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O céu no início de fevereiro era estranhamente mais azul. Talvez fosse pelo clima mais quente — ou talvez o céu de inverno era tão cinza que se tornava impactante.
Fosse o quê fosse, era inevitável não divagar olhando para ele. Mesmo que isso significasse eu perder o tempo do sinaleiro ou acabar impedindo a passagem de alguém; esbarrões eram tão comuns que eu não me importava mais de todo modo.
O vibrar do meu celular, contudo, era mais importante do que aquela peculiar visão — ainda que eu a visse todos os anos nessa época.
Akechi Goro: “Você ainda pretende vir aqui hoje?”
Ergui uma das sobrancelhas, estranhando. Era uma pergunta inútil. E se eu o conhecia bem — assumia conhecer, afinal, estaria fazendo dois anos desde o nosso primeiro encontro — Akechi não gostava de perguntas inúteis. Tampouco fazia perguntas inúteis.
Arisato Minato: “Sim. Era o nosso combinado. Eu só estou um pouco atrasado... Aconteceu alguma coisa?”
Akechi Goro: “Não.”
Arisato Minato: “Você pode mentir para qualquer um, menos para mim. Eu não nasci ontem e você sabe disso. O que aconteceu?”
Visualizado e não respondido. Suspirei, percebendo o sinaleiro abrir novamente. Atravessei a rua com um pouco de pressa, os fones escorregando das orelhas pelo caminhar mais fundo.
Certas coisas talvez não mudariam tão logo para ele. Tudo demandava tempo — eu mais do que ninguém sabia disso. Não poderia deixar de me sentir ansioso ou inseguro, contudo.
A vibração daquela vez havia me assustado; enrolei-me para conseguir tirar o celular do bolso e ler a mensagem:
Akechi Goro: “Não estou me sentindo bem. Por isso a pergunta, se é o que estava se questionando.”
Ah. Faz sentido.
Fiquei alguns momentos olhando para a tela touch, batendo com o dedo na lateral do aparelho enquanto pensava no que responder. As pessoas passavam apressadas ao meu redor — apesar da cidade menor, certas coisas pareciam não mudar.
Encostei-me mais ao canto da calçada, liberando espaço aos pedestres mais apressados. O vai e vem era incômodo do mesmo modo que era reconfortante.
Olhei para trás e percebi que estava em frente à uma loja de conveniências. Pisquei, as engrenagens se movendo mais rapidamente na minha cabeça naquele momento.
Arisato Minato: “Eu vou passar na loja de conveniências e já chego aí. Me espere!”
Enfiei outra vez o celular no bolso e entrei. Se tinha uma coisa que a primavera tinha eram coisas gostosas — e certamente algo gostoso seria útil naquela situação.
Era uma tentativa. Não estaria perdendo nada de todo modo.
Quando cheguei ao seu apartamento, passei um longo segundo ponderando se tocava a campainha. Novamente, se eu o conhecia, era capaz de não levantar para me atender.
Não porque não queria me ver. Ele simplesmente não conseguia — Goro era uma pessoa que quando estava mal, ele estava mal. Nem mesmo se o fim do mundo estivesse acontecendo o faria se mover.
Bom, eu precisei do fim do mundo para me mover. Talvez não fosse uma boa comparação.
De todo modo, optei por pegar a chave reserva — ele a deixava escondido em um buraco estrategicamente feito na porta. Disse-me certa vez que ele já estava ali e só se aproveitou da deixa. Fosse como fosse, eu sabia onde ficava para situações como aquela.
Ou isso ou ele morreria, provavelmente. E eu gostaria que isso fosse mais retórico.
Destranquei a porta e qual não foi a minha surpresa ao perceber o apartamento todo escuro — a luz da rua produzia uma penumbra irritante dentro do pequeno corredor de entrada. Suspirei, encostando a porta e acendendo a luz para não acabar tropeçando em algo.
A minha recepção foi um grunhido baixo e irritadiço.
— Cheguei. — Anunciei. Não precisava de formalidades maiores do que aquela de todo modo.
