conseguido encontrar por puro acaso naquela bendita tarde, ainda criança, indo comer curry .

Aquele vombate maluco sabia o que estava fazendo, no final das contas.

Ouviu a porta da frente abrir e alguns passos descompassados, nitidamente pertencentes a diferentes pessoas. Uma delas se aproximou da varanda. Ainda que o piso daquela casa não fosse o mesmo do colégio Binan, não tinha como confundir aqueles passos...

— Que milagre você acordado a essa hora em um domingo — A voz de Atsushi tinha uma nota indisfarçável de diversão.

— Ou talvez eu só tenha decidido cochilar na rede, mesmo… — En virou o rosto em direção a ele, um sorriso matreiro no rosto. Atsushi sorria de volta, um saco de compras nas mãos.

— Fomos comprar coisas pro almoço. Tomou café da manhã?

— Uhum.

— Mas comeu alguma coisa mais nutritiva além de pão?

— Hum… acho que a geleia deve ter algumas vitaminas.

— En-chan… — Atsushi suspirou resignado.

Um momento de silêncio se passou entre eles, pelo menos verbalmente; a troca de olhares por vezes era comunicação suficiente, e o convite que os olhos azuis fizeram aos castanhos havia sido plenamente compreendido. En percebeu as expressões de Atsushi se sucedendo: exasperação, resignação, carinho, vontade e culpa, nessa exata ordem. Arqueou a sobrancelha e Atsushi acabou desviando o olhar, passando a fitar os outros dois rapazes que observavam a silenciosa conversa entre eles.

— Sabem do que mais? Eu cuido do almoço hoje — Arima sorriu prestativo e se adiantou, pegando gentilmente a sacola que estava em poder de Atsushi — Você foi muito prestativo no mercado hoje, agradeço. Relaxe um pouco… — Piscou para ele, divertido.

Kinshiro tinha uma expressão estranha no rosto. En às vezes tinha uma certa dificuldade em lê-lo (embora não tanto quanto tinha em tentar ler Arima, que lhe era uma total incógnita). Viu o rapaz lançar um olhar a Atsushi que se dividia entre a exasperação e uma certa… compreensão, talvez?

— Sabe… acho que vou ajudar Arima — Ele disse por fim — Eu gostaria de aprender algumas coisas com ele. N-não que também não queira aprender com você! — Emendou apressadamente — Eu quis dizer… é só… — Pigarreou e suspirou, rendido — Enfim, descanse, At-chan.

En não conseguia deixar de se divertir com a forma como o ex-presidente do Conselho Estudantil se atrapalhava quando tentava inventar uma desculpa razoável. Por fim, Kinshiro tornou a se empertigar e os olhos verdes se estreitaram ligeiramente em sua direção, aquele já conhecido olhar de julgamento quanto à sua aparência desleixada — bem, nem todo mundo era como Kusatsu, que parecia acordar em um domingo de manhã sem nenhum fio de cabelo fora do lugar! En já estava acostumado àquela expressão de “Alguém dê um pente àquele homem!” ostentada pelo outro.

Todavia, ao voltar as atenções a Atsushi, Kinshiro deu um sorriso estranhamente… cúmplice . Viu as bochechas de Atsushi assumirem um tom rosado ante a expressão do amigo de infância.

— K-Kin-chan...

— Com licença, então. E Yufuin… cuide bem de At-chan, mas sem comportamentos impróprios para ambientes sociais de uma casa.

Kin-chan!!!

Oh. Aquele tipo de provocação era novo. En apenas arqueou a sobrancelha enquanto Atsushi afundava o rosto nas mãos, orelhas vermelhas. Kinshiro pousou brevemente a mão no ombro do amigo antes de se retirar para a cozinha.

Ao final de alguns momentos, Atsushi suspirou e baixou as mãos, o rosto já de volta à cor habitual. En apenas sorriu e estendeu a mão ao amigo em um convite prontamente aceito.

— O presida anda estranho… — En comentou enquanto Atsushi se acomodava ao lado dele na rede. Já havia se acostumado naquele primeiro mês morando ali.

— Mmm — Fez Atsushi, fitando a chuva, e En podia perceber claramente o esforço do outro em mudar de assunto — Terminou o ensaio que você tinha de fazer pra amanhã?

