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Sentindo na pele

Summary:

Graças ao comportamento “feroz” de Bakugou durante as batalhas, cá e lá ele acabava muito machucado ou no hospital, o que sempre fazia Uraraka entrar em desespero.
Por Deus! Não importa quantas vezes já tivessem discutido sobre isso, ele nunca entendia. Ochako não aguentava mais…

Se seu parceiro ao menos sentisse na pele o que ela sente… Talvez tentasse ser um pouco mais prudente.

Notes:

Minha contribuição para o 3º Bimestre do Kacchako_Project!
Tema: Troca!

E, mais uma vez, não pude perder essa pequena oportunidade de angst e fluffy. Espero que gostem, queridos!
Boa leitura S2

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

– URARAKA!

O grito forte e atormentado escapou da boca de Bakugou, desestabilizando seus sentidos e fazendo-o cair de lado no chão, gemendo tanto pela dor do impacto – já que estava a alguns metros no ar –, quanto pela sensação do peso de seu corpo esmagando seu braço. Após um remexer doloroso de alguns segundos, o herói abriu e arregalou os olhos, levantando-se rapidamente e correndo para a beirada do barranco, onde caiu de joelhos pela tontura que o assolou, graças a seu movimento repentino, e inclinou-se com o apoio de sua mão sã, passando a procurar desesperadamente pela imagem de sua parceira.

Quando a viu, seus olhos congelaram e sua respiração cessou, dando-o tempo para processar a situação antes de se forçar a levantar, escorregando pela ribanceira de terra e tropeçando nos próprios pés, na intenção de alcançá-la o quanto antes. Quando o fez, Katsuki abaixou-se ao seu lado e levantou seu tronco em um dos braços, fazendo a heroína descansar em seu peito, enquanto ele esforçava-se para mover seu membro lesionado até o rosto dela, na intenção de estimular suas reações.

– Uraraka, ei! Me responda, merda!

Ele esbravejava, dando leves tapas nas bochechas fartas da mulher, que encontrava-se inconsciente, com a cabeça sangrando e com várias partes de seu uniforme tostadas, que expunham visivelmente sua pele queimada. Por mais angustiante que fossem seus toques, eles ainda foram carregados de uma certa cautela, sendo realizados somente com o único objetivo de fazê-la despertar. O que não aconteceu...

– Uraraka, porra, não faz isso comigo... Abre logo esses olhos! – ele gritava, seus dentes cerrando-se exageradamente a cada falta de resposta. – Ei...! Ochako...

A esse ponto, o desespero havia dominado totalmente o peito do rapaz, que sentiu os olhos arderem com a intensa vontade que suas lágrimas tinham de deslizarem de vez por seu rosto. Por Deus... Tudo bem que ele não era de ferro, porém Bakugou nunca se permitiria chorar na frente de quem quer que fosse de forma tão patética! Ou assim pelo menos pretendia, mas... Ah, ele estava tão assustado!

Katsuki estava com tanto medo, sentindo tanta culpa, tanta aflição, tanta ânsia, e estava com tanta raiva de si mesmo... Merda! Por que ele tinha que ter sido tão imprudente? Por que ele tinha que se deixar levar pela adrenalina do momento e criar uma explosão daquela intensidade? Por que ele não foi rápido o suficiente para desviar a direção de seu ataque? Por que ele não tentou segurá-la quando percebeu que ela seria lançada longe pelo impacto? Por que... ele tinha que ter brigado com ela naquela manhã?

Por sua causa, agora Uraraka estava desmaiada em seus braços, com queimaduras e sangue a cobrindo, vulnerável, toda machucada e possivelmente com alguma coisa quebrada. E era tudo culpa dele!

Realmente... ele era o pior dos parceiros.

– Ground Zero! Uravity! O socorro já está indo até vocês!

Alguém gritou de cima do barranco, a voz entrando por uma orelha de Katsuki e saindo pela outra, o herói ainda ocupado demais em segurar firmemente sua companheira de trabalho nos braços. Mesmo pronunciando pedidos mais murmurantes para que ela acordasse, suas íris ainda tremiam de aflição, com culpa e apreensão exalando em abundância.