Retirei os sapatos e fui caminhando para a pequena cozinha — ela fazia divisa com o que era a sua sala-quarto. Além desse minúsculo cômodo, havia um banheiro. Era o suficiente para uma só pessoa de toda forma.
Principalmente uma pessoa como Goro, eu supunha.
Deixei as sacolas sobre a pia e olhei para o futon largado ao centro da sala, as roupas espalhadas pelos lados, a pequena cômoda toda revirada.
A perfeita bagunça. Outro suspiro.
— Hey. — Chamei-o. Goro sequer retirou a cabeça debaixo das cobertas; ao menos se remexeu. — Obrigado por comprovar que está vivo. Apesar do grunhido ser uma prova disso de todo modo.
Minha resposta foi outro som não identificável — sua voz parecia mais rouca do que o costumeiro e eu suspeitava a razão disso.
Calmamente, caminhei até estar ao lado do futon, abaixando-me em seguida. Conseguia perceber o seu respirar pelo movimento das cobertas — estava compassado; ao menos por agora.
— Goro. — Chamei-o outra vez, podendo ter o vislumbre de suas mechas caramelo quando a coberta desceu um pouco. Levei meus dedos até a beirada dela, descendo-a vagarosamente até que seu rosto surgisse diante dos meus olhos. — Goro. — De novo, na voz mais afável que eu conseguia, o tom baixo.
Ele remexeu-se mais e foi abrindo os olhos, parecendo incomodado pela claridade — era possível ver as olheiras e o inchaço das pálpebras. O carmesim de suas íris estava mais vívido, quase um vermelho sangue. Não bastasse todo o restante, aquela era a maior prova de que ele havia chorado.
E não foi pouco.
Levei meus dedos até suas mechas, enroscando-os por entre os fios, percebendo sua textura atentamente — estavam ensebados, o que comprovava que ele havia suado muito durante a noite; provavelmente o dia todo também.
Mas se estava com aquela coberta, significava que estava com frio. E eu suspeitava que esse frio não era de uma iminente febre.
Percebi como Goro, lentamente, foi se aproximando mais dos meus dedos, recebendo mais o meu toque. Sorri pequeno, apreciando seu gesto. Toda vez que ele se abria para mim, por menor que fosse a brecha, era uma vitória enorme.
Considerava uma superação pessoal, inclusive.
— Quer conversar sobre o que aconteceu dessa vez? — Perguntei de forma direta, porém não invasiva. As íris carmesim estavam letárgicas, ponderando minha pergunta, rastejando-se para me responder.
— Eu... — Ele respirou bem fundo. Senti como se ele roubasse o meu ar com aquilo; ou talvez o próprio cômodo carecesse dele, já que estava tudo fechado. — Hm... uh.
— Ok, vamos tentar diferente. Eu trouxe geléia de morango e sakura-yu. O que acha de tomar um banho enquanto eu arejo tudo isso, depois comemos algo?
Notei quando seus olhos encontraram os meus — o contraste do azul com o carmesim era intenso, pontual. Uma série de coisas foram ditas naquele instante — um coração que se expressa a outro sem usar palavras.
— ... Tudo bem. — Foram o que seus lábios me disseram. O sorriso foi aumentando mais em meu rosto.
Vitórias pessoais.
Cedi espaço para que ele se levantasse e pudesse ir ao banheiro. Goro simplesmente se atirou para dentro, fechando a porta, não se importando com toalha ou muda de roupa. Dei de ombros — deixaria na maçaneta para ele, ao menos.
Prontamente abri as janelas, estendi as cobertas, bati e dobrei o futon. Em seguida, comecei a pegar as peças jogadas, separando as sujas das limpas, aproveitando para deixar a muda na maçaneta do banheiro.
Conseguia ouvir o som da água corrente do chuveiro, vez ou outra um suspiro mais alto — talvez uma forma de acentuar seu cansaço, talvez uma maneira de me deixar ciente de que ele estava ali e “bem”.
Ainda que essa definição passasse longe dele.
Terminei de ajeitar as peças limpas nas devidas gavetas da cômoda e as demais coloquei em um pequeno cesto de roupas logo ao lado para que ele levasse em alguma lavanderia.