— Mmm — Foi a vez de En responder-não-respondendo — Eu fico mais inspirado quando o prazo está acabando.

— Até entendo, mas precisa esperar faltarem cinco minutos pro professor entrar? — Atsushi acabou rindo.

— Na real eu acho que nem devia ter isso de ensaio escrito sobre Fulano ou Beltrano. Afinal, se o curso se chama “Pensamento Contemporâneo e Filosofia”, vale mais a pena uma conversa do que encher papel com ideias que já foram discutidas antes e pelo visto não levaram a lugar nenhum.

— Você teria preguiça de debater!

— Depende! Por exemplo, quando você tem um grupo de pessoas realmente engajado na discussão de um assunto peculiar...

Enquanto discorria sobre ideias pouco ortodoxas que vinham de sua cabeça, En não podia deixar de fitar o rosto de Atsushi. Ele sempre havia sido um bom ouvinte. Talvez o único que de fato prestasse atenção aos seus momentos de inspiração mental, pensando bem. A forma como seus olhos brilhavam por trás das lentes (ou livres delas quando estavam em Kurotama), o levíssimo sorriso que curvava seus lábios naquela sua conhecida expressão de “Lá vem En-chan com suas conversas malucas!” — pensamento que provavelmente era compartilhado por seus antigos colegas de clube e conversas, mas Atsushi definitivamente era o único que parecia tingir aquele pensamento com carinho, e não com exasperação.

Como explicar que seu fogo para debater, conversar ou fazer qualquer coisa na vida vinha da inspiração que ele lhe trazia com suas palavras, seu sorriso, sua simples presença? Já havia dito a Atsushi que ele era como ar para si, mas o outro não tinha entendido muito bem.

Mas não importava. Fosse qual fosse o assunto, discuti-lo com Atsushi era um dos seus grandes prazeres na vida.

 

Tu é trevo de quatro folhas

É manhã de domingo à toa

Conversa rara e boa

Pedaço de sonho que faz meu querer acordar pra vida

Ai, ai, ai

 

O assunto havia se encerrado, mas o silêncio que surgia naqueles momentos era confortável. En e Atsushi fitavam a chuva que não parava de cair do lado de fora da varanda, a trilha sonora reconfortante e rompida aqui e ali por sons esparsos na cozinha da casa.

Atsushi tentou se ajeitar na rede, que oscilou veementemente. Estremeceu e se encolheu um pouco.

— Confesso que às vezes eu ainda tenho medo de despencar desta rede, sabia?

— Do jeito que você é leve? Fica tranquilo que não vai acontecer nada. Mesmo se eu fizer isto aqui…

En sorriu divertido e começou a impulsionar a rede como um balanço. Atsushi não conseguiu conter um gritinho de susto, agarrando-se a ele.

— En-chan! Pare com isso, a gente vai cair!

— Não vamos! — En agora ria abertamente do desespero do outro, mas acabou se acalmando um pouco — Até que é gostoso, vá…

— Mmm… — Atsushi fez um adorável bico , mas não respondeu. Ainda estava agarrado a ele.

En suspirou e aninhou Atsushi. Sentiu os músculos do outro se tensionarem ligeiramente e em seguida relaxarem em seus braços. O contato físico entre eles foi ficando assim com o tempo, natural, quando estavam de paz com o mundo.

— Você tá lidando bem com tudo isso. Sabe, com a mudança.

En o ouviu murmurar aquilo e voltou o rosto para ele.

— Eu tenho uma rede na varanda, ninguém na Universidade enche o saco se eu decido pular uma aula pra tirar um cochilo e até Kusatsu não tem me criticado tanto — En deu de ombros — Saiu melhor que a encomenda. Na verdade, você é que tem lidado melhor do que eu esperava.

— É… — Atsushi pigarreou — As coisas… estão indo bem. Não que o curso de Medicina seja todo flores, mas acho que o que me deixa mais tranquilo é que não tô sozinho aqui. Tenho Kin-chan e Ibu-chan, claro, mas principalmente tenho… hum — Uma pausa, as bochechas de Atsushi ganhando cor — Eu… eu fiquei muito feliz quando você aceitou vir, na verdade. Quero dizer. Acho que, depois de todos esses anos…

A voz de Atsushi foi morrendo, mas En sabia perfeitamente o que o amigo queria dizer — até porque, no fim das contas, era o que também sentia.