Logo, vários socorristas apareceram, tomando cuidado em descer a ribanceira de terra para chegarem até os heróis. Quando o fizeram, foi necessário a insistência de um deles para que Bakugou os ouvisse e deixasse Ochako em suas mãos, a qual foi prontamente socorrida e colocada em uma prancha rígida, antes de ser carregada até a ambulância. Enquanto verificavam seu estado, Katsuki mal tirou os olhos de sua parceira, fazendo menção de levantar-se quando a levaram, mas sendo impedido pelos socorristas que terminavam de imobilizar provisoriamente seu braço, aparentemente, quebrado. Apesar de contrariado, Bakugou não resistiu, deixando-se levar pela dor de sua lesão e ferimentos e sendo “liberado” poucos minutos depois, finalmente voltando a insistir em suas vontades, dizendo que precisava ir para onde Uraraka foi levada o mais rápido possível.

Como o hospital de destino era o mesmo desde o princípio, os socorristas apenas concordaram, antes de recebê-lo com mais cuidado na traseira de uma das ambulâncias e enfim partirem. Katsuki permaneceu estranhamente quieto durante todo o percurso, cansado demais para agir como normalmente agiria, mas com a cabeça cheia demais para simplesmente descansar ou adormecer.

“Se ao menos estivesse no meu lugar nessas situações, você entenderia!”

Ele estava sentindo tudo aquilo na própria pele.

 

X ----- X ----- X ----- X ----- X

 

Fazia cinco anos desde que eles se formaram na U.A., e seis desde que tornaram-se amigos. Pra falar a verdade, nenhum dos dois sabe dizer ao certo como aproximaram-se tanto um do outro, só que... Aconteceu. Não que eles reclamem disso, pelo contrário, por mais que não admitam, são muito felizes por terem essa forte amizade entre si.

A relação deles é curiosa, senão, no mínimo, intrigante. Mesmo com personalidades tão diferentes, Bakugou e Uraraka conseguem se dar extremamente bem, seja em campo de batalha, ou nas situações do cotidiano. Ainda depois de virarem adultos, suas interações continuaram normalmente – graças ao fato de ambos trabalharem na mesma agência –, o que só contribuiu mais para o crescimento de sua intimidade ao longo dos anos, chegando ao ponto deles frequentarem a casa um do outro com casualidade, fosse para fazerem horas extras, ou simplesmente passar o tempo.

É claro que no meio disso tudo, o que não faltava também eram discussões e broncas dos mais variados tipos, desde as mais idiotas, até as mais sérias – as quais, porém, eram raras. Para a irritação de Katsuki, nos últimos meses, o assunto de suas brigas eram todos voltados para ele e sua “imprudência” com relação a ferimentos.

– Por Deus! É tão difícil pra você tentar não se machucar durante o trabalho?!

Era a pergunta que ele mais ouvia sair da boca dela durante esses momentos. O homem nunca conseguiu entender o motivo de Ochako preocupar-se tanto consigo, afinal, como um herói, arranhões e lesões não eram coisas tão simples de serem evitadas. E por mais que dissesse isso, ele nunca escapava das broncas dela a respeito dele poder ser mais cauteloso, ou tentar não correr sempre para o perigo sem medir as consequências e outras bobagens assim. Na maioria das vezes, Bakugou apenas revirava os olhos e a ignorava. Contudo, quando estava de mal humor, as coisas costumavam terminar da pior maneira possível.

Como aconteceu naquela manhã.

Eles tiveram uma briga feia pouco tempo depois que ele acordou, encontrando-a preparando um café em sua cozinha. Graças a uma missão do dia anterior, alguns hematomas arroxeados estavam visíveis em sua pele, sendo que a maior parte de seus ferimentos mais graves havia sido curada com a individualidade de um dos médicos. Uraraka estava ali durante a manhã especialmente para vê-lo, afinal, havia acompanhado a luta e notícias pela televisão – e ela não parecia nada feliz com o que havia acontecido.