Estava me encaminhando à cozinha quando ouvi a porta se abrir. Virei-me instantaneamente, cruzando com um par de olhos carmesim assustados, seu peito desnudo praticamente se exibindo pra mim.
— A–ah... — Observei como o rosa nascia na ponta de seu pescoço e rapidamente tomava todo o seu rosto, inclusive sua testa. Goro parecia que iria entrar em combustão. — Mi–Minato-senpai! Não olhe, por favor! — Pediu, meio desesperado, encolhendo-se mais atrás da porta.
— Tudo bem. — Eu segurava o riso, mas era inegável, porque a minha expressão denunciava; ao lado dele, parecia muito mais fácil demonstrar as coisas. — Mas você sabe que não adianta nada, não é? Afinal, nós já tran–!
— Ok, não precisa me lembrar disso nesse instante. Deixe para uma hora mais oportuna. — Goro bateu a porta do banheiro e eu gargalhei. Certas coisas não poderiam ser mudadas, supunha.
Voltei à cozinha, procurando pelos armários algum pão ou torrada ou o que fosse para usar a geléia. Vasculhei praticamente tudo, estranhando.
Achei o que parecia um pacote já aberto e meio velho de pão; fiz bico, franzindo o cenho.
— Você vive do quê, cup noodles?! — Pestanejei, sabendo exatamente que Goro havia saído do banheiro pelo barulho. Quando me virei para ele, estava com uma sobrancelha arqueada, parecendo ofendido. — É sério?!
— Você esperava o quê? Que o ilustre sucessor do Príncipe Detetive soubesse cozinhar especiarias?
— Você tinha um blog de gastronomia!
— Eu comia em restaurantes na época. — Ele esfregou as têmporas e eu revirei os olhos. — Hoje eu não tenho tempo, tampouco paciência ou vontade de cozinhar.
— Um pouco de atenção à sua saúde me faria uns dez favores, sabe? — Nos encaramos e eu percebi como, lentamente, a postura de Akechi foi perdendo vigor: os ombros caindo, o peito desinchando, o olhar tornando-se mais opaco. — Goro...
— Senpai não trouxe geléia e sakura-yu? Então, hoje vou comer algo diferente. Nos outros dias... eu tento como posso. — Ele suspirou e eu mordi a ponta do lábio, incerto. — Se te tranquiliza, normalmente é na janta. Eu procuro fazer um almoço saudável.
— Obento de loja de conveniências?
— Restaurantes! — Eu ri contido e ele revirou os olhos, desacreditado.
Voltei minha atenção aos pedaços de pão — apesar de velhos, ainda eram comestíveis. Não que fossem muito também; só não deveriam estar realmente apetitosos.
Na situação dele, qualquer coisa seria apetitosa, não?
Pude ouvir no instante em que ele se apoiou em um dos bancos para ficar junto ao balcão; de soslaio, reparei no modo como Goro apoiou o rosto na mão, os olhos se fechando.
— Ainda com sono? Não estava dormindo até agora? — Questionei; ele assustou-se com o soar da minha voz.
— Na verdade... — Ele suspirou pesadamente. Assistia como seus olhos pareciam focar nada e, ao mesmo tempo, um ponto qualquer no armário à sua frente. — Eu não dormi à noite. Talvez uma ou duas horas. Não sei precisar ao certo, foram cochilos muito rápidos e... — Goro bocejou, fechando novamente os olhos. — Eu só consegui relaxar nesse instante.
— Foi minha presença, não foi? Vamos, admita! — Comentei em tom de brincadeira. A forma como sua postura suavizou fez meu coração apertar. — Ah, Goro...
— Sinto muito. Eu não deveria depender tanto de você, não é mesmo, senpai? — Seu sorriso era melancólico. — Às vezes eu... imagino que eu não deveria ter sobrevivido a tudo o que aconteceu.
Estreitei perigosamente a vista, apertando a faca que havia acabado de pegar do gaveteiro entre os dedos. Um passo e eu estava à sua frente; coloquei os pães, a faca e, por fim, o pote de geléia diante dele. No instante em que seus carmesins cruzaram com os meus, Goro engoliu a saliva, incerto.