— Eu não viria se você não estivesse aqui — En confirmou a ele, que pestanejou — É engraçado, mas… eu não sinto tanta falta de Kurotama como achei que eu fosse sentir. É só… sei lá. Acho que isto aqui me basta. Esses momentos, sabe?

— Na rede.

— Uhum — En cutucou distraidamente a mechinha azulada que nunca se assentava na cabeça de Atsushi — De boa assim. Fazendo nada, falando qualquer coisa.

— Com você.

— Com você — En assentiu.

Estavam tão próximos. Ajeitou-se melhor na rede — Atsushi o abraçou ainda mais apertado com o balanço — e riu pelo nariz. Seu rosto mergulhou nos cabelos azul-escuros e sentiu novamente Atsushi se tensionar, como de ligeiro susto. Contudo, logo ele tornou a relaxar. Era En ali, afinal.

Natural.

— Eu acho que você tem cheiro de Binan — En murmurou distraidamente — Sei lá. Acho que é por isso que tô tão de boa assim.

— É familiar, né? — Atsushi disse baixinho, ajeitando-se confortavelmente na rede, a cabeça pousada no ombro do amigo.

— Uhum. Cheiro de casa. Calor de casa.

— … Você diz cada coisa, En-chan… — Atsushi riu baixinho, as suaves lufadas de ar fazendo cócegas na base de seu pescoço.

— Não é mentira… — Passou a dedilhar os cabelos de Atsushi suavemente, em uma carícia reconfortante — É engraçado, pensando bem. Você me acordando pra ir pro colégio, você fazendo questão que eu comesse, você jogando vídeo-game comigo. Tinha dia que você era a primeira coisa que eu via quando acordava e a última que eu via antes de dormir. Sempre ao meu redor, como ar.

Oh. Que conversa gay. Mas não me incomoda mais falar essas coisas com Atsushi. Talvez seja porque eu quase perdi isso. Como você esperaria, Atsushi, que eu ficasse em Binan quando até o meu quarto só me fazia lembrar de você? Como você esperaria que eu conseguisse viver confortavelmente… sem ar?

— Foi por isso que você decidiu vir? — A voz baixa não trazia qualquer julgamento ou ameaça de zombaria. Atsushi sabia que En estava falando sério.

— Por que mais seria? — En deu um sorrisinho contra os cabelos macios. Atsushi cheirava a hortelã e alecrim. Engraçado — Você conseguia me arrastar pro colégio todo dia, só você conseguiria a façanha de me arrastar até Tóquio ou sei lá, Shangri-lá. Você carrega parte do meu dia, da minha vida com você.

— Agora que você colocou as coisas dessa forma… — Atsushi soou pensativo — Acho que é bem isso. Por isso eu fiquei tão feliz por você estar aqui comigo. A minha rotina sem você ia ser muito… vazia…? — Riu pelo nariz, involuntariamente roçando o rosto no amigo e sorrindo de leve contra a pele arrepiada de En — Você… faz parte da minha vida durante todos estes anos de um jeito que… eu ia sentir falta de casa, mas também ia sentir muita falta da sua casa.

— Tenho chegado à conclusão de que a minha casa é onde você está.

 

Tu que tem esse abraço casa

Se decidir bater asa

Me leva contigo pra passear

Eu juro, afeto e paz não vão te faltar

Ai, ai, ai

 

Atsushi suspirou e ergueu o rosto para fitá-lo, desalojando-o de seus cabelos. Havia uma emoção indefinível se esgueirando por trás daqueles óculos que En estava tendo certa dificuldade em ler, mas de certa forma não era estranha a ele.

Oh .

Era aquele olhar de quando estavam lutando juntos contra o monstro kotatsu ; aquele olhar franco, quente e carregado de afeto que havia purificado sua mente e seu coração daquelas ondas de ódio que o haviam atingido. Quem mais, além de Atsushi, conseguiria tal feito, no fim das contas?

Só que não estavam em batalha naquele momento. Estavam em casa , curtindo uma manhã preguiçosa de domingo numa rede apreciando a chuva mansa. Podia apreciar o poder daqueles olhos castanhos sem pressa, deixar os segundos escorrerem. Atsushi estava ali em seus braços e ele estava ali nos braços de Atsushi. Estava em paz.