Foi durante o pesado e silencioso café da manhã que tudo começou, com ela citando o trabalho e esperando ele responder suas perguntas sobre, levando-o pouco a pouco para o ponto onde queria chegar. Quando a mulher passou a questionar sua imprudência com seu corpo e machucados, Bakugou enfim perdeu a pouca paciência que tinha, transformando aquele diálogo repreensivo em uma discussão com apenas alguns gritos, que foram prontamente retribuídos. Ambos exaltaram-se e bateram as mãos contra a mesa, colocando-se de pé, enquanto encaravam-se de modo irritado. Por mais repetitivo que fosse a cena, essa era uma das raras vezes onde a situação estava seriamente tensa.

– Por que é tão difícil para você entender que, como um fodendo herói, eu não posso simplesmente fugir de tudo e qualquer coisa que possa me machucar?!

– Eu entendo isso perfeitamente, Katsuki! Não sou idiota a ponto de não ter consciência dos riscos de nossa profissão. Mas o que estou tentando te dizer, há muito, MUITO tempo, é apenas pra você ser mais prudente em combate! Sabe, ainda dá pra lutar sem ter que mergulhar de cabeça nos ataques dos vilões!

– Tsc! Pare de me dizer o que eu tenho que fazer e cuide dos seus próprios negócios! Você é realmente dramática e irritante quando quer, sabia?

– E você é impossível!! – na hora, ela esbravejou ainda mais alto, já sem paciência também. – Se ao menos estivesse no meu lugar nessas situações, você entenderia!

– Foda-se!

– Eu realmente espero que você possa sentir isso na pele algum dia!

Bochechuda idiota! Por que foi desejar que isso acontecesse...?

Sentado em uma das cadeiras do corredor, Katsuki mantinha-se com a testa apoiada na mão, enquanto seu cotovelo repousava sobre um de seus joelhos. Seu braço esquerdo estava engessado e sendo sustentado por uma tipoia, enquanto seu corpo estava repleto de curativos e ataduras; ele ainda usava seu uniforme de herói, com exceção das manoplas e sua máscara. Com um suspiro cansado, o homem logo abriu os olhos – até então fechados –, olhando para o cinza frio do piso enquanto sentia o peso do efeito colateral da individualidade curativa de um dos médicos, que parecia anestesiar seus músculos e deixá-lo com uma sensação de relaxamento e sonolência. Em ocasiões normais, ele até poderia cochilar ou dar-se o luxo de dormir um pouco, no entanto, agora, isso era a última coisa que ele conseguiria fazer.

Fazia algumas horas desde que eles foram levados para o hospital, tendo sido separados logo que entraram no prédio. Ao mesmo tempo que os enfermeiros levaram sua parceira para a emergência, ele foi encaminhado para a ala oposta, onde posteriormente seus ferimentos foram tratados. Após o atendimento, o doutor liberou Bakugou, instruindo-o sobre os cuidados com seu braço fraturado e explicando sobre a pouca gravidade dos machucados de seu corpo, recomendando que procurasse descansar em domicílio pelas próximas 24 horas, no mínimo. É claro que ir pra casa era a última coisa que Katsuki pretendia naquele momento, afinal, não conseguiria ir embora enquanto não tivesse notícias satisfatórias sobre Ochako.

E era justamente por isso que ele estava naquele corredor agora, com uma exaustão que ia do seu corpo até a mente. O homem não sabia ao certo o que estava acontecendo dentro da ala de emergência e muito menos do motivo que impedia as informações a respeito de sua parceira de chegarem até si, o que estava deixando-o simplesmente louco. Ele não conseguiria sossegar enquanto não tivesse garantia de que ela estava bem.

Tendo se cansado de ficar sentado, Bakugou levantou e passou a andar de um lado pro outro repetidas vezes, com seu braço são “cruzado” sobre o quebrado. Sua cabeça estava repleta de pensamentos conflituosos, ora dizendo tudo, ora dizendo nada, apenas para seu maior tormento, que o fazia franzir as sobrancelhas em desgosto. E, para perturbá-lo ainda mais, seu peito continuava apertando-se continuamente com uma sensação angustiante a qual ele não estava nada familiarizado. Aqueles sentimentos eram um saco!