— “O que aconteceu” eu não sei. — Comecei, a expressão cada vez mais séria. Percebia como ele tentava fugir do meu olhar, mas era em vão. — Mas se tem uma coisa que eu tenho certeza é que você deveria ter sobrevivido. Como sobreviveu. E como sobrevive ainda hoje.
Com um clac a tampa do pote se abriu e eu o coloquei novamente no balcão. Goro trocava olhares entre eu, o pote, a faca e o pão — parecia não entender o que se desenrolava à sua frente; como se cada movimento meu tivesse um significado. Ergui uma sobrancelha, debochado.
— Entenda, Goro, que ninguém nesse mundo merece um fim triste, por mais terrível que essa pessoa seja. — Comecei, passando a geléia em um pedaço de pão e espalhando-a gentilmente. — Se essa pessoa errou, ela deve ter a chance de se redimir. Se ela não quiser se redimir... paciência. Uma hora, as coisas irão retornar à ela; nesse momento, ela irá repensar seus atos, talvez.
— Lei do retorno? — Ele riu, ironia pingando de sua voz. Estreitei a vista, dobrando a fatia de pão depois de terminar de passar a geléia nela.
— Eu prefiro: “o mundo gira e os vacilão roda”. — Percebi que ele abriu a boca para retrucar e nesse instante eu enfiei o pedaço de pão na sua boca. — Não quero saber dos seus comentários. Coma.
Goro fez uma careca engraçada antes de começar a mastigar a fatia em sua boca; com muito custo, conseguiu engolir. Esperei pacientemente até que ele se manifestasse:
— Preciso comprar pães novos.
— Sim, precisa. E levar a roupa na lavanderia. — Ele concordou com um aceno, pegando outra fatia de pão para passar geléia. Observei como um pouco havia ficado no canto de sua boca da primeira fatia que havia comido. — E também...
— Huh? — No instante em que ele levantou a cabeça na minha direção, eu me ergui até que estivesse com os lábios próximos do seu.
Lentamente, usando a pontinha da língua, eu lambi o restinho de geléia que havia ficado em sua boca; os carmesins foram se abrindo mais e mais diante dos meus olhos. Deixei que minha língua fosse escorregando para os seus lábios, contornando o inferior, depois o superior.
Levei minha mão à sua bochecha, acariciando sua pele com a ponta dos dedos gentilmente, permitindo que os fios de seus cabelos passassem por eles, colocando-os atrás de suas orelhas. Fui inclinando mais o corpo, pressionando mais firmemente minha boca na sua; nesse instante, Goro fechou os olhos, separando os lábios.
Deixei minha língua escorregar para dentro de sua boca, trazendo a outra mão ao seu rosto, fechando também os meus olhos para aproveitar a sensação do toque — a maneira como a sua língua se enroscava com a minha, o som da faca que ele havia largado para poder trazer os dígitos à minha nuca, enroscando-os por meus cabelos; o vibrar macio das suas cordas quando ele gemeu pelo toque, uma forma de acentuar o agrado pelo contato.
Afastei-me dele com um estalo das bocas, o ar se misturando pelas respirações descompassadas. Endireitei-me no balcão, ajeitando a blusa e os cabelos; assisti como Goro levou os dedos aos lábios, o rosto corado, os olhos incertos tentando focar em algum ponto, rememorando o toque que findou-se a pouco.
Sem nada pronunciar, comecei a buscar por uma chaleira para esquentar a água e preparar o sakura-yu. Tudo postos, acendi o fogão e comecei a esperar a fervura da água. O silencio ainda era presente, mas não era incômodo de fato.
— Né, Senpai... — A voz de Goro foi uma surpresa. Fitei-o, percebendo que ele voltou a passar a geléia sobre o pão, a cabeça meio baixa, um sorriso singelo, verdadeiro, cruzando seus lábios. — Obrigado.
Mordi a pontinha do lábio, prendendo o sorriso que queria a todo custo atravessar minha feição, a felicidade do meu peito alcançando o brilho dos meus olhos.
— De nada.