Em um gesto totalmente natural, seus lábios buscaram a testa do amigo, deixando ali um beijo afetuoso. Viu os olhos de Atsushi se arregalarem por trás dos óculos, aquele rosto tão expressivo assumir um tom rubro, e apenas sorriu. Tudo bem, nunca havia feito aquilo antes, mas aquilo apenas… fluiu , e En se deixou levar como sempre fazia com tudo em sua vida.

Especialmente quando a correnteza o levava até Atsushi.

Após alguns momentos de aparente confusão, Atsushi sorriu largamente — aquele sorriso gostoso, dado com vontade, que os olhos até chegavam a se fechar. Aquele sorriso de Atsushi era o seu favorito. 

Como recompensa por aquela visão que sempre lhe aquecia o peito, beijou-lhe novamente a fronte, um pouco mais demoradamente desta vez. Ao recuar um pouco, viu que Atsushi ainda mantinha os olhos fechados e o sorriso nos lábios. Vulnerável, entregue . Atsushi confiava plenamente em En e jamais escondia isso. Na verdade, essa confiança enchia En de orgulho de si mesmo.

— Esse é o meu Atsushi…

Beijou-lhe a ponta do nariz brevemente e o outro riu baixinho, abrindo os olhos e o fitando diretamente.

— Esse é o meu En-chan…

Ficaram ali se olhando por um momento, o azul refletido no chocolate e vice-versa, a rede imóvel, o cheiro de comida começando a vir da cozinha, a chuva incessante indo ao encontro das folhas verdejantes no jardim; e então os lábios de En, tal qual as gotas preguiçosas que beijavam os trevos viçosos ali fora, também foram pousar no sorriso de Atsushi.

Natural .

Por um bom tempo En havia se perguntado como deveria ser beijar Atsushi. Imaginara que deveria ser como nos filmes, ou como nos versos intensos de canções enka românticas — algo que faria a terra tremer, o sangue ferver, os olhos transbordarem de lágrimas em um arroubo de paixão. Contudo… o roçar suave, superficial e carinhoso naqueles lábios macios lhe parecia natural como respirar.

Não que tivesse se decepcionado. Na verdade, percebeu que não tinha como esperar algo diferente.

Sentia Atsushi tremer ligeiramente em seus braços e recuou, fitando-o em ligeira indagação. O outro o fitava de volta com uma expressão algo confusa, como se quisesse ter certeza do que havia acabado de se passar ou estivesse processando o significado daquele gesto.

E então Atsushi tornou a sorrir aquele sorriso tão Atsushi , fechando os olhos por um momento naquele gesto, e o coração de En deu um pulo. Oh. Eis a tal intensidade, pelo visto. E Atsushi abriu os olhos, o sorriso ainda intacto, e o olhar dançou timidamente pelo rosto de En até pousar nos lábios cujo gosto tinha acabado de provar. Atsushi então inclinou um pouco a cabeça e tornou a fechar os olhos, devagar, em silêncio.

Não precisaria ter anos de experiência lendo Atsushi para entender o pedido do outro.

O novo encontro entre os lábios de En e Atsushi durou um pouco mais, mas manteve o ritmo calmo, suave e tão próprio deles dois. O enlace entre eles se estreitou, a rede balançando ligeiramente, mas o corpo de Atsushi permanecia relaxado em seus braços. Beijou-o mais uma e outra vez, alternando os prazeres do tato e os prazeres da visão daquele rosto corado e entregue; entre os olhares que diziam tudo sem verbalizar nada, En acabou perdendo a conta de quantas vezes havia mergulhado em Atsushi para colher seus beijos e suspiros.

Aliás, os suspiros de Atsushi! Conhecia os suspiros de tédio, frustração, exasperação, resignação — mas aqueles suspiros em especial, aqueles que Atsushi soltava em seus braços e dentro da sua boca, En estava determinado a guardar como tesouros em sua memória para sempre.

Um último suspiro escapou por entre os lábios de Atsushi antes de ele se encolher ligeiramente, afundando o rosto no ombro de En e se apertando mais a ele.

— O que foi isso, En-chan? — O murmúrio contra sua pele fez o próprio En suspirar daquela vez.