De repente, a porta ao fim do corredor foi aberta por um dos médicos, que pretendia seguir seu caminho, mas parou ao deparar-se com Katsuki olhando-o com expectativa. O profissional mal teve tempo de abrir a boca quando o herói avançou a rápidos passos, ficando frente a frente à ele.

– Ocha-Uravity! Ela está bem?

– Você é algum familiar dela?

– Porra, não!

– Hum, então peço desculpas, mas eu não posso-

– Eu sou seu parceiro de trabalho e vim com ela pra cá. Eu PRECISO saber como ela está! – Bakugou o cortou, impacientemente aflito.

– P-parceiro? – o médico repetiu, fraquejando contra o tom grave e um tanto intimidador. – Oh, você é Ground Zero?

– Sim!!

– Ah, bom, se é assim... Acho que não terei problemas em abrir uma exceção. – ele concluiu, levando os olhos para a prancheta que segurava.

– E então?

Os segundos que o doutor demorou para analisar a ficha pareceram uma eternidade aos olhos de Katsuki, que sentia o corpo tremendo e a garganta fechada pela ansiedade que o tomava. Agora ele saberia. Ochako estava bem? Ela estava muito machucada? Qual a gravidade da situação? Ela já havia acordado? Ele poderia vê-la? Ou então... Será que algo ruim aconteceu? Será que ele havia provocado uma tragédia? Merda, não! Aquela cabeça dura não morreria por algo assim... Não é? Não, com certeza não. Idiota! Pare de pensar nessas bobagens!

– Uraraka Ochako encontra-se estável e em observação, no momento – o médico enfim revelou, fazendo com que o homem soltasse todo o ar que segurava, e que até então não havia notado estar contendo. – Ela já passou pelos exames e procedimentos necessários, e suas queimaduras e machucados foram tratados. No entanto, permanece inconsciente desde o momento que chegou, provavelmente, por conta de sua lesão na cabeça.

– O quê? – os olhos de Bakugou arregalaram-se afligidos. – O que aconteceu com a cabeça dela?!

– Nós identificamos uma lesão resultante de uma possível e forte pancada, o que pode ter sido o fator responsável por fazê-la desmaiar. No entanto, depois das avaliações que realizamos, concluímos que seu caso se resume a uma concussão cerebral simples, com mínimas chances de complicações.

– O q... Fale de um jeito que eu possa entender, caramba!

O herói esbravejou, porém, a preocupação era evidente tanto nos aspectos de sua voz, quando em sua postura e respiração, o que não passou despercebido pelo médico. Levantando o olhar para encarar o homem impaciente, o profissional de saúde sorriu, antes de explicar-se:

– Uravity está bem e fora de quaisquer riscos. Nossa expectativa para sua melhora é alta e esperamos que ela acorde em breve. Quanto às possíveis consequências da lesão, só poderão ser analisadas após a volta de sua consciência, contudo, as chances de ser algo grave são mínimas. Fique tranquilo!

Assim que deu a palavra final, ele pôde ver os ombros e peito de Katsuki relaxarem. O herói, então, fechou os olhos e ergueu sua mão até rosto, esfregando com os dedos e levando a palma até a testa, puxando seu cabelo para trás enquanto seu corpo expressava completo alívio. Ele murmurou algo e suspirou, antes de abrir as pálpebras e voltar sua atenção ao doutor, com um olhar curiosamente mais suave.

– Eu posso vê-la?

– Como ela está fora de perigo e em uma sala de observação: sim, você pode visitá-la.

Amansando-se, o rapaz explosivo assentiu, passando a caminhar junto com o médico quando este virou-se e começou a guiá-lo pelos corredores, em direção aos quartos de repouso. Após algum tempo, eles chegaram e o doutor tomou a frente, adentrando o recinto.