— Isso…?

— Você me entendeu.

Atsushi tornou a erguer o rosto para En, a expressão envergonhada e cautelosa. En entendeu. Sempre tão racional, o seu Atsushi. Queria causas, explicações, classificações, uma forma de entender. Era notável o quanto tinha medo de ter se deixado levar demais, se perder demais.

— Isso foi… — En refletiu por um momento — … como respirar.

Atsushi pestanejou algumas vezes, tentando acompanhar o raciocínio do amigo ( amigo? ), mas foi o olhar de En, mais que suas poucas palavras, que pareceu de fato transmitir o que ele realmente estava sentindo. En tinha certeza de que seus olhos traziam o brilho de alguém que se sentia vivo , e não tinha mais como esconder que era Atsushi, e somente ele, quem lhe causava tal efeito.

Como ar.

— Acho que… — A voz de Atsushi era pouco acima de um sussurro — … também.

En tornou a sorrir e aproximou seu rosto, vendo Atsushi tornar a fechar os olhos e entreabrir os lábios. Adorável . Ao beijá-lo mais uma vez, sentindo os dedos delicados do outro se embrenharem gentilmente em seus cabelos claros, só podia desejar que tudo o mais cessasse, parasse, adormecesse; que cada segundo que lhe restava pudesse ser gasto em desfrutar do calor e do amor de Atsushi.

 

Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar

E o tempo para

Ah, é a sorte de levar a hora pra passear

Pra cá e pra lá

Pra lá e pra cá

Quando aqui tu tá

 


 

— Acho melhor… deixarmos pra chamá-los daqui a alguns minutos.

Ibushi e Kinshiro, ainda trajando aventais, estavam à entrada da sala, fitando a varanda alguns metros adiante. A voz de Ibushi chegou baixinho aos ouvidos de Kinshiro.

— Sim. Mas não mais que alguns minutos, Arima, não quero saber de Yufuin fazendo coisas impróprias com At-chan antes de oficializarem as coisas como se deve.

— Oh? Você decididamente apoia, então. Tive receio de você só estar tentando ser gentil com Atsushi quando ele nos confessou os sentimentos dele mais cedo...

— O coração quer o que ele quer, e se esse… irresponsável, descuidado e preguiçoso é o que o coração de At-chan quer, então eu devo apoiar — Kinshiro tinha uma expressão decidida — Mas eu estarei de olho. Se Yufuin fizer qualquer coisa que possa magoar At-chan, ele vai se ver comigo. Pra começar, vou ter uma conversa séria com ele assim que At-chan estiver no banho pra deixar isso bem claro.

Yufuin aparentemente ganhou um sogro extra , Ibushi pensou divertido, mas não se atreveu a verbalizar.

— Estou certo de que ele se esforçará para fazer Atsushi feliz.

— … Eu também acho isso — Kinshiro admitiu em voz baixa — Se tem uma coisa que eu prezo em Yufuin é a forma como ele se preocupa com At-chan. Mas… — Empertigou-se — Não custa nada reforçar isso e estabelecer um código de conduta com ele. At-chan é puro demais pra certas coisas e preciso zelar pela mente inocente dele!

Ibushi apenas sorriu. Kinshiro gostava de se mostrar rígido, mas era perceptível que no fundo também havia aprendido a respeitar e até, quem diria, simpatizar com Yufuin.

Ademais, Kinshiro tem algumas ideias um pouco defasadas sobre a inocência de Atsushi...

— Melhor darmos um pouco de privacidade a eles — Disse por fim, indicando com a cabeça o rumo da cozinha.

— De fato… — Lançou um último olhar ao casal que se beijava sem pressa na rede — Espero que sejam realmente felizes…

A voz saiu suave e sincera. Ao se virar para se unir a Ibushi, teve a vaga impressão de ter visto o polegar de Yufuin sinalizando positivamente. Fingiu não ter reparado, mas enquanto caminhava os lábios traziam um ligeiro e incontido sorriso.

 


 

Os beijos estavam mais esporádicos, o humor preguiçoso de ambos permitindo que se entregassem à simples contemplação do jardim enquanto desfrutavam do calor do corpo do outro.

A conversa também já havia retomado o tom leve e aleatório que sempre tinha entre eles.

— Ei, Atsushi.