– Um de nossos enfermeiros tem a individualidade de acelerar o processo de recuperação de um corpo machucado, acho que você já encontrou com ele – o homem de jaleco disse, focando o olhar no braço engessado de Bakugou. – Ele já fez sua parte nos cuidados da senhorita Uraraka. Seus ferimentos mais leves estarão completamente curados dentro de algumas horas, e os mais “graves” em alguns dias – ele informava, deixando a prancheta que segurava em um suporte anexado na parte da frente do leito. – Bem, deixarei vocês a sós. Qualquer emergência, basta chamar – e, então, saiu da sala, fechando a porta antes de ir.

Quando ficou sozinho, Katsuki permaneceu parado e fixou seus olhos na figura inconsciente de sua parceira, demorando-se alguns bons segundos antes de se aproximar. Deitada sobre a cama, Ochako parecia adormecida, mas sem proferir os suaves roncos que o herói tanto divertia-se em ouvir nos momentos em que, por acaso, ela cochilava no sofá de sua casa ou escritório. Em sua veia, o soro penetrava através de uma agulha, enquanto as partes exposta de sua pele encontravam-se, em sua maioria, envolvidas por faixas e curativos, assim como ao redor de sua cabeça. Apesar de inconsciente, suas sobrancelhas estavam deitadas de forma inquieta, evidenciando sua aflição.

Durante o tempo que a fitou, Bakugou só conseguia pensar em quanto detestava vê-la nesse estado. Era muito melhor quando ele podia ver aquele sorriso bobo e constante...

Suspirando fraco, o herói levantou a mão na intenção de retirar alguns fios de cabelo rebeldes do rosto de sua companheira, porém, parou a poucos centímetros de sua pele, com hesitação. Por um instante, a culpa de ter sido o responsável por machucá-la tomou conta de seu peito e ele sentiu-se sem o direito de tocá-la. Um peso enorme caiu sob sua consciência, fazendo-o fechar os olhos brevemente, antes de retrair o braço e dar um passo para trás, sentando-se na poltrona de acompanhante da sala segundos depois.

Silenciosamente, o homem continuou a encarando, somente com o tic-tac do relógio preenchendo seus ouvidos. A voz doce e incansável de Uraraka, de repente, começou a fazer falta, levando-o a relembrar dos momentos em que ela começava a tagarelar do nada, fosse sobre algo que gostasse, ou quando reclamava de si. Mesmo nunca admitindo, ele sempre divertia-se com a empolgação dela ao falar e... Ao fazer outras coisas também.

Conforme os segundos passavam, Katsuki pensava em como sentiria pesar se, por obra do acaso, sua amiga saísse de sua vida. Se isso acontecesse, ele nunca mais a veria encher as bochechas de comida de novo, nem poderia mais provocá-la ou rir de suas reações; ela já não estaria ali pra salvar suas noites de festas e entrevistas obrigatórias do tédio, e muito menos estaria ao seu lado nas missões para fazê-lo gritar internamente: “Foda-se, minha parceira é incrível!”. Um mundo sem Ochako com ele... não era algo que queria imaginar.

Balançando nervosamente sua cabeça, o herói franziu o cenho e cerrou o olhar, irritado por estar pensando em coisas tão pateticamente melancólicas. Porra! Não é como se Uraraka estivesse morrendo ou algo assim, pelo contrário: o médico disse que ela estava bem e fora de perigo. Não havia motivos para se preocupar! Não... não é?

Então... por que ele continuava sentindo tanto essa inquietação irritante!?

Curvando-se para frente, Bakugou voltou a apoiar seu cotovelo sobre o joelho e a testa sobre sua mão sã – da mesma maneira que fazia quando estava no corredor –, apenas para começar a encarar o chão. Enquanto “admirava” o branco dos pisos, ele lembrava das discussões que havia tido com a mulher nos últimos meses, especificamente, daquelas em que ela brigava consigo por sua imprudência e falta de cuidado em campo de batalha. Em praticamente todas as situações, ele simplesmente a ignorou ou revirou os olhos, gritando de volta que sua preocupação era exagerada e sem sentido. Isso só servia para deixá-la ainda mais irritada, tornando as desavenças ainda piores.