— Hum?

— Será que o beijo francês na França é conhecido só como “beijo”?

— De onde isso saiu? — Atsushi acabou rindo — Não sei. Poderia ser. Um beijo na França seria automaticamente francês… ou o beijo francês seria o beijo padrão pros franceses.

— Tome cuidado pra não pedir beijos na Grécia, então…

— Por qu…? — Atsushi pestanejou ao entender o que En havia insinuado e ficou cor de cereja — En-chan!!!

— Ora, só estou alertando sobre um possível mal-entendido…

— Você sabe que eu só pediria beijos na Grécia se fosse pra você, não sabe?

Uma pausa de alguns segundos, En encarando Atsushi com a sobrancelha arqueada e uma expressão entre divertida e maliciosa.

— Oh. Você me pediria esse tipo de coisa , Atsushi?

— Eu não quis dizer… oh, esqueça! — Atsushi desistiu de se fazer entender ao ver En rir abertamente — Enfim, enfim. Voltando ao assunto… chamar um beijo francês de “beijo francês francês” seria meio que um pleonasmo…? De forma bizarra, o que você disse até que faz sentido.

— Uhum. Mas fazer sentido não torna algo necessariamente verdade — En alisou o rosto de Atsushi. Não conseguia parar de tocá-lo — Você sabia que “ epinard ” significa “espinafre” em francês?

— O quê…? — Atsushi soltou um muxoxo frustrado, os lábios formando um ligeiro bico — Sério isso? Eu achava que pudesse ser “esmeralda” ou algo assim. Por que meu nome de herói não podia ser legal como o de vocês?

En riu baixinho e deslizou um dedo pelo biquinho de Atsushi.

— Que eu me lembre, o curry favorito do Vombate era de espinafre… você sempre foi o favorito dele e nem sabia.

— Grande consolo… — Atsushi rolou os olhos — Agora fico pensando no Caerula Adamas. Kin-chan, Ibu-chan e Akoya-kun entendem francês. Devem ter rido tanto da minha cara!

— Mas o seu símbolo é um trevo-de-quatro-folhas — Observou En — É o melhor de todos!

— Você acha?

— Eu acho ele perfeito pra você.

— Mesmo…? Por quê?

— Porque desde que eu coloquei as mãos em você, naquela tarde depois da escola… — A voz grave de En se encheu de afeto — A minha vida só melhorou mais e mais.

— Você… — A voz de Atsushi era terna — Não é como se eu tivesse te trazido sorte ou algo assim…

— Você me deu vontade de viver. Acho que isso é maior ainda…

Os olhos de Atsushi se encheram de uma emoção intensa e ele se abraçou forte a En, suspirando. Afagando devotadamente os cabelos azuis do rapaz, En concluiu, sincero:

— Pensando bem, foi a sorte que me trouxe você.

 

Tu é trevo de quatro folhas, é

Manhã de domingo à toa

Conversa rara e boa

Pedaço de sonho

Que faz meu querer acordar pra vida

Ai, ai, ai

 

Tu que tem esse abraço casa

Se decidir bater asa

Me leva contigo pra passear

Eu juro, afeto e paz não vão te faltar

Ai, ai, ai

 

Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar

E o tempo parar

Ah, é a sorte de levar a hora pra passear

Pra cá e pra lá

Pra lá e pra cá

Quando aqui tu tá

 

Tu, tu

Tu, tu

 

Ah, eu só quero o leve da vida pra te levar

E o tempo parar

Ah, é a sorte de levar a hora pra passear

Pra cá e pra lá

Pra lá e pra cá

Quando aqui tu tá

 

É trevo de quatro folhas

É trevo de quatro folhas, é

É trevo de quatro folhas

É trevo de quatro folhas, é

Notes:

Espero que eu tenha conseguido fazer jus a esse ship… particularmente acabei dando umas brisadas no decorrer da fic (por sinal, eu estava ouvindo “Trevo” no repeat justamente pra isso XD) e não sei se consegui transmitir toda essa aura no texto.

Novamente, IceAngelSimon, desejo toda felicidade do mundo a você! Que seus próximos aniversários possam ser felizes (e sem pandemia, amém)!

Obrigada por lerem, espero que tenham gostado!

Kissus,

Lune Kuruta (19/03/2021)