A verdade, é que o herói realmente não enxergava motivo algum para ela pegar tanto no seu pé por conta daquilo, mas também nunca havia se colocado à disposição para tentar compreender o lado dela. Pelo jeito, a vida pretendia submetê-lo à empatia por bem ou por mal... E infelizmente, ela optou pelo pior caminho possível.

Quer dizer, tudo o que borbulhava em sua mente e peito agora... Seria isso que ela sempre sentia em todas as vezes que ele voltava ferido do trabalho? Angústia, apreensão, desconforto, inquietação, nervosismo, preocupação... Se sim, ele estava fodidamente arrependido por não ter levado a sério nenhuma dessas discussões, até porque...

Sentir isso era horrível!

Vê-la inconsciente era horrível. Vê-la machucada era horrível. Vê-la nesse estado era horrível... Ter tido a sensação de que poderia perdê-la FOI HORRÍVEL!

Katsuki estava bravo por ela ter desejado que isso acontecesse – mesmo que possivelmente tenha sido algo apenas no calor do momento –, mas ainda mais nervoso por ter deixado que ela se machucasse. Está certo que, sendo ambos heróis, ferimentos pós-batalhas não eram nenhuma surpresa, porém... Caramba! Se eles ao menos tivessem sido menos imprudentes, se ao menos tivessem sido mais cuidadosos, ou qualquer coisa assim, então, talvez, as coisas não teriam terminado assim! Se ele ao menos não tivesse jogado-se contra o inimigo sem pensar nas consequências... Se ela ao menos não tivesse feito isso também...

Eles fizeram justamente o que ela sempre lhe dizia para tentar não fazer. Bakugou só conseguia ouvir a voz de Ochako repetindo essas palavras em sua cabeça.

– E pensar que agora sou eu quem está pensando e considerando essas coisas... – ele murmurou, levantando o olhar para a mulher. – É quase como se tivéssemos trocado de lugar.

Comentou e, apesar de seguir encarando-a, não obteve nenhuma resposta senão o doloroso e desconfortável silêncio, que o fez suspirar. Com isso, ele jogou-se de vez contra a poltrona e afundou-se na mesma, enquanto abaixava o rosto, escondendo suas feições.

– E, sinceramente... Eu não gostei nada disso.

 

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“Bak... gou... Baku...”

Os olhos do herói abriram-se lentamente conforme a voz ecoava em sua cabeça, sendo que ele demorou alguns segundos para processar a realidade ao acordar. Como sua visão ainda estava embaçada, Katsuki piscou algumas vezes, antes de sentir o corpo dormente. Com um grunhido incômodo, ele remexeu-se, notando que não encontrava-se em sua cama, e sim sentado em algum lugar.

– Bakugou...

Quando seu nome foi chamado, dessa vez, o homem arregalou o olhar, dando um pulo na poltrona e gemendo de dor ao bater seu braço na mesma, antes de virar a cabeça em direção a cama a sua frente de modo exaltado, apenas para ver as íris castanhas e cerradas de Uraraka o encarando.

Piscando com certa incredulidade, o herói certificou-se de garantir que não estava apenas num sonho idiota, antes de colocar-se de pé e cambalear até o leito, desnorteado graças ao movimento súbito. Ainda sem mexer-se muito, a mulher acompanhou a aproximação de seu parceiro com os olhos, até o momento em que ele apoiou as mãos contra o colchão.

– Uraraka...

– ... Bakugou, o que... o que aconteceu?

Quando ouviu a voz dela, o peito do homem apertou-se com a lembrança de quando ela estava desmaiada em seus braços, sem poder respondê-lo como agora, o que só foi motivo para que algo ruim se formasse em sua garganta e o fizesse engolir seco. Ele sentiu uma leve ardência nos olhos, mas ignorou a sensação e cerrou as sobrancelhas, bem como os dentes também.

– Porra, Uraraka! Não me assuste assim!

– Huh? – ela piscou algumas vezes, confusa.

– Você tem ideia de como eu me senti nessas horas, dias, sei lá quanto tempo passou?! De como foi irritante ter todas aquelas merdas de pensamentos e sentimentos negativos? Caramba! Eu fiquei tão puto, tão assustado, tão preocup-... – ele parou assim que deu-se conta do quanto estava falando e conteve-se, fechando os olhos com fingido nervosismo. – Nunca mais faça isso de novo!

– Fa-fazer o quê exatamente? – a mulher gaguejou em tom fraco, não entendendo praticamente nada.

– Se machucar assim, caralho! – ele retrucou, como se fosse óbvio. – Eu sei que foi tudo culpa minha e daquela maldita explosão, mas será que você não poderia TENTAR não acabar tão fodida?

– ... – com os olhos mais espertos, Ochako pareceu surpresa e encarou seu parceiro por alguns segundos, antes de procurar respondê-lo. – Eh, você está me pedindo para não me machucar, mesmo sabendo que sou uma heroína e que não posso simplesmente fugir disso durante o meu trabalho?

– Hah!?

Ele ergueu a cabeça explosivamente na direção do rosto dela, apenas para deparar-se com a presença de um sorriso presunçoso em seus lábios, que fazia par com um olhar zombeteiro. Sabendo que ela havia dito a mesma coisa que ele disse durante a última discussão dos dois, Katsuki notou que ele também estava agindo como ela e, por uma única e raríssima vez, aceitou sua “derrota”, revirando os olhos enquanto cruzava seu braço são sobre o quebrado, em uma pose de frustração.

– Tsc! – proferiu, com as bochechas começando a ganhar um certo calor.

– Hehe, não achei que fosse te ver assim algum dia. – ela fechou os olhos e riu fraco, sem abandonar sua sensação vitoriosa em seu tom.

– Fique quieta...

– Apesar de que... não sei exatamente o porquê de estar aqui.

– ... Você não se lembra? – ele voltou seu olhar a ela.

– Hum, é um pouco confuso... A última coisa que me recordo é de nós dois começando a lutar contra alguns vilões, e... Bem, só.

Um tanto surpreso pela revelação, Katsuki levou a mão ao queixo e questionou se isso estava relacionado com as possíveis consequências da lesão que o médico havia citado. Ele não podia esquecer de comentar sobre isso quando o doutor viesse examiná-la.

– Ei, Bakugou... O que aconteceu?

– ... – o herói olhou pra ela, antes de dar as costas e seguir caminho até a poltrona. – Você não precisa saber.

– Quê!? – ela exclamou indignada, franzindo o cenho. – Eu preciso sim! Tenho todo o direito de saber. Vamos, me conte porque você ficou tão assustado como disse antes, estou curiosa.

– De jeito nenhum! – ele devolve, voltado a lançar-se sentado no móvel até confortável.

– Katsuki!

– Não adianta.

– Argh... Se eu pelo menos conseguisse me mexer...! Por que meu corpo está tão pesado, hein?

– O médico pode te explicar quando chegar. – o homem fechou confortavelmente os olhos, evitando a claridade da manhã.

– Por Deus, você é tão insuportável....

Ela resmungou, porém ele apenas abriu um sorriso discreto e relaxou, sentindo-se estranhamente bem por provocá-la e ouvi-la retrucar assim. Sua voz tagarela realmente fazia falta... Durante o tempo que entregava-se ao conforto da poltrona, Bakugou finalmente sentiu uma onda de alívio o inundar, anestesiando seus músculos de uma forma que nem mesmo a individualidade do tal enfermeiro fez antes. Logo, o cansaço fez-se presente – graças a uma noite praticamente não dormida –, fazendo-o bocejar.

Diferentemente de antes, nenhum sentimento ansioso estava fazendo seu estômago revirar, e somente o peso em sua consciência parecia se fazer presente – ele poderia lidar com isso outra hora. Tendo visto mais uma vez o brilho daqueles olhos castanhos, aquele sorriso bobo, escutado aquela voz doce e garantido que sua parceira estava bem...

É. Agora Katsuki finalmente poderia descansar.

Notes:

Eu espero que tenham gostado!
Eu simplesmente amo essa ideia de uma amizade Kacchako que, posteriormente, pode evoluir para "algo a mais", ou simplesmente tornar-se mais forte. É maravilhosa!

Muito obrigada por lerem!

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